T3E5
É tudo real. Tudo.
Consciências que migram, universos múltiplos, linhas, sussurros, voltas...
Eu estava esperando você, Antônio. Pode entrar.
UAU!
Número 5 – Folie A2
É que a gente já esteve nesse lugar, era algo tão simples.
A gente está em todas as linhas e todos os tempos.
Anamnese, o aprender é recordar.
Não é lindo?
Sabe, na vinda pra cá eu tava olhando pras pessoas na rua, todas,
dormindo, robotizadas, cegas.
Mas tem alguma coisa em você que sabe,
que precisa confiar na intuição, na sorte, nas histórias.
Não na mente. Você tinha razão.
A mente é uma inimiga.
Antônio...
Escuta, as telas. Por que as pessoas não conseguem se afastar das telas?
Toda ficção, qualquer livro, qualquer série, qualquer filme, é um eco.
E de algum jeito é real.
Por isso a gente está preso, viciado numa cultura de histórias,
porque é nelas que está o futuro da nossa sobrevivência.
Sussurros e semeaduras.
Você tinha falado disso.
Tá, calma, Antônio.
Você tinha falado.
O mensageiro é que arma tudo.
Eu imagino que foi ele que conseguiu que me convidassem pra esse congresso.
Eu não sei os detalhes.
Talvez numa outra linha eu não aceitei vir pra cá.
Mas o que interessa nesse instante é onde a gente está, aqui e agora.
Não tem como fugir, não é? A gente é o que é.
A gente precisa ter cuidado, Antônio.
Eu também fiquei pensando...
Síndrome do impostor.
Eu sentia isso o tempo todo depois do acidente.
Quanta gente anda por aí carregando um nome, uma profissão,
e sente que tem algo de errado,
que elas estão presas numa coisa que não é,
que elas nunca vão conseguir experimentar a sensação de serem realmente quem são,
a sua verdadeira identidade.
Quem sou eu agora?
Isso é a única coisa que interessa.
O mais importante nesse universo é compreender quem a gente é.
Agora se trata de mim.
Eu preciso pesquisar sobre Vicente Correia.
Você tem alguma coisa pra beber?
Claro. Quer um copo d'água?
Eu prefiro algo mais forte.
Nomes e corpos não importam nada, pô.
As máquinas de números aleatórios são capazes de prever que um vórtice está chegando.
Agora eu acredito em você.
Eu assumo o colapso, Beatriz.
Eu não quero só escutar, eu quero fazer parte de um movimento maior.
Antônio, eu entendo a sua euforia, mas escuta o que eu vou te falar.
E eu sei que vai parecer uma contradição.
Mas é que eu pensei, logo depois de você ir embora,
eu peguei um táxi pro aeroporto.
Aí de repente, numa esquina, eu vi um supermercado desses de bairro,
e o nome dele era Pegaso.
E o número, 63.
Aí depois, numa outra esquina, eu vi a propaganda de uma escola de inglês com a frase
O futuro está nas tuas mãos.
Então eu compreendi.
Desci do táxi e vim pra cá.
Por mais sofisticado que seja o projeto,
ninguém é capaz de pôr no meu caminho esses sinais.
Então, num segundo, eu entendi.
Ou a gente tá mergulhado em coincidências matematicamente absurdas,
ou talvez, simplesmente, a gente esteja completa e fudidamente louco.
E que aquele nunca foi o nome do supermercado.
Aquele nunca foi o número do endereço,
e aquela nunca foi a frase da propaganda.
Foi a minha mente que botou tudo lá.
Pra confirmar o meu delírio.
Não é isso. É real sim. Parece loucura, mas...
Não, não. Eu tô falando sério.
É muito possível que não exista nem esse quarto, nem Roma, nem nada.
E que nesse momento a gente esteja em algum outro lugar.
Em algum hospital na América Latina.
E que um de nós seja o delírio do outro.
Uma folia de...
Folia de...
É uma psicose compartilhada.
É um transtorno raro.
Sintomas psicóticos, ideias delirantes a dois.
Dois que se auto-reforçam, modificam a realidade.
O vínculo dos dois é tão forte,
que pra não quebrar, a dupla cria um universo excludente.
E de repente, todo mundo começa a encaixar.
Escuta, a gente tá sob pressão.
Uma pressão enorme.
Mas não dá pra duvidar agora.
As ampulas.
Ok, a gente precisa aplicar as injeções.
Se der tudo errado, a gente vai estar protegido.
E eu vou poder inocular a Maria com meu sangue.
Agora eu entendo por que o Pedro Reuter,
ou seja, eu, ou outro eu, tinha essa anomalia no sangue.
Porque você me injetava isso justo agora.
