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A Morte de Ivan Ilitch, Parte 2 – Testo da leggere

A Morte de Ivan Ilitch, Parte 2

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2: Parte

Sua filha mais velha já estava com

dezesseis anos, outro bebê havia morrido e restava-lhe apenas um filho, um estudante que era

objeto de constantes discussões. Ivan Ilitch queria que o menino entrasse para a Escola de

Direito, mas Prask ovya Fiodorovna mandou o garoto para o colégio. A menina fora educada em

casa e tivera bons resultados; o garoto também não ia nada mal nos estudos.3

Assim continuou a vida de Ivan Ilitch após dezessete anos de casamento. Ele agora era um

promotor público de longa carreira e havia declinado várias propostas de transferência na

esperança de ganhar cada vez mais espaço, quando um indesejável e desagradável incidente

veio destruir o pacífico andamento de sua existência. Contava ser indicado para juiz em uma

cidade universitária, mas Hoppe, de algum modo, passou na sua frente e garantiu a nomeação.

Ivan Ilitch, irritado, acusou Hoppe, desentendeu-se com ele e com seus superiores imediatos.

Deram-lhe um gelo e na hora de fazerem nova indicação foi novamente posto de lado.

Isso aconteceu em 1880, o ano mais difícil na vida de Ivan Ilitch. Nesse ano ficou evidente

por um lado que seu salário era insuficiente e por outro que havia sido esquecido por todos, e o

que a seus olhos era a mais monstruosa e cruel das injustiças pareceu aos outros um fato

corriqueiro. Nem mesmo seu pai sentiu-se compelido a ajudá-lo. Ivan Ilitch sentiu-se

abandonado por todos, que consideravam sua situação, com um salário de três mil e quinhentos

rublos, perfeitamente normal, até mesmo muito boa. Só ele sabia que, com as injustiças de que

fora vítima, com as eternas reclamações de sua esposa e as dívidas que se acumulavam pelo fato

de viver acima de suas posses, sua situação estava longe de ser considerada normal.

A fim de diminuir as despesas, tirou uma licença e foi com sua esposa passar o verão na

casa de campo do cunhado.

No campo, livre de obrigações oficiais, Ivan Ilitch experimentou, pela primeira vez na vida,

não um simples ennui, mas uma insuportável depressão, e decidiu que as coisas não poderiam

continuar daquele jeito, e que deviam ser tomadas medidas enérgicas.

Depois de uma noite em claro, caminhando de um lado para outro na varanda, decidiu ir a

Petersburgo e tomar providências para conseguir transferência para outro ministério e puni-los a

todos, o que significava aqueles que não souberam dar-lhe o devido valor.

No dia seguinte, apesar de todos os esforços de sua esposa e do cunhado para fazê-lo mudar

de idéia, embarcou para Petersburgo.

Foi com um único objetivo em mente: conseguir um cargo com um salário de cinco mil

rublos. Não tinha predileção por nenhum ministério em especial, ou por alguma tendência, ou

sobre o tipo de trabalho que teria de exercer. Tudo o que queria era uma indicação para um posto

que pagasse cinco mil rublos, tanto podia ser no serviço administrativo, no departamento

financeiro, nas estradas, em uma das instituições da Imperatriz Maria, como na alfândega –

qualquer coisa, contanto que lhe pagassem o salário desejado e levassem-no daquele

departamento onde não souberam dar-lhe o merecido valor.

E vejam só: a viagem de Ivan Ilitch foi coroada de um surpreendente e inesperado sucesso.

Em Kursk , um conhecido seu, F. S. Ily n, embarcou no mesmo veículo de primeira classe e falou-

lhe de um telegrama que acabara de receber do governador de Kursk, anunciando uma mudança

que estava para acontecer no Ministério: Piotr Ivanovich seria substituído por Ivan Semeonovich.

A mudança proposta, além do que significava para a Rússia, tinha um significado especial

para Ivan Ilitch, por colocar em evidência um novo homem, Piotr Petrovich, e, sem dúvida, com

ele, seu amigo Zahar Ivanovich, o que lhe seria altamente favorável, uma vez que haviam sido

amigos e colegas.Em Moscou, as notícias foram confirmadas e, assim que chegou a Petersburgo, Ivan Ilitch

procurou Zahar Ivanovich, que prometeu indicá-lo em seu antigo departamento, o Ministério da

Justiça.

Uma semana mais tarde telegrafou à sua esposa: “Na primeira oportunidade Zahar indicar-

me para o lugar de Miller”

.

Graças a essa mudança de pessoal, Ivan Ilitch obteve inesperadamente uma promoção em

seu antigo Ministério que o colocou dois níveis acima de seus ex-colegas, além de lhe

proporcionar a renda de cinco mil rublos, mais uma ajuda de três mil e quinhentos para as

despesas decorrentes da mudança. Todas as queixas contra seus antigos inimigos e o

departamento foram esquecidas e Ivan Ilitch deu-se por totalmente satisfeito.

