T3E2
Paciente 63, temporada 3, episódio 2, colapso.
Pro registro, 22 de setembro de 2019, São Paulo.
Paciente Maria Cristina Borges.
Borges. É para honrar a minha mãe. Certo.
Escuta, você grava sempre?
É um costume antigo.
Ah, me ajuda a organizar as ideias.
E o que você vai fazer com essa gravação?
É só para mim, fica tranquila.
Vamos voltar à suposta viajante do futuro, Emília Sanz.
Vocês se encontraram na sua casa, você tinha 17 anos, e ela falou que você ia causar uma tragédia.
Se o fim do mundo pudesse ser considerado uma tragédia, sim.
E o que você falou para ela?
Que de algum jeito eu sempre tinha esperado por aquele momento.
Que alguém ia aparecer na minha vida e me falar o que eu sempre quis ouvir.
Que eu ia mudar o mundo.
Só que eu pensava que seria fazendo algo de bom.
No começo eu entrei no jogo.
Falei para ela que era simples.
Que eu não iria pegar nenhuma merda de voo para a Espanha, nunca.
E muito menos nessa data.
Perguntei para ela se a gente podia mudar o futuro, ou se tudo já estava predestinado.
Ela respondeu que não sabia.
Disse que as pequenas coisas que a gente faz geram eventos inesperados no futuro.
O futuro é tão frágil, Maria.
O futuro é tão frágil.
Tão frágil.
Tão frágil.
Tudo pode mudar a qualquer momento.
Qualquer coisa que você fizer agora, não precisa ser algo épico.
Alguma coisa simples e inofensiva.
Se as pessoas simplesmente soubessem a textura do futuro.
Se soubessem como é frágil a criação de linhas e novas vidas.
Tudo seria tão diferente.
Tudo seria tão diferente.
Foi isso que ela me falou.
Você sabia que ela era uma paciente do seu pai.
Que estava te contando um delírio organizado, coerente.
Mas um delírio.
Você sabia que ela estava falando a partir da psicose dela.
Sei lá o que eu sabia.
Eu só estou te contando o que ela me disse.
E tem muito mais ainda.
Como o que, por exemplo?
Ela disse que uma única pessoa pode destruir o mundo.
E que uma única pessoa pode salvá-lo.
Será que você consegue, Maria?
Será que você consegue, Maria?
Eu lembro de cada palavra.
Depois foi o que eu já te contei.
Quando ela morreu na minha frente no aeroporto.
Antes de desabar, ela disse para mim.
Quebra o mecanismo.
E como isso afetou você?
No começo eu ignorei.
Ela só podia ser uma louca, né?
Ela acabou com a minha mente.
Aí eu bloqueei junto com outras pessoas.
Nunca voltei a falar desse assunto com meu pai.
Nossa, isso acabou virando um grande tabu.
Mas com o tempo acabou desaparecendo, sabe?
O meu pai morreu alguns meses atrás.
Mas eu acho que ele nunca se recuperou totalmente da perda daquela mulher.
Eu, depois desse encontro,
eu não sei se eu vou conseguir me recuperar.
Mas eu acho que eu vou.
Eu, depois desse encontro,
fiquei obcecada pelos vírus.
Você já ouviu falar do efeito Streisand?
Você atrai aquilo que você tenta esconder.
Foi o que aconteceu comigo.
Para evitar fazer alguma coisa de ruim,
para evitar que eu fosse ser a pessoa que ia fazer mal a todos,
eu fui atrás de saber.
Aprendi o que pode acontecer ao tirar os animais dos seus ecossistemas.
Li matérias que falavam da possibilidade de uma pandemia
gerada por um vírus que pulava de um vetor animal,
que nem a gripe aviária.
Camelos, porcos, morcegos.
Participei de palestras, seminários.
Fiz parte de um coletivo de defesa dos animais.
E aí eu descobri que éramos muitos os que tínhamos a intuição do perigo.
Numa dessas palestras eu conheci uma bióloga, Sofia.
Ela estava fazendo um doutorado em virologia.
Mês que vem eu vou para Roma, onde ela trabalha, para morar com ela.
Olha, não conta para a tua irmã, tá?
Eu ainda não contei para a Daniela.
Eu vou fazer isso pessoalmente.
Não, fica tranquila.
Essa sessão é só entre você e eu.
Você ainda tem medo de acabar com a humanidade?
Agora não me parece tão ruim assim.
Às vezes eu acho que a gente é como um câncer.
A gente destrói tudo.