Você percebe como tudo faz sentido?
Você não ouviu porra nenhuma do que eu acabei de falar.
Vamos, nesse braço.
No braço da minha tatuagem.
Não, você não tá me entendendo.
A gente tá num quarto que a gente nem sabe se é real.
Prestes a injetar na gente um negócio que uma desconhecida deu
e que a gente nem sequer sabe o que é.
Plasma, anticorpos.
A gente precisa se acalmar.
Talvez a gente planejou isso tudo.
Um suicídio ritual pra morrer aqui.
Eles vão nos encontrar nesse quarto.
A gente vestiu tudo isso pra encaixar na nossa narrativa.
Eu já vi isso antes.
Olha nos meus olhos.
O que tá acontecendo, Beatriz?
Eu acabei de falar.
Folia de.
É uma expressão psiquiátrica real.
É uma condição patológica, Antônio.
Uma loucura compartilhada por um casal.
Folia de.
Eu já vi uma vez.
Um caso que chegou no hospital.
Um casal de suicidas.
Os dois achavam que eram a reencarnação de uns personagens da Divina Comédia.
Paolo e Francesca.
Você conhece a história?
Os amantes da Divina Comédia, de Dante.
Eles estão num loop.
Condenados a serem arrastados sem rumo por toda a eternidade no segundo círculo do inferno.
Eles nunca vão conseguir ficar juntos.
E então?
Ela convence ele de que a Terra realmente era o inferno.
Que eles estavam numa espécie de prisão.
E que só existe uma única saída.
Se livrar da casca.
Eles tomam veneno.
É ela quem prepara.
Ele morre.
E ela se arrepende.
Eles tinham compartilhado um delírio.
Estavam encasulados neles mesmos.
Alteraram loucamente a realidade e o passado.
E os fatos.
Só para que tudo se encaixasse.
E se isso aqui fosse a mesma coisa?
E se o que eu tiver que injetar em você fosse um veneno?
Se tudo isso fosse uma bolha de alternância cognitiva?
O que aconteceria se a gente de fato for como eles...
e amanhã alguém nos achar nesse quarto ou num hospital psiquiátrico em São Paulo?
Não é assim. Não é isso.
É verdade que a gente está passando por um colapso da realidade.
Mas isso é porque a gente já conhece o mecanismo.
Não.
Não. Você acha que os outros não pensavam desse jeito?
A gente está seguindo exatamente o mesmo padrão tóxico dos suicidas.
Ou das seitas destrutivas.
Só que a gente é a seita.
Nós cinco.
Do que você está falando?
Está cada vez mais claro para mim.
As pessoas que compartilham um delírio...
geram lembranças falsas que alteram a noção do tempo.
Os cultos, os grupos radicais, os extremismos, os homossexuais...
funcionam desse jeito? É um contágio.
Beatriz, você viveu um fenômeno sem explicação.
Folia group.
A gente precisa se livrar dessa hipótese.
Sintomas psicóticos, narrativas apocalípticas, lembranças falsas.
Eu acabei de falar com o Gaspar Marim.
Ele me mostrou uns objetos e um atestado de óbito.
Um atestado de óbito que não confirma uma morte.
Gente que morreu.
Um atestado de óbito que não confirma uma morte.
Explica um... nascimento.
O meu.
Antônio, por favor.
Olha esse gravador.
Provas.
Como as que você me mostrou.
Ele diz que tem uma seção que não está no livro.
Que ele decodificou de última hora.
Quem sabe?
Se a gente ouvir, esse gravador é real.
Você pode tocar.
Eu não sei se ele é real.
Escuta.
Maria Cristina Borges.
Ela é o Pegasus.
Como eu não percebi isso antes?
Ela que começou tudo.
Ela quem dissemina o vírus.
Mas o vírus não existe.
Ele é mental.
É só pra gente.
Pegasus é um símbolo.
O que você está fazendo?
O que você está procurando?
Espera.
Está aqui.
Pegasus.
Símbolo da imaginação e do delírio.
Eu morri e nasci de novo, Beatriz.
Esse cara, Gaspar, mostrou provas pra mim.
Você teve um evento...
A gente se alimenta das paranóias.
Lembranças falsas.
A necessidade de explicar pra gente mesmo esse mundo tão terrível.
Mas talvez a gente esteja em um estado crepuscular.
E só um de nós tenha realmente um transtorno psicótico.
A Maria.
Ela contaminou cada um de nós.
Primeiro eu, depois a namorada dela.
E eu contaminei você.
O que acontece quando duas ou mais pessoas percebem a realidade de um jeito totalmente ilusório?
Uma delas começa com um ciclo de piscoses.
A outra vai atrás.