Voltou para o campo mais animado e feliz do que há muito ninguém o via. Prask ovy a

Fiodorovna animou-se também e decidiram fazer uma trégua. Ivan Ilitch falou muito sobre o

respeito com que o trataram em Petersburgo, como todos, antes seus inimigos, haviam sido

humildes e servis com ele, como estavam invejando sua nova indicação e, em particular, como

conquistara todos em Petersburgo.

Prask ovya a tudo ouvia, fingindo acreditar, não contradizendo-o em nada, restringindo-se a

fazer planos para a nova vida na cidade para a qual se mudariam. E Ivan Ilitch percebeu, com

prazer, que esses planos coincidiam com os seus, que ele e sua esposa estavam

surpreendentemente de acordo e que sua vida, depois de tantas dificuldades, estava a ponto de

recuperar sua natural característica de ordem e alegria.

Ivan Ilitch voltara para o campo por pouco tempo, tinha que assumir suas novas funções em

dez de setembro. Além do mais, precisava de algum tempo para adaptar-se ao novo lugar, fazer

a mudança da província e encomendar uma série de coisas, enfim, estabelecer-se do modo

como já havia decidido e que coincidia com as idéias de Prask ovy a.

E agora que tudo correra tão bem e ele e sua esposa estavam com os mesmos planos e além

disso tão próximos, iniciou-se para eles a melhor fase desde os primeiros anos de casamento.

Ivan Ilitch pensava, a princípio, em levar toda a família de uma vez, mas seu cunhado e a esposa,

os quais se tornaram subitamente extremamente cordiais, não quiseram nem ouvir falar nisso, de

modo que Ivan Ilitch partiu sozinho.

E assim Ivan Ilitch partiu e com ele a feliz disposição de espírito criada por seu sucesso e

pela harmonia entre ele e a esposa, um sentimento fortalecendo o outro. Encontrou um charmoso

apartamento, o tipo de coisa com que o casal sempre sonhara. Espaçosas salas, com o pé-direito

alto, à moda antiga, um confortável e vistoso escritório, quartos para sua esposa e sua filha, uma

sala de estudos para o filho – parecia ter sido especialmente projetado para sua família. Ivan

Ilitch supervisionou pessoalmente as reformas, escolheu o papel de parede, comprou outros

móveis (na maioria antigüidades consideradas por ele comme il faut), escolheu o material para

forração e cortinas e tudo foi tomando forma até tornar-se aquilo a que ele havia se proposto.

Mesmo quando as coisas ainda estavam na metade, quase sempre ultrapassavam suas

expectativas. Pensava no aspecto refinado e elegante, sem um toque de vulgaridade, que tudo

teria quanto estivesse pronto. De noite, ao adormecer, punha-se a imaginar como ficaria a sala

de estar depois de pronta, e examinando a sala de visitas dava para ver a lareira, o biombo, o

étagère e as cadeiras espalhadas aqui e ali, os pratos nas paredes, os enfeites de bronze, e

deliciava-se pensando em como ficaria quando tudo estivesse nos seus lugares. Deliciava-sesobretudo em pensar na impressão que causaria em sua esposa e sua filha, elas que tinham tanto

bom gosto nesses assuntos. Jamais poderiam imaginar algo assim. Ele havia tido muita sorte,

especialmente em descobrir e comprar por uma pechincha móveis antigos que deram um ar

excepcionalmente aristocrático a todo o ambiente. Nas cartas ele fazia questão de não se mostrar

tão entusiasmado, para causar-lhes surpresa ainda maior quando chegassem. Tudo isso

absorvera-o tanto que, embora gostasse muito de seu trabalho, este interessava-o menos do que

esperava. Algumas vezes até mesmo distraía-se durante as sessões, ponderando se o bandô da

cortina deveria ser reto ou arredondado. Estava tão envolvido com tudo isso que freqüentemente

fazia ele próprio as coisas, recolocando móveis nos lugares, arrumando cortinas. Certa vez,

subindo em uma escada para mostrar ao empregado, que não conseguia entender, como é que

queria o material pendurado, escorregou, mas como era uma pessoa ágil e forte conseguiu se

segurar e apenas bateu de lado na maçaneta da janela. O machucado doeu, mas passou logo.

Durante esse tempo todo Ivan Ilitch sentia-se particularmente bem disposto e animado.

“Sinto-

me quinze anos mais jovem”

, escreveu. Contava ter tudo pronto até setembro, mas a coisa

acabou por arrastar-se até o meio de outubro. O resultado, no entanto, era encantador, e essa não

era apenas a sua opinião, mas a de todos que ali entrassem.

