QUERIDO MARCÃO
E hoje à tarde, teve mais uma morte
no bairro de Sulacap.
Outra tragédia, né? Que tirou a vida
de um homem muito querido e conhecido no bairro.
O Marcos Avelilo, ou Marcão.
Vamos agora falar com um dos vizinhos
que conhecia a vítima. Boa tarde.
Opa. Boa tarde, Sonia.
Pois é. Infelizmente, a gente está vivendo
essa falta de segurança aqui na nossa área.
-E a vítima era um amigo seu. -Não. Amigo não era, não,
mas era vizinho há mais de 20 anos.
Isso aí a gente era, com certeza.
Fala pra gente, então, da tua relação com ele.
É muito carinho, né?
Eu vou ser sincero pra senhora, a gente mal se falava, né?
Ele só andava com cara fechada. Acho até que foi
ele quem riscou meu carro quando eu estacionei
em frente à garagem dele.
Vou falar, sim. Já morreu.
E alguma lembrança boa desses 20 anos?
Tantos momentos, meu Deus.
Lembrança boa, boa, não tem, não.
Ele tacava muito ovo aqui em casa, dona Sonia.
Uma vez, ele fez cocô no meu portão.
Fui reclamar com ele, ele jogou Baygon na minha cara.
Eu enxergo mal desse olho esquerdo até hoje.
É, mas tem a situação triste do bairro, né?
-Como é que fica agora? -Acho que fica até mais tranquilo.
Fica bem mais leve, porque ele andava
com um pedaço de pau, quebrando a lixeira de todo mundo na rua.
Então acredito que a Comlurb deve estar contente mesmo.
Está certo, então, né? A gente vai agora
falar com a irmã do Marcão.
Uma pessoa que cresceu com ele e, agora,
não vai mais poder abraçá-lo na noite de Natal, né?
De aniversário.
Isso. O Marcos era meu irmão. Eu moro nos fundos da casa dele.
Há muita emoção aqui agora.
Então conta pra gente do seu irmão.
Eu não posso, né?
Eu não falava com ele há mais de 15 anos.
Ele roubou tudo da minha mãe antes de ela morrer,
inclusive a casa que ele mora,
e me despejou lá pro depósito dos fundos.
Tem alguma lembrança boa da infância de vocês?
Tenho. Ele inventou na escola que meu avô abusava dele.
Meu avô morreu na cadeia com 82 anos
por um crime que não cometeu.
Está certo, né? Às vezes, a relação familiar é
-difícil mesmo, né? -Virou santo de uma hora pra outra?
E, às vezes, a gente fica num choque tão grande
que não consegue expressar nossa tristeza.
Mas se tem alguém que deve estar sentindo
falta do Marcão é a esposa dele.
O quarto vazio, as roupas no armário.
Deve ser difícil, né? Então vamos falar com ela, produção?
Está carregando.
-Ela está dançando. -Opa, Sonia.
Um prazer falar com você aqui, querida.
Você não está abalada com a morte do seu marido?
Eu confesso que, quando eu dei a primeira paulada,
ele ficou meio desnorteado, saiu catando cavaco
eu fiquei meio sentida, sim.
Mas depois eu lembrava de quando ele chegava em casa,
bêbado, chutando os cachorros, aí foi mais tranquilo.
Você matou seu marido e está fazendo um churrasco
-pra comemorar. -Sonia, é espetinho de Marcão.
Não vejo a hora de cagar esse filho da puta.
Não, gente, eu desisto. Vamos pros comerciais.
Senhor policial, já fizeram alguma prisão
no caso da morte do Marcão?
A informação procede. A gente tinha muita vontade
de prender o Marcão, mas esse filho da puta morreu
antes que a gente chegasse aqui.
Bom, mas vocês já têm a confissão da esposa, né?
Positivo. A esposa confessou. Estamos analisando
a possibilidade de estar vendo...
de entregar uma medalha de honra ao mérito pra ela.
Vocês não vão prender a mulher por homicídio?
Sonia, você conheceu o Marcão?
Porque esse filho da puta andava com um saquinho de farinha de trigo
pra gente enquadrar, botava na viatura,
ele mijava a porra toda.
Você sabia que mijar na viatura não é crime?
Aí quando a gente verificava que a droga não era droga,
tinha que liberar ele.
Ela não vai nem na delegacia pra prestar um depoimento?
Eu vou falar pra você, Sonia, que primeiro,
a gente vai deixar terminar o churrasco mesmo.
E parece que estamos, ainda, na primeira coxa.