SONHEI COM VOCÊ
-Alô. -Oi, Pedro.
Oi, Carlinha. O que você me manda?
Então...
estou ligando porque eu sonhei com você.
-Sonhou comigo, é? -Sonhei muito com você.
-Caraca e foi bom? -Foi ótimo.
A gente estava ali naquele barzinho em Ipanema,
-que a gente sempre vai. -E depois do bar?
A gente saiu...
e você me pagou aquela dívida que tem comigo desde 2013.
Porra. Aí, não, Carlinha.
-Dívida? Você lembra disso ainda? -Lembro muito.
E foi muito real, gente.
Você foi ali naquela agência que é do lado do bar mesmo.
Você saía de lá com o comprovante do depósito tão feliz.
Maneiro.
Pô, eu mesmo nem lembrava disso.
Mas esquece isso, Carlinha. Deixa isso pra lá.
Esquecer como, né, Pedro?
Você me pediu um dinheiro emprestado pra dar entrada no seu Celta.
Depois, nunca mais falou do assunto. Já tem oito anos.
E aí no sonho, a gente falava. A gente tinha essa conversa.
E a gente falava também do Paulinho.
Paulinho? Quem é Paulinho?
Paulinho, amigo de um primo meu que é miliciano.
Uma loucura. No sonho, eu o coloquei
pra ir atrás de você depois do seu trabalho.
Aí você saía lá na Presidente Vargas,
pegava o metrô, saltava no Catete. Passava no mercadinho,
-antes de ir pra casa. -Que isso, Carlinha.
Aí na hora de pagar, uma confusão. Você deixou o alho cair no chão.
Aí você foi pegar o alho, deixou o celular cair no chão.
Pegou o celular e limpou numa camisa amarela
-que você estava vestindo. -Aconteceu exatamente isso ontem.
Exatamente isso aí que você está falando.
Caraca. Será que eu sou sensitiva?
Muito maluco. No sonho, você continuou andando pra casa.
E aí, chegou lá na portaria do seu prédio, tudo escuro.
Não tem porteiro. Inclusive, bem perigoso.
E é aí que Paulinho entra. Ele te dá uma cassetada na cabeça.
Você caiu duro.
Aí você acordou do nada, lá na Praça Mauá,
que é onde o Paulinho tem um ponto de desova
-de cadáver de vacilão. -Isso é pesadelo, Carlinha?
Pelo amor de Deus.
Eu vou pagar logo essa dívida que eu estou com você aí.
-Pelo amor de Deus. -Que bom.
Mas assim, sabe que a gente é amigo. Não tem essa pressa.
Com a gente, não tem essa.
Não, mas eu faço questão, Carlinha.
-Pra gente se livrar logo disso. -Então está bom.
Você acha que consegue depositar nesse meu cochilo?
É que eu estou cheia de sono.
Eu estou sentindo que eu vou sonhar
com um cunhado meu que é metido com tráfico.
Amiga...
sonhei de novo com você.
Não, dessa vez, você me devolvia aquela blusa azul.
Que eu te emprestei tem dois anos.
Aquela que você usou pra sair com o seu amante,
fingindo que estava comigo.
Pois é, no sonho, você estava morrendo de medo
de eu falar pro seu marido.
Mandou motoboy vir trazer a blusa aqui em casa.
Tá? Beijo.