Na realidade, o efeito não passava do que normalmente é visto nas casas de pessoas que não

são exatamente ricas, mas que querem parecer ricas e o máximo que conseguem é parecer-se

com todas as outras pessoas de sua classe: havia damascos, ébano, plantas, tapetes, enfeites de

bronze, tudo muito sóbrio e bem polido, tudo aquilo que as pessoas de uma determinada classe

social possuem para parecerem outras pessoas.

E no caso dele o efeito era tão exato que não causava impressão alguma, mas para ele tudo

parecia ser especial. Quando foi buscar a família na estação e trouxe-os para o apartamento

recém-decorado, todo iluminado, pronto, e um criado de uniforme abriu-lhes a porta do hall todo

cheio de flores e elas entraram na sala de visitas e no escritório, com gritos de satisfação, ele

encheu-se de felicidade mostrando-lhes a casa toda, bebendo-lhes os elogios com avidez,

sorrindo de prazer. Naquela tarde, à hora do chá, quando Praskovy a perguntou por sua queda da

escada ele riu e mostrou-lhes como tinha saído voando e o susto que dera no pobre do homem

que instalava as cortinas.

– Ainda bem que eu tenho o preparo de um atleta! Outro no meu lugar teria morrido,

enquanto que eu dei só uma batida aqui. Dói quando eu toco, mas logo vai passar – é um

machucadinho de nada.

E assim começou a vida na nova morada e, como sempre acontece, quando estavam

totalmente instalados descobriram que estavam separados apenas por um quarto e, com seus

rendimentos aumentados, tudo ia bem (se bem que eles achassem, como sempre, que mais

quinhentos rublos fariam uma boa diferença). As coisas iam especialmente bem no início, antes

de estar tudo completamente arrumado, quando havia sempre alguma coisa por fazer, comprar

isso, encomendar aquilo, mudar esse móvel de lugar, arrumar aquele outro. E, embora houvesse

briguinhas ocasionais entre marido e mulher, ambos estavam tão satisfeitos e havia tanta coisa a

fazer que tudo isso passava sem discussões mais sérias. No entanto, quando não havia mais nada

para decidir, as coisas começaram a ficar enfadonhas, parecia estar faltando alguma coisa, mas

daí eles começaram a conhecer pessoas, entrar dentro da mesma rotina e preencheram suas

vidas.Ivan Ilitch, depois de passar a manhã no Tribunal, vinha em casa almoçar e no início ele até

que tinha bom humor, conquanto esse bom humor estivesse sempre prestes a ser estragado e

exatamente por causa da casa nova (qualquer mancha na toalha da mesa ou na forração, a

gravata da cortina um pouco gasta, tudo o irritava: tivera tanto trabalho para arrumar tudo que lhe

magoava ver qualquer coisa estragada). Mas, de modo geral, a vida de Ivan Ilitch seguia seu

curso como ele achava que deveria ser: calmamente, agradavelmente e dentro das normas

estabelecidas, levantava às nove horas, tomava seu café, lia os jornais, vestia seu uniforme e ia

para o Tribunal. Lá chegando, caía imediatamente na sua rotina de trabalho e preparava-se para

lidar com petições, processos e as sessões públicas e administrativas. Em tudo isso, fazia-se

necessário excluir dali tudo o que contivesse vida dentro de si – o que sempre perturba o

andamento normal das coisas oficiais. Não permitia qualquer tipo de relações com as pessoas

que não as oficiais e, mesmo assim, no ambiente oficial. Por exemplo: um homem chega ansioso

por uma determinada informação. Ivan Ilitch, por não ser o funcionário em cuja esfera repousa

a matéria, não teria nada a ver com o caso, mas se o assunto do tal homem fosse de sua

competência, qualquer coisa que pudesse ser resolvida com o papel timbrado, nesse caso então

Ivan Ilitch faria tudo que estivesse ao seu alcance e, ao agir assim, pareceria estar tendo relações

humanas e cordiais, obedecendo aos ditames do bom relacionamento social. Mas onde

cessassem as relações oficiais, cessava também qualquer forma de contato. Essa arte de separar

tão bem a vida oficial da vida real Ivan Ilitch possuía no mais alto grau e a prática associada ao

talento natural tinha-o feito desenvolver esse talento a tal ponto de perfeição que muitas vezes,

como os virtuoses, ele até se permitia, por um breve momento, mesclar suas relações humanas

com as oficiais. E se permitia-se fazê-lo era justamente porque podia, no momento que quisesse,

reassumir o tom puramente oficial e abandonar a atitude humana. E Ivan Ilitch fazia tudo isso

não apenas com leveza, prazer e perfeição, mas como quem realiza um trabalho artístico. Nos

intervalos entre as sessões, fumava, bebia chá, conversava um pouco sobre política, um pouco

sobre assuntos gerais, um pouco sobre jogo de cartas, mas acima de tudo sobre o trabalho. E,

cansado mas sentindo-se como um artista – um dos primeiros violinos da orquestra – depois de

uma excelente performance, voltava para casa. Lá ficava sabendo que mãe e filha tinham feito

e recebido visitas, o filho fora à escola, preparara suas lições com o tutor e estava dando duro

para aprender o que ensinam nas escolas. Estava tudo sob controle. Depois do jantar, se não

houvesse visitas, Ivan Ilitch às vezes lia algum livro que estivesse sendo comentado no momento

e depois sentava para trabalhar um pouco, isto é, lia documentos oficiais, consultava o Código

