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Flavio Mendes (Bossa Nova), As Curvas da Estrada de Santos, Roberto Carlos - O ARRANJO #38 (English subtitles)

As Curvas da Estrada de Santos, Roberto Carlos - O ARRANJO #38 (English subtitles)

O rock brasileiro dos anos 1960 ficou conhecido como iê-iê-iê e enfrentou muitas resistências entre os músicos brasileiros quando surgiu

Naquele momento, pós-bossa nova e pós golpe militar de 1964, a música brasileira estava num momento de busca das suas raízes,

de valorização da cultura brasileira, era a época das canções de protesto

O iê-iê-iê ia na direção contrária do que buscava aquela geração de artistas, a maior parte dela recém saída da universidade

Era uma música simples e muitas vezes simplória, com são os bons rocks, e ainda por cima era alienada politicamente

A cantora Elis Regina era uma das maiores opositoras daquele incipiente rock brasileiro,

representado pela santíssima trindade da jovem guarda: Wanderléa, Roberto e Erasmo Carlos

Elis chegou a liderar uma passeata contra a influência da música estrangeira, especialmente do rock,

na música brasileira, que ficou conhecida como a passeata contra as guitarras elétricas; corta.

Poucos anos depois, Erasmo estava na plateia de um show da Elis no Canecão, um dos palcos sagrados da MPB,

quando ouviu a gaúcha cantar As Curvas da Estrada de Santos, um dos sucessos dele com Roberto

Erasmo chorou copiosa e convulsivamente, e pensava: a gente é legal, porra! Taí a prova de que nós somos legais!

Era a volta por cima, o reconhecimento, era o fim de mágoas antigas e o começo de um novo tempo,

em que todos eram colegas e estavam no mesmo barco, o da música popular brasileira

Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo

Se você está gostando de assistir aos episódios, pense na possibilidade de apoiar O ARRANJO

e assim contribuir para que eu continue a produzir os programas, a partir de apenas 10 reais

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Se preferir contribuir com pix, a chave é contato@flaviomendes.com

As Curvas da Estrada de Santos foi lançada no disco de 1969, que não tinha nome, na capa era só Roberto Carlos mesmo

Foi o disco que iniciou a longa trajetória de 31 anos, de 69 até o ano 2000, em que o cantor não dava nome aos seus discos, ou todos se chamavam apenas Roberto Carlos

No disco anterior, com o nome de O Inimitável, Roberto tinha começado a se afastar da Jovem Guarda, tanto no som quanto na sua imagem

Em O Inimitável já tinha uma canção com influência da Soul Music, chamada "Se você Pensa",

mas é no disco de 1969 que se consolida a aproximação da música do Roberto com o funk e o soul

Um grande exemplo disso é a música "Não Vou Ficar", de Tim Maia, seu colega de início de carreira, na banda Os Sputnkis

A parceria Roberto e Erasmo não é como outras clássicas da música brasileira, como Tom e Vinícius,

Edu Lobo e Chico Buarque, Milton Nascimento e Fernando Brant, em que um faz a melodia e o outro a letra

Roberto e Erasmo trabalham juntos, letra e música, como conta Paulo César de Araújo, escritor e historiador, e autor da biografia "Roberto Carlos em Detalhes"

"Fundamentalmente, Flávio, as músicas de Roberto Carlos que ele grava são músicas dele com a participação do Erasmo, em grande parte

São temas que o Roberto desenvolve, começa a fazer, e se encontra com o Erasmo e os dois trabalham ali e tal

E as músicas que o Erasmo grava geralmente são músicas que o Erasmo desenvolve, começa a fazer e depois se encontra com o Roberto"

Com arranjo do maestro José Pacheco Lins, conhecido como Pachequinho, é a primeira gravação de As Curvas da Estrada de Santos,

do álbum Roberto Carlos, de 1969, que eu vou analisar nesse vídeo

UM POUCO DE HISTÓRIA

Zunga era o caçula de 4 filhos do relojoeiro Robertino e da costureira Laura, e nasceu na cidade de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo

Ele era um menino alegre e brincalhão, mesmo depois do acidente com um trem que o deixou aos seis anos com uma perna amputada logo abaixo do joelho

Segundo a sua mãe contava, ele antes de falar já assobiava, uma nota só, mas assobiava, e muito cedo descobriu que queria ser cantor

Roberto Carlos, o Zunga, aos 9 anos se apresentou pela primeira vez na Rádio Cachoeiro, da sua cidade natal, e o seu primeiro cachê foi um punhado de balas

Ele agradou e passou a ser presença fixa, até ganhar um programa próprio, com apenas 11 anos, em que cantava um repertório de boleros e samba-canções

Aos 15 anos, Roberto já tinha certeza de que queria se profissionalizar como cantor de rádio,

e convenceu os pais de que para ter alguma chance de sucesso ele precisava se mudar pro Rio de Janeiro, tentar ser contratado de uma rádio carioca

Ele não se mudou exatamente pro Rio, mas sim pra Niterói, na casa de uma tia, irmã da sua mãe

Durante um ano inteiro Roberto foi a todas as grandes rádios do Rio tentar se apresentar, sem sucesso

Ele já estava pensando em voltar pra Cachoeiro quando seus pais tomam a decisão oposta:

resolveram se mudar pro Rio, e foram todos morar no subúrbio, em Lins de Vasconcellos

Roberto continuava sem muitas chances nas rádios, e foi convencido pela família a fazer um curso de datilografia,

pra tentar arrumar algum emprego, e também a fazer um curso supletivo, pra terminar os estudos básicos

Nesse curso ele conheceu Arlênio Lívio, um morador do bairro da Tijuca, que frequentava um bar na Rua do Matoso, chamado Divino Bar

Levado pelo novo amigo, Roberto conheceu lá uma turma da pesada, futuros músicos como Tim Maia, Paulo Cesar e Renato Barros, esse do futuro Renato e Seus Blue Caps

Tim convidou Roberto para participar de um quarteto vocal, Os Sputniks, que só cantava em inglês, apesar de ninguém ali saber falar a língua

O Tim era o líder do conjunto, uma espécie de diretor musical, mas já era briguento, já era Tim Maia

Os Sputniks se apresentaram num programa de TV chamado Clube do Rock, que era dirigido e apresentado por um garoto vindo também de Cachoeiro do Itapemirim,

chamado Carlos Imperial, só que esse era rico, de família que chegou a ter títulos de nobreza na época do império, por isso assumiram o sobrenome Imperial

No fim da apresentação na TV, enquanto os companheiros do grupo foram comer um lanche, Roberto aproveitou pra puxar papo com Imperial

Começou dizendo que também era de Cachoeiro, meio que se enturmando e falou: eu imito o Elvis Presley

Cantou Tutti Frutti e Jailhouse Rock, e foi chamado pra se apresentar solo no programa seguinte

Quando Tim soube ele ficou furioso com o fato de Roberto ter aproveitado a apresentação do grupo pra cavar a sua vaga como cantor solo, e o grupo logo depois se desfez

Roberto passou a ser atração fixa do Clube do Rock, sendo sempre apresentado pelo Imperial como o "Elvis Presley brasileiro"

Tim resolveu procurar Imperial e acabou também sendo contratado como o "Little Richard brasileiro"

E Imperial não parou por aí: contratou também o iniciante Wilson Simonal, como o "Herry Belafonte brasileiro"- ou seja, era um programa de covers

Roberto conhecia só de vista um outro frequentador do Bar Divino, um rapaz alto chamado Erasmo Esteves,

amigo de infância do Tim desde que esse era ainda conhecido como Tião

Roberto queria cantar um novo sucesso do Elvis, Hound Dog, mas ele não tinha a letra da música

O seu amigo Arlênio disse que o Erasmo sabia tudo de rock, e ele deveria ter essa letra

"Um dia eu tava em casa quando chegou o Arlênio com o Edson Trindade, O Edson Trindade é o compositor de 'E eu, gostava tanto de você', que o Tim gravou no futuro