Fica ativado um circuito de retroalimentação que vai se reforçando.
Com delírios cada vez mais elaborados.
A gente não quer estar errado.
Ninguém quer admitir que está errado.
Você acha que as pessoas que fazem coisas horríveis têm consciência dos erros que cometeram?
Todas as pessoas que fazem mal para os outros adequam.
E depois percebem a realidade de um jeito que impede elas de enxergarem esse mal.
Esse livro é real. Encosta nele.
A gente não tem nenhuma prova de nada.
Toca. Esse livro é real.
Esse livro é a única coisa real. Eu sei.
Talvez a gente tenha ajeitado a nossa mente para encaixar no arquétipo dos escolhidos.
Isso não faz sentido.
Isso não faz sentido?
Você acha que faz mais sentido um universo com viajantes no tempo?
Que uma moça ter conseguido tirar um vírus de um laboratório de segurança máxima?
Você acha que isso é mais lógico?
Responde para mim.
Eu larguei tudo.
Devolvi o meu apartamento.
Abandonei minha cidade.
As minhas aulas na faculdade.
Eu queimei os meus navios.
Tudo para vir aqui.
Isso tem lógica?
Ok. Ok.
Eu aceito.
A gente precisa se acalmar, né?
Eu não sei o que fazer.
Eu não sei o que fazer.
Eu aceito.
A gente precisa se acalmar, né?
Eu posso sentar na cama?
Pode.
Eu não sei mais o que é real.
Escuta.
Sério.
A gente precisa se acalmar.
É muita pressão.
Toma.
Bebe água.
Enxuga suas lágrimas.
Senta aqui do meu lado.
Você tem razão.
A gente precisa pensar.
Eu sinto que eu vou morrer.
Respira, Beatriz. Respira.
Talvez o Gaspar Marim não exista.
Talvez a Maria não exista.
Talvez...
A gente só imaginou que estava no laboratório de segurança máxima no centro de Roma.
Quem pensa que a gente vai morrer?
Quem poderia ser tão irresponsável, meu Deus?
Talvez isso aqui seja um veneno.
Você já disse, a gente não tem ninguém.
Beatriz...
A gente pode passar por esse mundo sem deixar rastro algum.
Beatriz...
Você é psiquiatra, eu também sou.
Mas eu esqueci.
Como descartar que a gente não entrou nessa psicose compartilhada?
O tratamento padrão...
Consiste em separar o casal.
A gente precisa se separar.
É esse o protocolo.
A gente não sabe quem influenciou quem.
A gente precisa de tratamento e ir para algum centro de saúde mental.
Talvez eles internem a gente.
Não, não, não.
Só tem um jeito de saber.
O que você está fazendo?
Eu vou aplicar o antígeno.
Só em mim.
Você não.
Seja qual for o resultado, a gente precisa de respostas.
Não, não, eu não posso.
Um de nós.
Só me diz como e onde.
Escuta, eu confio na tua mente.
É a única coisa que eu tenho.
Nessa nova vida, você é a pessoa mais próxima que eu tenho.
Acredita no futuro.
Eu acredito no futuro.
Eu não acredito, é nas minhas percepções.
Eu nem sequer sei se você é real.
A gente está junto, Beatriz.
O que você está fazendo?
Estou preparando a minha dose.
Não, não, espera.
Me dá isso.
As ampulas quebradas...
É melhor assim.
Para com isso.
Não, não.
Olha, essa não quebrou.
Eu vou seguir em frente.
Você concorda ou não?
Escuta, isso pode ser veneno...
Ou pode ser a cura.
Pode ser a nossa única oportunidade.
A Maria vai disseminar o Pegaso.
É a nossa única saída.
Ou, quem sabe, isso seja um delírio compartilhado e nada seja real.
Mas pelo menos agora eu tenho algo que eu não tinha hoje de manhã.
Um propósito de vida, um sentido de vida.
Não tira isso de mim, por favor.
Só me diz como eu injeto isso.
Não.
Eu mesma faço.
Me dá o braço.
É intramuscular.
Feito.
Agora é só esperar.
Se o que injetei em você for algo ruim, a gente vai saber em alguns minutos.
Fica atento a qualquer sintoma.
Mas o que eu estou falando?
Nada disso é real.
Nada é real.
O que você disse que tem nesse gravador?
Uma sessão perdida entre o Pedro Reuter e a Dra. Amaral.
Você quer ouvir?
Já abandonamos a realidade.
Não vejo por que não ir até o fim.
O que é que eu estou fazendo?
O que é que eu estou fazendo?
Paciente 63 é uma série original e Spotify.
Protagonizada por Mel Lisboa e Seu Jorge.
Criada por Julio Rojas.