Penal e examinava os depoimentos das testemunhas, tomando nota dos parágrafos do Código

Penal que se aplicassem ao caso. Para ele isso não era nem cansativo nem divertido. Era

cansativo quando ele poderia, naquele momento, estar jogando whist, mas se não havia jogo

naquela noite era, de qualquer maneira, melhor do que ficar sem fazer nada ou sentado com sua

esposa. O maior prazer de Ivan Ilitch era dar pequenos jantares, para os quais convidava pessoas

de boa posição social e, assim como sua sala de visitas parecia-se com todas as outras, também

suas agradáveis festinhas nada tinham de originais.

Uma vez deram até um baile. Ivan Ilitch divertiu-se muito e tudo saiu muito bem, a não ser

pelo fato de que a tal festa terminou gerando uma briga violenta entre ele e a esposa por causa da

comida. Prask ovya Fiodorovna pensava em fazer de um jeito, mas Ivan Ilitch insistiu em mandar

fazer tudo em um lugar caríssimo e encomendou bolos demais e a briga começou porquesobraram bolos e a conta da confeitaria foi de quarenta e cinco rublos. Foi uma briga violenta,

Praskovya chamou-o de tolo e imbecil e ele, colocando as mãos na cabeça, murmurou que

queria o divórcio. Mas a festa em si estivera bem agradável. A nata da sociedade compareceu e

Ivan Ilitch dançou com a Princesa Trufonov, uma das irmãs daquela que se tornou conhecida por

sua ligação com a instituição de caridade “Ameniza meu sofrimento”

. A ambição era sua maior

fonte de prazer no campo profissional, a satisfação de suas vaidades no campo social, mas seu

verdadeiro deleite era o whist. Chegou a confessar que o que quer que acontecesse de

desagradável em sua vida, a alegria que brilhava, como uma chama mais forte do que tudo,

vinha de sentar para jogar com bons parceiros, compenetrados e silenciosos – e naturalmente só

quatro (com cinco era irritante ter de ficar esperando, embora todos fingissem não se

incomodar). Jogar uma partida séria, inteligente (quando as cartas o permitiam), seguida de uma

boa janta e um bom vinho. E quando ia para a cama, depois do jogo, especialmente depois de

ganhar um pouco (ganhar uma soma muito alta era desconfortável), Ivan Ilitch deitava-se para

dormir especialmente feliz.

E assim iam vivendo, circulavam nas melhores rodas e eram visitados tanto por pessoas

importantes quanto por jovens.

No que se referia ao círculo de amigos de seu marido, Praskovy a, assim como sua filha,

nada tinham a reclamar e, num acordo tácito, tratavam de livrar-se de amigos e parentes que os

vinham bajular em sua sala de visitas de pratos japoneses nas paredes. Em seguida, essas pessoas

mal-arrumadas paravam de rodar em volta deles e em pouco tempo só aqueles que realmente

interessavam eram vistos na residência dos Golovin. Os rapazes começavam a cortejar Liza, e

um jovem magistrado, Petrishchev , filho e único herdeiro de Dimitri Ivanovich Petrishchev,

começou a cobri-la de tantas atenções que Ivan Ilitch resolveu consultar sua esposa se não seria

uma boa idéia proporcionar-lhes um passeio de carruagem ou uma ida sozinhos ao teatro.

E a vida continuava. E tudo continuava do mesmo jeito, sem problemas, e era tudo muito

agradável.4

A família toda gozava de boa saúde. Ivan Ilitch às vezes queixava-se de um gosto estranho

na boca e uma sensação desconfortável no lado esquerdo do estômago, mas ninguém chamaria

isso de doença.

Mas essa sensação desconfortável foi piorando e, embora não sendo exatamente dolorosa,

evoluiu para um tipo de pressão no lado, acompanhado de desânimo e irritabilidade. A irritação

foi crescendo cada vez mais, até começar a estragar a vida agradável, calma e decente que os

Golovin haviam conseguido. O casal brigava cada vez com mais freqüência e há muito que toda

a calma e o prazer da vida haviam caído por terra e era com dificuldade que conseguiam manter

as aparências como antes. Havia repetidas discussões, até que, no mar da discórdia restaram

muito poucas ilhas nas quais marido e mulher conseguiam se encontrar sem que houvesse uma

explosão. E Prask ovy a dizia, agora não sem motivo, que seu marido tinha um temperamento

difícil. Com seu característico exagero, sustentava que ele sempre havia sido assim e fora preciso

muita paciência de sua parte para suportar a situação durante esses vinte anos. É bem verdade

que agora era ele quem começava as discussões. Seus ataques temperamentais sempre

explodiam quando estavam sentando para o jantar, freqüentemente um pouco antes da sopa.

