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Porta Dos Fundos 2018, ME PRENDE

ME PRENDE

Tem início a audiência da Ação Penal 50465295.

Depoimento do senador Luis Claudio Costa.

Excelência, por favor, só um requerimento aqui.

-Pois não, senador. -Eu gostaria de fazer uma pergunta.

A nível de curiosidade.

Se eu confessar o meu crime, eu já vou preso daqui?

Não, agora, não. Tem a segunda instância ainda.

Tá. E essa segunda instância pode ser hoje?

Não, aí é outro juiz que marca.

Entendi. E se for outro crime?

Que outro crime, senador?

Qualquer outro crime desses que você está investigando aí:

Lava-Jato, Odebrecht, Furnas, BNDS...

Qualquer coisa dessa aí.

Não. No caso, o senhor, como senador, tem imunidade.

Só é preso em flagrante de crime inafiançável.

Que são...?

Terrorismo, tráfico de drogas, sequestro.

Tortura.

-Aí é na hora? -Não.

Nesse caso, os autos são enviados pra Câmara,

e eles decidem no voto se o senhor vai ser preso ou não.

Tá. E se eu renunciar?

Senador, se o senhor está com medo de ser preso hoje,

o senhor pode ficar tranquilo porque isso não vai acontecer.

Não, é muito pelo contráro. Eu quero ser preso hoje.

-Como assim, senador? -Minha vida está uma merda, excelência.

Entendeu? Eu roubei? Roubei.

Roubei bem, roubei legal, roubei bacana. Entendeu?

Minha mulher comprava aquelas bolsas dela

de Louis Vuitton, de Balenciaga, sei lá o quê.

Mas olha só pra minha cara, doutor.

Olha o tamanho destas olheiras aqui.

E o senhor ainda quer ser preso? Não estou entendendo.

O senhor não está entendendo porque não acorda todo dia

às 5h30 achando que a polícia vai bater à sua porta às 6h, né?

Eu estou nessa agonia. Eu acordo... Não tem nem alarme!

Já vai no automático!

O senhor lembra, na época de escola,

quando o senhor dava um pescotapa assim no seu amigo,

e ele tinha o direito de revidar?

Aí, só de sacanagem, ele não revidava,

e você passava o recreio inteiro

esperando aquele pescotapa que não vinha.

E você nem aproveitava o recreio.

Eu estou assim, doutor.

Há 2 anos e 8 meses, esperando esse pescotapa que não vem.

Isso é desumano.

Senador, eu não posso acreditar que o senhor está disposto

a abrir mão da sua liberdade por causa dessa ansiedade.

Tem liberdade, não, doutor.

Não posso ir a um restaurante, que nego me xinga.

Eu vou a um estádio de futebol, e nego me mata.

A minha mulher já não olha na minha cara.

As minhas filhas ficaram putas já comigo.

A mais nova inclusive, só de sacanagem, virou puta.

Puta mesmo. Virou puta. E ela está gostando.

Nem viajar mais eu posso.

Senador, me lembro de ter bloqueado suas contas,

agora não me lembro de ter impedido o senhor de viajar.

O senhor bloqueando minhas contas, eu não posso viajar de jatinho.

Como eu tenho que viajar agora? De avião de carreira.

Pegar voo de Tam, Gol, Avianca, essas coisas.

O senhor sabe o que acontece comigo quando eu piso num avião desses?

Já começam aquelas fileiras 12 e 13

levantar já o celular ligado com a câmera,

e os outros levantam com tocha acesa já.

E aí sou eu lá dentro, 1h30 preso, que não posso nem sair de lá.

com aqueles gregoristas lá me enchendo o saco,

mamãe-falei, aqueles...

Uma hora e meia de bullying lá dentro.

Então por que o senhor não aproveita,

já que não está conseguindo sair de Brasília,

para trabalhar um pouco, quem sabe?

Relaxar um pouco a cabeça.

Primeiro que eu não gosto de trabalhar.

O senhor deve ter a minha presença no Congresso,

que o senhor vai ver que é raríssima.

Eu vou pouco lá porque meu clima lá é uma merda.

Eu votei pra Dilma ficar, aí o pessoal da direita já não gosta.

Depois eu votei para o Temer ficar,

e o pessoal da esquerda também não vai com a minha cara.

Outro dia,o Jean Wyllys veio cuspir em mim, eu sou bom de esquiva, pegou aqui.

E aí, quem sobra para eu conversar?

Sobra Bolsonaro e Lindberg.

O senhor já sentou numa mesa com Bolsonaro e Lindberg

para tomar um chope?

É melhor arranhar um quadro negro. É mais gostoso do que isso, doutor.

Não dá para mim. E aí, quem sobra para mim?

Só meus amigos pessoais.

Senador, aí já não é da minha conta.

O senhor que vá encontrar seus amigos pessoais depois daqui.

Mas é exatamente isso que eu estou tentando, doutor.

Vai.

Senador, recomponha-se.

Senador, não adianta. Isso não é crime hediondo, senador.

Senador, não adianta.

Cagar, não. Cocô não é legal.

Não, não, senador. Por favor, não. Não, senador.

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