Você não concorda?
Você falou que sonhou com uma cidade na China.
Aquela mulher me disse que a primeira pandemia começaria em Wuhan.
Entre novembro e dezembro desse ano, no mercado de animais.
Depois disso, eu comecei a sonhar com esse lugar.
Eu chegava no mercado com um grupo de jovens, amigos chineses e europeus.
E a gente queria fechar o mercado para evitar o pulo do vírus do morcego para a espécie humana.
No meu sonho, eu mostrava um catás.
A gente falava que os alimentos estavam contaminados com antrax.
Mas o plano falhava e a gente ia para a cadeia.
Você tem tido pensamentos destrutivos além do que você sonha?
Você tem pensado em fazer mal a coisas ou pessoas fora do mundo dos sonhos?
Não, são só sonhos.
Se tem alguém no futuro que vai fazer alguma coisa radical, não vai ser eu.
Não?
Não.
Vai ser você.
Você vai ter que tomar uma decisão.
Eu não estou entendendo.
Você acha que eu sou uma espécie de escolhida?
A gente está dentro de um tipo de jogo que se repete.
Somos quatro pessoas aleatórias.
Quatro pessoas quaisquer.
Poderiam ter sido outras quatro pessoas em Berlim, na Índia, na Austrália.
Mas somos nós.
Fazer o quê?
Somos escolhidos.
O jogo é entre nós.
Quando você diz nós, está se referindo a mim?
Eu não estou entendendo.
Escolhidos para quê?
Quem são essas quatro pessoas?
Você, o mensageiro, eu.
O mensageiro?
É, o mensageiro é importante. Ele segue instruções em sonhos.
O mensageiro se comunica nos sonhos?
Não, é na realidade.
No aeroporto, quando eu tinha 17 anos, eu conheci ele.
Ele me deixou um gravador com uma mensagem.
Olha, era a gravação de uma velha que me deu as respostas que eu precisava.
Me explicou qual era o meu papel.
E qual era o seu papel?
Quebrar o mecanismo.
Então, você diz que o mensageiro é real.
Você tem certeza que ele não faz parte da sua imaginação?
Não?
Gaspar Marinho é real?
Tá.
Você continua encontrando ele, o Gaspar Marinho?
Uhum.
De vez em quando ele aparece.
Os eventos já estão traçados.
A gente pode ou não seguir.
Eu consegui vir aqui pra te ver.
Mas também poderia não ter vindo.
Mas nessa linha, eu estou aqui.
Se alguma coisa acontece, é porque ela acontece nessa linha.
A improbabilidade desse momento é o que confirma que a gente está numa linha correta.
Olha pra trás.
Lembra das coisas.
Você vai perceber que já teve um monte de momentos que você decidiu o que era preciso.
Você desbloqueou todas as fases.
Você fala como se a vida fosse um videogame.
Ué, talvez seja.
E a gente tá chegando na última fase.
Não agora, mas sim daqui a três anos.
Em 2022.
Quanto, exatamente?
24 de fevereiro de 2022.
Quanto, exatamente?
24 de novembro de 2022.
Tá, ok.
Você tá me dizendo que tem quatro pessoas envolvidas.
Mas você mencionou três.
O mensageiro, você, eu e quem seria a quarta pessoa?
O escritor.
O escritor?
Uhum.
Ele é essencial.
Não ele, na verdade.
Segundo o mensageiro, o importante é o que ele vai escrever.
E vai ser tipo um livro religioso?
Não.
Ele vai escrever um guia.
Que nem aqueles manuais de instruções pra construir alguma coisa.
Pra construir o quê?
Pra construir um vírus.
Bluetooth desconectado.
Então, no que você tá pensando?
Quer ouvir mais?
Não.
Eu não preciso ouvir mais nada.
Esse algum jogo é uma piada de alguém?
Eu sei que é difícil de aceitar.
Pra mim também foi.
É normal que você se sinta desse jeito.
Afinal, a gente...
É algum tipo de experimento social?
Uma pegadinha?
Dos caras de...
Não, não, não é uma pegadinha.
Antes fosse.
Eu peguei doze horas de trem pra estar aqui e te mostrar isso tudo.
Eu moro em Madrid com a minha irmã.
Eu não pego aviões.
Eu morro de medo de aeroporto.
Essa sua paciente leu meu livro, é óbvio.
Hackeou meu computador.
2019, Antônio.
Ano de 2019.
Eu gravei a sessão no ano de 2019.
E o encontro com a menina aconteceu em 2012.