Bastava ele notar que um prato estava lascado, ou o gosto da comida não estava como deveria,

ou era o filho que colocava o cotovelo em cima da mesa, ou o cabelo da filha que não estava

bem penteado. E o que quer que fosse, a culpa era de Prask ovy a. No início ela respondia no

mesmo tom e dizia-lhe coisas desagradáveis, mas depois que uma ou duas vezes, bem no início

do jantar, ele entrou em tal delírio de repente, ela achou que se devia a alguma reação física que

acontecia ao comer e resolveu conter-se e não reagir. Apressou-se em terminar a refeição.

Prask ovy a orgulhou-se muito por esse exercício de autocontrole. Tendo chegado à conclusão de

que o marido possuía um temperamento assustador e tornara sua vida miserável, começou a ter

pena de si mesma e, quanto mais pena tinha de si mesma, mais detestava o marido. Começou a

desejar que morresse, ainda que não o quisesse morto porque com ele iria-se também o salário

dele. E isso provocava-lhe ainda maior irritação contra ele. Julgava-se terrivelmente infeliz

justamente porque nem mesmo sua morte poderia trazer-lhe alívio e, embora disfarçasse sua

irritação, a amargura sufocada só fazia aumentar sua raiva.

Depois de uma cena em que Ivan Ilitch fora especialmente injusto e depois dissera, à guisa

de explicação, que sem dúvida estava irritado mas que isso se devia ao fato de não estar se

sentindo bem, ela respondeu que se ele estava doente devia ser tratado e insistiu em que

consultasse um médico famoso.

E ele foi. Seguiu-se tudo dentro do esperado, como sempre acontece. Houve o habitual

período na sala de espera, a atitude importante assumida pelo médico – ele conhecia bem aquele

ar de dignidade profissional; ele próprio o adotava no Tribunal –

, os exames e as perguntas que

exigiam respostas que levavam a conclusões óbvias e obviamente desnecessárias e o olhar grave,

que queria dizer: “Deixe tudo conosco e nós resolveremos as coisas, nós sabemos tudo do assunto

e podemos resolvê-lo para você, como faríamos com qualquer outra pessoa”

. O procedimento

todo era igual ao dos Tribunais. Os ares que ele adotava no Tribunal em benefício do prisioneiro,

o médico adotava agora em relação a ele.O médico disse-lhe que este e aquele sintoma indicavam que isto ou aquilo iam mal com o

paciente por dentro, mas se esse diagnóstico não fosse confirmado pelos exames clínicos disto ou

daquilo, então chegaremos a esta ou aquela conclusão. Se chegarmos a esta ou aquela conclusão,

então... e assim por diante. Para Ivan Ilitch só importava saber uma coisa: o seu caso era sério ou

não era? Mas o médico ignorou essa pergunta tão fora de propósito. Do ponto de vista do médico

tratava-se de um detalhe que não merecia ser levado em consideração: o problema realmente

era avaliar todas as probabilidades e decidir entre um rim flutuante ou apendicite. Não era uma

questão de Ivan Ilitch viver ou morrer, mas de decidir se era rim ou apêndice. E nesse caso o

médico inclinava-se mais em favor do apêndice, com a ressalva de que a análise da urina

poderia indicar uma pista totalmente nova e então toda a questão teria de ser reavaliada. Tudo

isso era, em menor proporção, exatamente o que Ivan Ilitch fizera de modo tão brilhante mil

vezes ao lidar com as pessoas no Tribunal. O médico concluiu tudo brilhantemente, olhando

triunfante por sobre os óculos para o acusado. A partir da fala do médico, Ivan Ilitch concluiu que

as coisas não estavam bem, mas que para o médico e provavelmente para todas as outras

pessoas isso não faria a menor diferença, enquanto que para ele era simplesmente terrível. E

essa conclusão foi dolorosa, despertando-lhe um grande sentimento de autopiedade, e de

amargura em relação ao médico que não se importava nem um pouco com uma questão tão

importante.

Mas não disse nada, levantou, colocou o dinheiro da consulta em cima da mesa e falou com

um suspiro:

– Nós, os doentes, sem dúvida fazemos muitas vezes perguntas inadequadas. Mas, diga-me,

de modo geral, assim por cima, esses sintomas lhe parecem graves ou não?