Então chegaram eles dois e disseram que queriam apresentar um rapaz, um amigo, um cara do Espírito Santo, que tá cantando na televisão, eu já tinha visto na televisão"

Começaram ali uma amizade, muito pelos interesses em comum: eram ambos fãs de Elvis, James Dean,

Bob Nelson, carros, revistas em quadrinhos e torciam pro mesmo time de futebol, Vasco da Gama

Era 1958, o ano do aparecimento de um cantor que fez Roberto se esquecer dos seus ídolos do rock: João Gilberto

Assim como quase todos da sua geração, Roberto ficou fascinado quando ouviu Chega de Saudade na voz do João

"Esse cara canta totalmente diferente, essa batida de violão eu nunca ouvi na vida"

Roberto nunca teve um vozeirão como os seu ídolo Nelson Gonçalves, ou como o do seu ex-colega de grupo Tim Maia

A voz dele sempre foi pequena, mas muito afinada, e a bossa nova parecia ser a música ideal para ele aparecer como cantor,

e o lugar de se cantar bossa nova era nas boates, e não nos grandes e barulhentos auditórios das rádios

E uma prima do Roberto era casada com um gerente de uma das mais prestigiosas boates da época,

a boate Plaza, em Copacabana, e ele foi contratado como crooner da orquestra de lá

"Eu me considero profissional de música desde que eu comecei a cantar no Plaza, que foi quando eu comecei a cantar profissionalmente mesmo"

Roberto ficou tão fascinado com João Gilberto que passou praticamente a imitar o baiano, e no Plaza deu-se um encontro entre o criador e a criatura

Paulo César de Araújo conversou com João Gilberto sobre Roberto Carlos

"Numa certa noite, na porta da boarte Plaza, o João Donato chega pra ele e fala: Ô João, vem ver você

Ele entrou, e ele lembra a música que o Roberto estava cantando

Então ele diz: 'Paulo, quando eu entrei na boate o Roberto estava cantando Brigas Nunca Mais"

Quem também apareceu no Plaza foi Carlos Imperial, que viu a foto do Roberto na entrada e resolveu ver o que o Elvis Presley brasileiro estava fazendo ali

O cantor explicou: cantando bossa nova, e o Imperial deu uma gargalhada,

mas o Roberto disse que depois de ouvir João tudo mudou, e que o rock tinha ficado no passado

Imperial ficou pra ouvi-lo cantar e gostou muito dele cantando bossa nova, e teve a ideia de produzi-lo como um novo João Gilberto

Imperial era enturmado, conhecia muita gente, e passou a levar o Roberto a qualquer reunião de bossa nova, até mesmo no famoso apartamento da Nara Leão

"Um apartamento bonito na Avenida Atlântica, aquilo eu fiquei impressionado, eu nunca tinha visto um apartamento assim, bicho"

Carlos Imperial compôs várias músicas no estilo da bossa nova para o Roberto ter um repertório inédito e passou a levar o cantor para fazer testes em gravadoras

Chantecler, Continental e Odeon o rejeitaram, mas Roberto conseguiu a chance de gravar um compacto na Polydor,

com João e Maria, música dele com Imperial, e Fora do Tom, só do Imperial

Essa última música era um pastiche de bossa nova, citando canções do estilo e até uma frase melódica inteira de Se Todos Fossem Iguais a Você, com a mesma letra

Não podia dar certo, não deu, ninguém comprou, e quem ouviu não deu importância, e o projeto de gravar um LP na Polydor não foi pra frente

E o Roberto não tinha apoio no grupo fechado que era a turma da bossa nova, ele participou de um ou outro show,

mas a semelhança da voz dele com a do João Gilberto incomodava

"E a turma, a turma já tinha dado um toque, ele canta imitando o João Gilberto, eu digo 'não, não é não', eu tenho certeza que não era imitação, era a voz dele

Mas acabou o show e eu falei Roberto, eu queria bater um papo com você

Ele falou: 'o que que é?', 'Tá acontecendo isso e isso'