Você pode ir embora agora.
Você pode tentar acreditar que é uma coincidência.
Que eu tô louca.
Mas isso não vai mudar o fato de que você tá vivendo uma anomalia no seu sistema de crenças.
Eu vivi isso.
Eu passei por isso.
Por que você acha que eu abandonei a psiquiatria?
Eu vivi o que você tá vivendo agora.
Eu tive mais tempo pra processar, ok.
Não só uma hora, mas é o mesmo processo.
E tem um nome.
Colapso.
Tudo o que você já acreditou sobre a estrutura da realidade,
sobre a percepção subjetiva do tempo,
sobre o que aprendeu com relação a causas e consequências,
todos os acordos e compromissos sobre aquilo que é real e o que é impossível,
já não valem mais.
Você tá passando por um colapso.
Eu acho que isso tudo foi um erro.
Eu ter ficado, vir aqui...
Embora não vai tirar você do problema.
Você tá...
A gente tá numa crise de paradigmas.
É uma revolução.
E as revoluções pessoais e sociais não pedem licença, Antônio.
Não esperam até a gente estar preparado.
Simplesmente chegam.
Você pode se sentar, por favor.
Peraí.
Eu ouvi uma gravação, só isso.
A gente tá no mundo da pós-verdade.
Você é uma estranha.
Seu mundo, do jeito que você concebia ele, acaba de morrer.
Na real, a gente não tem mais tempo.
A Maria, a minha paciente, tá quase pegando um voo pra Madrid.
Eu fui atrás, eu segui os passos dela.
Eu não tô em Roma por tua causa.
Não só por tua causa.
Eu tô em Roma por causa dela.
Eu sei que se eu falar com ela, eu posso evitar o que for que ela pretende fazer.
Ela tá aqui.
Por acaso ela tá simulando...
Digo, querendo ser a personagem do meu livro.
É isso que você tá falando?
Que a Maria está pensando em pegar um avião e espera que alguém a infecte.
E depois o vírus sofre uma mutação.
E o que ela vai fazer quando isso não acontecer?
É bem mais complexo do que isso.
A ideia era a gente se encontrar na tua palestra.
Eu disse a ela que a gente precisava conversar.
Nós três.
Nós três?
Não, não.
Não tenho nada a ver com o que você tá falando.
Ela me deu certeza de que ia ligar quando fosse a hora.
Ela também queria falar com a gente, mas...
Mas alguma coisa aconteceu.
Você ligou pra polícia?
Pra falar o quê?
Essa tatuagem do coringa que você tem no braço...
Você fez antes ou depois de escrever o livro?
Depois.
Só uma tatuagem.
Foi algo do momento, sei lá.
Depois do meu encontro com a Maria, é óbvio que eu duvidei de tudo.
E olha que eu ouvi delírios muito bem elaborados nesses anos todos que eu trabalhei no hospital.
Além do mais, eu não tinha prova alguma de nada do que ela falava.
A pandemia nem sequer tinha começado.
E de repente, eu lembrei de uma coisa.
Uma lembrança bloqueada que durante muito tempo eu pensei que fosse só a minha imaginação.
Veio com força.
Eu lembrei do meu primeiro trabalho num velho hospital.
E naquele hospital tinha um lugar.
Um parque.
Um parque.
Na parte mais antiga, um jardim secreto que eu tinha descoberto.
Um vitral grande de uma igreja muito antiga, brilhava numa certa hora do dia em cima de uma fonte.
E do banco onde eu sentava.
Um jardim com um vitral que se enchia de cores.
Não brinca com a minha mente.
Eu lembrei que eu tava lá, no pior dia da minha vida.
O meu chefe, um cara terrível, tinha me humilhado na frente do comitê por um diagnóstico errado.
Eu tinha discutido com a minha irmã.
Eu tava lá, sentada.
Eu nunca choro. Nunca.
Mas naquele dia eu não consegui segurar.
E eu chorei.
Muito.
Naquele instante, chegou uma mulher e sentou do meu lado.
Tinha alguma coisa nela.
A voz, o olhar, alguma coisa que me acalmou.
Ela pegou na minha mão e falou...
Todo mundo faz parte.
Cada vez que a gente faz alguma coisa, por menor que seja,
a gente gera efeitos gigantes nos outros.
O que a gente faz hoje muda e afeta milhões.
E o que você faz agora, faz com que alguém encontre a cura de alguma coisa no futuro.
Anonimato e colaboração.
Ninguém nunca vai saber os efeitos que a gente produz nos outros.