O médico olhou-o severamente por cima do monóculo, como se dissesse: “Pedimos ao réu

que se atenha a responder o que lhe foi perguntado ou serei obrigado a fazer com que o retirem

da sala”

.

– Eu já lhe disse tudo que julgava necessário dizer – respondeu o médico –

, os exames

devem dar mais detalhes.

– E indicou-lhe a porta.

Ivan Ilitch saiu devagar, sentou-se desanimado no trenó e foi para casa. Durante todo o

percurso repassava em sua mente as palavras do médico, tentando traduzir todas aquelas frases

complicadas, obscuras, científicas, em linguagem normal, tentando encontrar nelas a resposta

para a pergunta: “Estarei mal, realmente muito mal ou, ao final das contas, isso não é nada?”

. E

tinha a impressão de que a conclusão de tudo o que o médico dissera era de que sim, ele estava

realmente muito mal. Tudo na rua parecia-lhe deprimente, os trenós pareciam sem vida, assim

como as casas, as pessoas que passavam na rua, as lojas. E essa dor, essas fisgadas de dor que

ele não conseguia identificar e que não cessavam um segundo sequer pareciam, se associadas às

enigmáticas palavras do médico, ter adquirido um significado novo e muito mais sério com essa

nova consciência de sua desgraça. Ivan Ilitch agora não conseguia mais desviar dela sua atenção.

Quando chegou em casa, começou a falar sobre isso com sua esposa. Ela o escutava mas,

no meio do seu relato, sua filha entrou de chapéu, pronta para saírem. Um tanto relutante, ela

meio que sentou para ouvir a enfadonha narrativa, mas não conseguiu controlar sua impaciência

por muito tempo, e Prask ovy a Fiodorovna também não o escutou até o fim.

– Bem, fico muito contente! – disse ela.

– Você deve se cuidar daqui por diante e tomar os

remédios regularmente. Me dê a receita, vou mandar Gerassim até o farmacêutico.Ele mal havia conseguido tomar fôlego enquanto ela estava na sala e deu um profundo

suspiro quando ela se foi.

“Bem”

, falou consigo mesmo,

“talvez não seja nada, afinal.

Começou a tomar o remédio e seguir as instruções do médico, as quais foram alteradas

depois do exame de urina. Mas foi justamente nesse fato que se originou uma conclusão ligada à

análise e o que deveria ter sido feito a partir daí. O médico naturalmente não podia ser

responsabilizado, mas o fato era que as coisas não se passaram como o médico lhe disse que se

passariam. Ou havia esquecido algo ou feito alguma bobagem ou estava-lhe escondendo alguma

coisa.

Apesar de tudo, Ivan Ilitch ainda continuava a seguir as ordens médicas e no início

encontrava algum conforto nisso.

Desde a primeira consulta ao médico a principal ocupação de Ivan Ilitch passara a ser

seguir atentamente suas ordens no que se referia à higiene e aos medicamentos e observar

atentamente os sintomas de sua doença, bem como o funcionamento geral de seu corpo. Seu

principal interesse passou a ser justamente a doença e a saúde das outras pessoas. Quando

alguém mencionava doenças, mortes ou curas em sua presença, especialmente se os sintomas se

parecessem com os seus, ouvia a tudo atentamente, tentando disfarçar sua agitação, fazer

perguntas e aplicar o que ouvira ao seu próprio caso.

A dor não diminuía, mas Ivan Ilitch fazia grandes esforços para acreditar que estava

melhor. E até conseguia convencer-se disso, desde que nada acontecesse que o deixasse

perturbado. Mas bastava que houvesse o menor aborrecimento com a esposa, ou sofresse

qualquer contrariedade no Tribunal ou lhe caíssem cartas ruins no jogo e ele tornava-se de uma

hora para outra extremamente sensível à sua doença. Em outra época ele teria suportado esses

contratempos, esperando corrigir em seguida o que estava errado, superá-los e sair-se bem de

tudo. Mas agora qualquer revés aborrecia-o e fazia-o afundar no desespero. Dizia-se coisas

como: “Foi só eu me sentir um pouco melhor, o remédio começar a fazer efeito, que me

acontece isso... é muito azar mesmo...

. E explodia contra sua má sorte ou contra as pessoas que

estavam causando-lhe tal decepção e matando-o aos poucos. E ele tinha consciência de como

esses ataques passionais o estavam matando, mas não conseguia conter-se. Qualquer um

pensaria ser óbvio para ele que exasperar-se assim com as circunstâncias e com as pessoas só

agravaria sua doença e que portanto ele não deveria dar atenção a esses incidentes

desagradáveis. Mas ele concluíra exatamente o contrário: convencera-se de que precisava de paz

e estava atento às mínimas coisas que pudessem perturbar essa paz, tomando-se de raiva ao

menor movimento nessa direção. Seu estado agravava-se pelo fato de ler livros de medicina e

consultar vários médicos. O progresso de sua doença era tão mínimo que, ao comparar um dia

com o outro, seria capaz de enganar-se, tão sutil era a diferença. Mas quando consultava os

médicos tinha a impressão de estar piorando rapidamente, assustadoramente, a cada dia. Ainda

assim, ele continuava consultando médicos.

