DIA DO SACI
Doces ou travessuras?
Não vai comer tudo de uma vez só, não, ouviu?
Pra não dar dor de barriga.
Não esquece de escovar o dente. Cuidado com a cárie!
Ai, ai...
-Pois não? -Boa noite, meu amigo.
-Fumo ou esculacho? -Como é que é?
Fumo ou esculacho?
Desculpa, é... O senhor é quem?
Pô, eu sou o saci. Não tá reconhecendo, não?
Feliz Dia do Saci.
Pô, obrigado, viu?
-Valeu, é que hoje é Halloween... -Por acaso é o mesmo Dia do Saci.
Eu não sabia disso, não.
Pô, tu comemora feriado americano,
mas tu não tem o fumo do saci brasileiro na tua casa, né?
Não. Eu não sei nem como é que funciona essa coisa...
Olha, é bem autoexplicativo. Ou você me dá um fumo
ou eu te dou um esculacho, entendeu?
-Bem simples. -Entendi.
Mas quê que você quer dizer com esculacho? Eu nem conheço... Opa...
Qual foi? Tu me deu um empurrão, cara?
O saci é um ser muito violento no folclore brasileiro.
Pô, irmão, com licença, viu? Eu vou ter que entrar aqui.
-Depois a gente se fala. -Calma aí, meu camarada.
Olha só, é um negócio super simples.
Tu me dá um varejo que tem guardado em algum lugar,
um cigarrinho de palha, um pedaço de haxixe, uma seda...
Qualquer coisa que eu possa fumar.
Aí eu vou embora e não te dou um esculacho, entendeu?
-Foi você que inventou essa merda? -Não. Não fui eu que inventei, não.
Foi Monteiro Lobato. Já ouviu falar em Monteiro Lobato?
Olha, parabéns, viu, pelo seu dia, mas eu vou entrar,
que eu tenho que resolver um monte de coisas aqui, tá? Fica pra próxima.
Fica pra próxima...?
Qual foi? Tu chutou a minha porta, irmão?
-Saci dá voadora, meu parceiro. -Caralho, irmão. Olha só,
eu vou pedir com educação. Será que você pode se retirar, por gentileza?
-Pode ser? -Meu camarada, não me enrola.
Todo mundo tem um tipo de fumo em casa.
Dá o mato do saci logo. Vambora. Rapidinho ou vai levar um esculacho.
Olha, até tenho fumo em casa, sim. Só que eu não vou te dar, irmão.
-Sabe por quê? -Por quê?
-Porque eu não quero! -Ah, não?
Não!
Não vai prestigiar a cultura nacional, não?
-Não vou prestigiar. E aí? -Não tem problema.
O saci deseja um bom dia pra você e pra sua família.
-Obrigado. -Lembrando...
que nem sempre o saci é um sujeito camarada e gente boa.
E o saci anda, ó, com gorro mágico, que tem todo tipo de objeto nele.
Por exemplo, uma tesoura,
que pode servir pra cortar a luz de alguém que não foi legal com o saci.
-Caralho... -Ele pode tirar também
uma chave, que não abre porta nenhuma, mas funciona super bem
pra arranhar esse Vectra que fica estacionado aqui na esquina.
-Puta que pariu... -Ou até mesmo um pedaço de cocô,
que o saci tira do gorro e passa aí na tua porta.
Aí, quando você sair de manhã,
vai saber que tomou um esculacho do saci.
Tá, então espera aí um minutinho. Vou buscar aqui.
Opa... Fuminho do saci...
-Serve Hollywood? -Pode ser qualquer um.
Aqui, ó. O saci também por acaso está sem relógio,
e esse relógio é bem bacana, hein.
Desculpa, amigo. Eu não vou te dar meu relógio, não.
Ah, não vai dar, não, né?
Aí, galera! Esculacho em grupo. Pode chegar!
-Quê que é isso? -É o bonde do saci, meu camarada.
Caralho, irmão... Toma logo essa porra aí, vai.
Muito obrigado. Um feliz Dia do Saci pro senhor e pra sua família.
Vambora, galera!
Bora, galera. Bora!
Isso, ganhou bem, ganhou bem, ganhou bem.
Bora. Pega o curupira americano aí. Vai, vai.
Boa, vai. Desce a... Desce a rua. Traz a pia, mano. Traz a pia.
Caralho, ninguém pegou o cachorro? Não pegaram o cachorro, não, porra?
Vai. Desce, porra! Desce!