E ele falou: 'Cara, eu não imito o João, não procuro imitar o João, é a minha voz mesmo'

Ele ficou meio triste assim, sabe, 'mas vem cá, eu tô cortado da coisa?', 'Não, não, a gente só tá pedindo pra você dar uma estudada, veja se dá uma mudada nisso'"

De novo Imperial e Roberto voltaram a procurar as gravadoras: RCA-Victor, Philips, RGE, Copacabana, em todas ele foi rejeitado,

e só faltava uma companhia, a Columbia Broadcast System, a CBS

Carlos Imperial ligou para o diretor artístico da CBS, Roberto Corte Real, e marcou uma reunião

"Aí ele disse, bicho, vai botar um paletozinho que a gente tem que estar lá às 3 da tarde'

Aí eu corri, fui a Lins de Vasconcellos e quando foi 3 horas eu tava lá na CBS no corredor, esperando o Imperial falar com o Roberto Corte Real

Aí ele veio e falou assim: 'Olha, a coisa tá indo bem, eu já mostrei o disco ele gostou, vem cá, ele vai dizer pra você'

Eu entrei e o Corte Real disse: 'olha, vamos gravar um disco com você'"

Esse disco, chamado de Louco Por Você, era tão genérico que a capa nem tinha a foto do Roberto:

foi usada uma foto de um outro disco da Columbia, mas que não foi lançado no Brasil, do organista Ken Griffin - só trocaram as palavras em inglês

O disco não vendeu, o produtor artístico Corte Real saiu da Columbia, e tudo indicava que Roberto não teria uma segunda chance

Mas o novo todo-poderoso da CBS, Evandro Ribeiro, resolveu investir em Roberto,

e a parceria entre eles deu tão certo que ele foi o produtor de todos os discos do Roberto até 1983

Evandro indicou pra Roberto que o caminho a seguir era o da música jovem, do rock que estava em fase de transição, saindo do tempo do Elvis e Little Richard, e Evandro acertou

A música título do segundo disco do Roberto era Splish Splash, uma versão de Erasmo Carlos para uma música de Bobby Darin

Na verdade, versão não é o termo correto, porque o Erasmo não falava inglês, não sabia o que era dito na letra da música,

e sem essa referência criou uma letra em português que nada tinha a ver com a original

O Splish Splash original fazia referência a um objeto caindo na água, mas Erasmo imaginou que era o som de um beijo seguido de um tapa, dentro de um cinema

Roberto gostou da letra, e quando começou a compor uma música que viria a ser Parei na Contramão chamou o amigo pra trabalhar com ele nesse rock básico, de três acordes

Dali pra frente tudo foi diferente: sucessos empilhados como "O Calhambeque" e "É Proibido Fumar", alçaram Roberto ao trono de grande ídolo da juventude brasileira

Um tempo depois, Roberto Carlos e Roberto Menescal se reencontraram em um aeroporto

"Ele já de cachimbo, com a mulherada em volta, quando ele olhou assim e me viu, falou:

'Ô bicho, obrigado, bicho', já me sacaneando, 'Foi bom você ter me dado o toque!'"

Em agosto de 1965 estreou o programa Jovem Guarda, na TV Record de São Paulo

Roberto não era nem a primeira, nem a segunda, nem a quinta opção para apresentar o programa,

mas acabou sendo indicado por Erasmo Carlos pra fazer o teste de vídeo, e aí ele arrasou

Segundo o diretor da TV Record, Paulinho Machado de Carvalho, filho do dono do canal de televisão, Roberto passou no vídeo uma expressão infantil,

um olhar de quem precisa de apoio, ao mesmo tempo uma coisa maternal de quem quer tomar conta de todo mundo

Apesar de todo o sucesso da Jovem Guarda, Roberto continuou antenado ao que havia de moderno na música mundial

Quando o cantor francês Johnny Hallyday fez uma temporada no Brasil em janeiro de 1967, Roberto Carlos foi assisti-lo em São Paulo