Naquele mês foi consultar outra celebridade. Essa celebridade disse exatamente o mesmo

que a primeira, sendo que ele elaborou as perguntas de modo diferente e a entrevista com essa

celebridade apenas fez redobrar nele as dúvidas e os temores. Depois, um amigo de um amigo

seu, um médico muito bom, deu outro diagnóstico para sua doença e, embora previsse que ele

acabaria por se curar, suas perguntas e hipóteses confundiram-no ainda mais e aumentaram seuceticismo. Um homeopata fez ainda um diagnóstico diferente e deu-lhe um remédio que ele

tomou escondido por uma semana, mas, no final, não tendo sentido alívio algum e tendo perdido

a confiança tanto nos remédios anteriores quanto nesse novo tratamento, acabou ficando ainda

mais desanimado do que antes. Um dia, uma conhecida sua mencionou uma cura através de

imagens milagrosas. Ivan Ilitch flagrou-se ouvindo atentamente e começando a acreditar na

história como algo concreto. Este incidente assustou-o.

“A minha cabeça terá degenerado a esse

ponto?”

, perguntava-se.

“Todas essas bobagens, esse lixo...! Não devo me deixar impressionar,

mas sim escolher um médico e seguir seriamente o tratamento que ele me der. É isso que eu vou

fazer. Está decidido. Não vou mais pensar nisso, só seguir o tratamento até o verão e então

veremos. De agora em diante, nada de vacilações!” Isso tudo era fácil de dizer, mas impossível

de colocar em prática. A dor no lado preocupava-o e parecia ficar mais forte e mais freqüente,

enquanto que o gosto em sua boca era cada vez mais estranho. Tinha a sensação de estar sempre

com mau hálito e seu apetite e sua força diminuíam gradativamente. Não podia mais se iludir,

alguma coisa terrível, nova e importante, mais importante do que tudo o que já acontecera em

sua vida, estava se passando dentro dele, alguma coisa da qual só ele estava a par. As pessoas em

volta dele não entendiam, recusavam-se a entender e acreditavam que tudo no mundo

continuava igual. Essa idéia atormentava-o mais do que qualquer outra coisa. Via que todos os

que o rodeavam, especialmente sua esposa e filha, tão absorvidas por compromissos sociais, não

só não tinham um pingo de compreensão, como ainda se irritavam com ele por andar tão

deprimido e exigente, como se a culpa fosse sua. Por mais que tentassem disfarçar ele via que

estava atrapalhando-lhes o caminho. Sua esposa havia adotado uma atitude em relação a sua

doença, fixara-se nela e não se importava com o que ele dissesse ou fizesse.

– Você sabe – ela costumava dizer para os amigos –

, Ivan Ilitch não consegue fazer como as

outras pessoas e seguir o tratamento prescrito pelo médico. Um dia ele toma os remédios,

mantém a dieta e vai para a cama na hora certa, mas no outro, se não sou eu a me preocupar,

ele esquece dos remédios, come caviar – que o médico proibiu – e senta-se a jogar cartas até a

uma da manhã.

– Ah, o que é isto? Quando foi que eu fiz isso? – ele perguntava irritado.

– Só uma vez na

casa de Piotr Ivanovich.

– Ah, é? E ontem na casa de Shebek ?

– Qual é a diferença? Eu não teria dormido mesmo por causa da dor...

– Que seja, mas desse jeito você não fica bom e nos faz infelizes.

A atitude de Prosk ovy a Fiodorovna em relação à doença de Ivan Ilitch, que ela expressava

abertamente, insinuava que toda a doença era culpa dele próprio e só mais um dos tantos

aborrecimentos que ele costumava causar à esposa. Ivan Ilitch percebia que ela deixava escapar

isso tudo sem se dar conta, mas nem por isso doía-lhe menos.

No Tribunal também Ivan Ilitch percebeu, ou imaginou perceber, o mesmo tipo de atitude.

Certa ocasião pareceu-lhe que as pessoas o estavam observando com ar curioso, como quem

observa alguém que vai, muito brevemente, deixar o seu posto. Depois, de uma hora para outra,

seus amigos tentavam brincar por causa de seu estado de nervos, como se aquele pesadelo que

vivia dentro dele, atormentando-o e sugando-o incessantemente, fosse o assunto mais excitante

do mundo para se fazer graça. Schwartz irritava-o em especial, com seu alto-astral, sua

vitalidade e perfeição, fazendo-o lembrar do que ele próprio fora dez anos antes.Os amigos apareciam para jogar, sentavam-se à mesa de jogo, distribuíam as cartas,

dobrando as novas para amaciá-las. Separava os ouros e via que tinha sete. Seu parceiro dizia:

“Nenhum trunfo?”