No que é bom e no que é ruim.
Embora a gente não queira, a gente faz parte.
Ela disse.
E foi embora.
Só 15 minutos da minha vida que eu tinha esquecido e que agora fazem total sentido.
Uma coincidência.
Todos os hospitais velhos têm jardim...
Eu ainda não acabei.
Começa a pandemia.
As notícias falam de Wuhan.
Então eu fui ouvir as gravações.
O que a Maria falava era verdade.
E se o que ela falava era verdade...
Porque eu estava vendo nas notícias.
Bom, essa lembrança...
Essa lembrança da mulher que me acolheu...
Essa mulher era eu.
Dando um conselho pra mim mesma.
A viajante no tempo era eu.
O colapso foi literal.
De repente eu senti que a minha mente não podia parar.
Fazia relações, conexões, como um emaranhado de fios.
Confusa.
Eu fiquei assim o dia inteiro.
E depois me deu um branco.
Era como se alguém estivesse escrevendo.
Como se a minha mente tivesse virado uma fita magnética.
Ou um filme fotográfico capturando a luz.
Uma impressão de uma outra vida.
Aí eu levantei da cama espontaneamente.
E a primeira coisa que eu me lembro depois...
É que eu estava jogada num dos banheiros do aeroporto.
Eu me levantei.
Me olhei no espelho.
E não me reconheci.
Eu estava totalmente careca.
Eu senti alguma coisa ardendo.
Eu levantei a minha blusa.
E tinha uma tatuagem recente.
Cobrindo as minhas costas inteiras.
Demorei dois dias para montar o quebra-cabeças...
Dessas cinco horas de tempo perdido.
Tudo indica que eu levantei da minha cama.
Inconscientemente fui ao banheiro.
Raspei totalmente meu cabelo com barbeador.
E depois eu saí e fui num estúdio.
Mandei fazer uma tatuagem de grandes asas nas minhas costas.
Então eu fui numa farmácia.
Comprei flunitrazepam e uma seringa de insulina.
Peguei um táxi e fui até o aeroporto.
Andei entre os viajantes.
Entrei no banheiro.
E depois me acharam desmaiada no chão.
Posso ver suas costas?
Pode.
E para você não achar que eu fiz a tatuagem na semana passada...
Olha aqui essa foto.
É de 2020.
Uma semana depois do evento.
Uma amiga me arrastou para a praia.
Eu ainda estava me recompondo.
Olha.
Eu ainda estou quase careca. E olha aqui.
Eu de biquíni.
Aqui.
As minhas costas da tatuagem.
Asas.
Olha a descrição da foto.
O colapso?
É assim que você chama isso?
O colapso.
Eu entendo como você se sente.
Nós estamos...
Nós estamos abandonando a realidade porque a realidade não explica nada.
A primeira coisa que temos que fazer é nos acalmar.
Não é acalmar porra nenhuma.
Eu não acredito em nada disso.
Tem dinheiro envolvido.
É algum tipo de desafio? Alguém brincando com a minha mente?
Não. Não.
Não. Eu juro que não.
Eu preciso.
Eu preciso ir embora. É inacreditável que você armou. Mesmo.
Eu não sei como você fez, mas parabéns.
Para você ou para a pessoa que bolou isso tudo.
Eu sei onde encontrar a Maria antes que ela possa fazer alguma loucura.
Eu sei onde ela pode estar.
Mas eu não consigo fazer isso sozinha.
Antônio.
Embora a gente não queira, a gente faz parte.
Não. Não. Não. Sinto muito.
Só ouve ela.
Eu só quero que você ouça um pouquinho só.
E se você quiser, depois pode ir embora.
Você percebe que você está me pedindo?
Que eu vou encontrar alguém que imita uma personagem do meu livro?
E se eu aceitar isso, eu estou assumindo que pode ser possível?
É uma loucura.
Sim. Eu percebo.
Você tem consciência de que o mais lógico seria eu levantar e ir embora pra bem longe?
Esquece a lógica por um momento.
Faça um ato de fé hoje comigo.
Você sempre procurou por esse momento.
Você sabe disso.
Tem alguma coisa em você que quer respostas.
Antônio.
A hora das respostas é agora.
Hoje.
24 de novembro de 2022.
Em muitas linhas, eu suponho que você vai embora e eu continuo sozinha.
Eu espero que essa não seja uma dessas linhas.
Eu espero que você faça esse salto de fé e que venha.
E que venha comigo tentar quebrar o mecanismo.
[]