No Rio o show acabou não acontecendo, porque a cidade sofreu um daqueles temporais de verão

e o cantor acabou ficando preso na enchente, e até carregou a mulher nas costas

Mas no show de São Paulo Roberto ficou muito impressionado com a presença na banda de metais,

e resolveu colocar 3 sopros na sua banda, formando o conjunto RC-7: Roberto Carlos e 7 músicos

Convidados pelo tecladista Wanderley, entraram na banda o saxofonista Nestico, o trompetista Maguinho Alcântara

e no trombone um dos maiores trombonistas brasileiros de todos os tempos, Raul de Souza

Esse trio de sopros gravou Quando, uma das primeiras aproximações do som do Roberto com a black music,

mas a influência mais clara na levada da música é da música Taxman, dos Beatles

No início de 1968 o programa Jovem Guarda começou a perder força, e a perder na audiência para o programa Sílvio Santos,

que estava começando a dominar os domingos na televisão brasileira

Roberto resolveu sair do programa Jovem Guarda, que sem ele não durou mais muito tempo no ar, e começou a se redefinir como artista

Um dos primeiros passos foi a participação no importante festival de San Remo na Itália,

em que ele tirou o primeiro lugar com a canção romântica Canzone per Te, de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti

A parceria com Erasmo, que ficou parada entre 66 e 67 por causa de um desentendimento entre eles, estava frenética, acumulando hits e mais hits

Um desses hits surgiu quando Roberto descia a serra do mar, indo do seu apartamento de São Paulo para o Guarujá pra fazer um show

Dirigindo naquelas curvas da estrada de Santos ele teve a ideia de uma música

"É curioso, porque ele já tinha feito diversas canções falando de automóveis, desde "Parei na Contramão", "Por Isso Corro Demais", o próprio "Calhambeque"

Mas é sempre assim: ou ele está correndo atrás da garota, ou ele está cercado de garotas, no caso do Calhambeque, ou ele está ali de olha em uma garota

Mas ele quis desenvolver nesse sentido um tema original na discografia dele, um tema que ele está no carro mas ele está numa terrível solidão, ele está abandonado, ele está triste"

Seguindo o processo de trabalho comum na parceria, Roberto desenvolveu o tema e depois chamou o Erasmo pra juntos terminarem As Curvas da Estrada de Santos

1. MELODIA É interessante notar que na aproximação com o canto soul, dos Estados Unidos, Roberto Carlos não mudou muito o seu estilo de cantar

Claro, é um canto muito mais pra fora, mais forte, mas não tem floreios, não tem excessos, não tem muitos vibratos, não tem os melismas que caracterizam o canto soul

Não tem isso no canto do Roberto Carlos, ali está o canto moderno brasileiro, na linha do João Gilberto,

como identificou o poeta Augusto de Campos em um dos textos do livro Balanço da Bossa

O texto se chama "Da Jovem Guarda a João Gilberto", e nele Campos observa como os cantores da Jovem Guarda cantam descontraídos, com naturalidade

Na chamada MPB a interpretação estava indo pra outro lado, e ele coloca como exemplo a Elis Regina, que estava cantando de forma mais teatral e melodramática

Ou seja, o canto mais próximo da interpretação de João Gilberto estava com o pessoal do iê-iê-iê

No caso da melodia de As Curvas da Estrada de Santos esse despojamento no canto é facilitado porque é uma melodia que dá margem a esse canto mais falado, com um ritmo mais solto

Nessa gravação especificamente, o Roberto canta uma nota na primeira parte que não vai repetir mais, nem na segunda vez,

e nem nas outras tantas vezes em que ele cantou essa música, pelo menos as que eu ouvi

É uma nota alterada, uma espécie de blue note: "a velocidade anda junto à mim"-

eu gosto dessa nota, mas ele não cantou mais assim

2. ORQUESTRAÇÃO Em 1969 Roberto Carlos morava em São Paulo, e era onde moravam os músicos que o acompanhavam, o RC-7,

mas as gravações desse disco foram feitas nos estúdios da CBS do Rio de Janeiro

Como boa parte dos discos daquela época, esse disco não traz nenhuma informação sobre os músicos que tocam nas faixas

