ROUPA ADEQUADA
Ô, Raquel. Duas coisas...
Você entrega esse relatório ali para o...
Pra quem?
Para o Medeiros.
É para entregar para o Medeiros.
Ah, tá.
Quando ele chegar eu deixo na mesa dele.
E a segunda coisa?
Desculpa, Raquel... É que eu não pude deixar de...
Você tá de burca?
Ah!
Tô.
Eu que tenho que pedir desculpa, chegar assim, sentei aqui, não falei nada.
Desculpa.
Não, eu não tenho nada a ver com isso.
Cada um segue a religião que quiser, eu só...
Religião?
Eu sou ateia, Armando! Nem parece que saiu pra beber comigo ontem à noite.
Eu tô assim porque eu vim de ônibus.
Desculpa, eu não entendi.
Eu sou mulher, moradora de Duque de Caxias,
pego 3 ônibus pra chegar aqui nesse escritório,
você tem noção do que é isso?
É muita cantada?
Cantada?
Isso é o de menos!
É ejaculada direto em mim.
Eu levo uma ejaculada em cada condução.
No ombro, ejaculada na perna, na cara.
Pra você ter noção,
eu tinha que sair com 20 minutos de antecedência de casa
pra poder chegar aqui no escritório
e ir correndo para o banheiro para tirar aquela clara de ovo seca que fica.
Ficava aqui no rosto, aí eu vinha raspando com a unha
tentando arrancar, mas tinha que passar um sabonetinho
pra sentar aqui e conseguir trabalhar.
Hm.
E aí os caras respeitam mulçumana, é isso?
Porra nenhuma!
Eu fico assim toda coberta porque eu sei que quando botar o pau pra fora,
for ejacular, pega na burca e não pega em mim.
Caramba, eu achava que os caras respeitavam essas coisas de religião, pelo menos.
Respeita porra nenhuma.
Ninguém respeita nada não.
Você ver aqui Débora, ó.
Débora veio de freira hoje e levou uma ejaculada no olho.
Por isso que eu vim de burca, porque ó, só o olhinho de fora e se eu quiser
meto um óculos escuro.
Pá! Foi!
Ah...
Ô, Raquel... O irmão da Bianca é policial,
de repente vocês podiam falar com ela pra ver se ele escoltava, aliás...
Cadê a Bianca, hein?
Ali, ó.
Acabou de chegar.
Bianca vem de trem, né?