, e ele passava-lhe dois ouros. Podia haver coisa melhor? Poderia ser divertido

e animado – fariam um grand slam. E de uma hora para outra Ivan Ilitch lembra-se daquela dor

insistente, sente aquele gosto na boca e parece-lhe grotesco que, em tais circunstâncias, ele possa

ter qualquer prazer em um grand slam. Olhava para seu parceiro Mihail Mihailovich dando

batidinhas na mesa com suas mãos seguras e, ao invés de jogar as cartas na mesa, como fazia,

empurrava-as delicadamente na direção de Ivan Ilitch de modo que ele pudesse pegá-las sem

muito esforço.

“Será que ele pensa que eu estou tão fraco que não posso nem esticar meu

braço?”

, pensa Ivan Ilitch e esquece as cartas mais altas e usa as cartas do parceiro e perde a

grande jogada por três pontos. E o mais terrível é notar o quanto Mihail Mihailovich ficou

aborrecido, enquanto que ele próprio não liga a mínima. E é horrível pensar na razão pela qual

ele não se importa.

Todos notam que ele está com dor e dizem que, se ele está cansado, podem dar uma parada.

Ele poderia deitar um pouco. Deitar? Não. Ele não está nem um pouco cansado. E terminam a

partida, em silêncio, melancólicos. Ivan Ilitch sente que é ele quem faz com que se sintam assim

e não consegue desligar-se disso.

Eles ceiam e a festa termina. Ivan Ilitch fica sozinho, consciente de que sua vida está

envenenada e de que está envenenando a dos outros e de que esse veneno não está perdendo sua

força mas, ao contrário, entranhando-se cada vez mais dentro de seu ser.

E é com essa certeza, mais a dor física e mais o terror que ele vai para cama, para na

maioria das vezes ficar ali acordado, sentindo dor a maior parte da noite. E de manhã ele precisa

levantar, vestir-se, ir para o Tribunal, falar, escrever ou, se não sair, ficar em casa as vinte e

quatro horas do dia, o que significa vinte e quatro horas de tortura. E assim ele tinha de viver, à

beira do precipício, sozinho, sem uma alma que o entendesse e dele tivesse compaixão.5

Assim se passaram os meses, um depois do outro. Um pouco antes do Ano-Novo seu

cunhado chegou na cidade para ficar uns dias com eles. Ivan Ilitch estava no Tribunal. Praskovy a

fora às compras. Ao chegar em casa, entrando em seu escritório, encontrou lá o cunhado, um

homem saudável, corado, desfazendo ele mesmo sua mala. O homem levantou a cabeça ao

ouvir os passos de Ivan Ilitch e por um segundo olhou-o sem dizer uma palavra. Aquele olhar

dizia tudo. Seu cunhado chegou a abrir a boca, mas conteve-se e esse gesto foi o suficiente.

– Mudei muito, não é?

– Sim... há uma mudança...

E depois disso, por mais que ele tentasse trazer seu cunhado de volta ao que estava fazendo,

este continuava teimosamente em silêncio. Praskovy a chegou e foram juntos para o quarto, ela e

o irmão. Ivan Ilitch trancou a porta e pôs-se a examinar-se no espelho, primeiro de frente e

depois de perfil. Pegou uma fotografia sua com sua esposa e comparou-a com o que via no

espelho. A diferença era enorme. Depois arregaçou as mangas até os cotovelos, olhou para os

braços, baixou-as novamente, sentou-se no baú e sentiu sua alma negra como a noite.

“Não, não pode ser assim”

, disse para si mesmo. Levantou-se, foi para a mesa, abriu um

documento oficial e começou a ler, mas não conseguiu continuar. Abriu a porta e foi para a sala

de visita. A porta estava fechada. Ele aproximou-se pé ante pé e pôs-se a escutar.

– Não, você está exagerando – dizia Prask ovya Fiodorovna.

– Exagerando? Ora, você mesma pode ver – ele está morto! Veja os olhos dele – não têm

mais nenhuma luz. Mas afinal o que é que ele tem?

– Ninguém sabe. Nikolayev (um dos médicos) disse qualquer coisa, mas eu não sei o quê.

Leshchetitsky (um famoso especialista) disse o contrário.

Ivan Ilitch foi para o seu quarto, deitou-se e pôs-se a pensar: “O rim, um rim flutuante”

. Ele

lembrava tudo o que os médicos haviam dito, de como o rim havia se desprendido e estava

boiando. E, num esforço de imaginação, tentou pegar aquele rim, prendê-lo e firmá-lo. Parecia

ser tão fácil. Não.

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