Paulo César de Araújo entrevistou o músico e produtor Mauro Motta, que tocou órgão nessa gravação, e ele identificou os outros músicos da base:

Toni Pinheiro, na bateria, Renato Barros, do grupo Renato e seus Blue Caps na guitarra e o irmão dele, Paulo César Barros no baixo

Mas os sopros eram os do RC-7, inclusive Clécio Fortuna no sax barítono, que até hoje toca na banda do Roberto

Ele se lembra que no trompete estava o Maguinho Alcântara, mas não tem certeza de quem tocou o outro sax, poderia ser ou Pique Riverti ou Deronir, e no arranjo ainda tem coro e cordas

Clécio fala sobre o arranjo do maestro Pachequinho

"Aquele arranjo foi quase feito na hora, ele bolava quase que no dia da gravação"

Essa gravação foi marcada para às 9 da manhã, o que não era comum nas gravações do Roberto

"Eles chegaram às 9 horas da manhã, mas pra surpresa deles o Roberto já estava lá também, ele tava ansioso pra gravar aquilo,

coisa que nunca acontecia, ele sempre chega depois, os músicos ficam esperando"

Possivelmente o Roberto já tinha noção da importância que essa gravação teria, ele deveria saber que estava com um grande sucesso pra lançar

3. A FORMA DO ARRANJO As Curvas da Estrada de Santos é uma música sem refrão, são 3 partes praticamente iguais, de 16 compassos

As duas primeiras partes são iguais, e só na última parte é que a música resolve, como se fala, repousa na tônica

Essa gravação tem uma pequena introdução, depois o Roberto canta a música toda, as 3 letras, seguida de um intermezzo instrumental de 8 compassos

Volta na terceira parte e fica repetindo os últimos 4 compassos como coda, em fade out

A introdução na verdade nem pode muito ser chamada assim, na verdade é a repetição com os sopros do acorde dominante por três compassos

A banda toca um som bem funky, suingado, ouçam bem a bateria, muito criativa na levada

Os sopros tocam como tocarão na maior parte do arranjo:

trompete e sax em uníssono e o sax barítono na mesma melodia, mas duas oitavas abaixo

Frase cromática ascendente nos sopros

E a nota alterada na melodia com o Roberto

Na segunda parte aparecem as cordas

A frase de contracanto das cordas também é em intervalo exato de duas oitavas

É a mesma frase, só que em regiões diferentes

As intervenções dos sopros são exatamente as mesmas da primeira parte

Baixo, guitarra e órgão: cada um faz o seu groove, toca na sua região e ninguém briga com ninguém

Na terceira parte aparece o coro feminino a três vozes

O coro canta com bastante vibrato, bem soul,

e forma um timbre bem interessante com o órgão, os timbres ficam misturados

Não falta o indefectível yeah!

Intermezzo instrumental com os sopros no mesmo esquema:

sax e trompete em uníssono, sax barítono duas oitavas abaixo

E a cama harmônica no órgão

Um dos poucos acordes abertos nos sopros nesse arranjo, e é um acorde dissonante

Na repetição da terceira parte tem o mesmo contracanto de cordas,

as mesmas frases de sopros, e ainda o coro, tudo junto

A coda é só com o coro e seus yeahs, cantados com muito vibrato, bem soul

Bom, esse foi O ARRANJO, se você gostou dá um like, se inscreve no canal, compartilha o vídeo

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Muito obrigado, até uma próxima

"O Roberto ligou lá pra casa e avisou que ia, a gente ficou emocionado de saber que ele ia lá

Foi uma coisa incrível porque a gente lá, exilado, longe do Brasil, e chegar o rei assim, né?

Ele pegou o violão e disse: 'vou cantar uma música', e cantou 'As Curvas da Estrada de Santos', que é tão bonita

Aquilo ouvido ali, naquela hora, eu chorei tanto, me acabei de chorar

É uma coisa importante que a gente saiba quem é que a gente chama de rei"

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