T1E2
Paciente 63, episódio 2, Delorean.
Hora 9h45, 23 de outubro de 2022.
Segunda sessão. Paciente 63 para registro.
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
O que aconteceu?
Paciente 63 para registro.
Doutora Elisa Amaral. Quando tocar o bip, a gente começa?
Dormiu bem, doutora?
Dormi sim, obrigada.
Você costuma sonhar?
Achei que era eu quem fazia as perguntas.
A gente pode conhecer uma pessoa pelas suas perguntas.
E eu achei que você queria me conhecer.
É, às vezes eu sonho, sim. E você?
Eu não chamaria de sonhos, mas sim.
Você lembra do que sonhou essa noite?
Não.
Você tem tanta certeza? Não quer tentar?
Tentar o quê?
Lembrar do que sonhou.
É que eu realmente não lembro. Não acontece isso com você?
Só quando eu tenho medo de lembrar.
Você se penteou de um jeito diferente?
Prendeu o cabelo?
Definitivamente a gente não está aqui para falar do meu cabelo.
E nem da tatuagem do Coringa no seu braço, que não parece nem um pouco ser de 2062.
Você tem medo, doutora?
O que você acha?
Acho que você tem medo.
E você gosta disso? Faz você se sentir bem?
Não sou eu quem quer assustar você.
Eu não tenho o perfil narcisista que você acha que eu tenho.
E qual é o seu perfil?
Deixe-me ver.
Eu fui uma criança solitária.
Li muito.
Como todas as crianças da minha geração.
Geração EP.
Hoje já chamam desse jeito?
Geração EP?
Geração entre pandemias.
A gente cresceu entre ondas e ondas progressivas.
Isso marcou a gente.
Eu cresci grudado numa tela.
Meus primeiros encontros foram virtuais.
E como todo mundo da minha geração, aprendi a ter medo do contato físico e a confiar mais na distância do que na proximidade.
Para você amar, ir para a cama com alguém, com o maior ou menor compromisso, era ou é,
o resultado exato da sua paixão, da sua educação e dos seus acordos morais.
Já para a minha geração, o sexo ou um simples beijo viraram atos de fé.
Eu tive vários relacionamentos, mas nada definitivo.
Como todo mundo, fui para a terapia.
E aí?
Daí logo depois a terapia acabou.
Você teve alta?
Não. Tudo acabou.
O mundo, você quer dizer?
Sim.
É curioso isso do fim do mundo.
Eu sempre imaginei, talvez pelos filmes ou pelos livros, que o fim do mundo seria um acontecimento catastrófico.
Desastres naturais, terremotos, fogo.
Um mundo colapsando como um acidente fatal.
Eu achava isso.
E o fim do mundo seria o pior acidente de todos.
Já pensou nisso?
Em como vai ser o fim do mundo?
Não. Na verdade, não.
Difícil acreditar.
Todo mundo imagina em algum momento.
Uma bola enorme explodindo, um asteroide, o mar engolindo até o último pedaço de terra.
São só imagens.
Mas todas elas têm em comum uma.
Extremamente tranquilizadora.
O quê?
São fulminantes.
Se o mundo acabasse de qualquer uma dessas formas, a gente não ia ter tempo de se dar conta.
Pode perguntar.
O quê?
Me pergunta como é que acaba o mundo.
Na verdade, eu tenho outras perguntas pra você.
Nenhuma importante.
Me pergunta como é que o mundo acaba, vai.
O MUNDO ACABA
Ok.
Você disse que seus sonhos não eram sonhos.
A que você estava se referindo?
Eles são pesadelos?
Você tem dificuldade para diferenciar sonho e realidade?
Doutora Elisa.
Se a minha realidade fosse esse quarto aqui de parede cinza.
E eu tivesse que presumir que essas luzes fluorescentes horríveis são a minha única fonte de luminosidade.
E que essa mesa com cheiro de ferrugem é onde eu vou ter que comer pelo resto da minha vida.
Sim.
Provavelmente teria dificuldade para diferenciar a realidade dos meus sonhos.
E não é esse o seu caso?
Você não está fazendo as perguntas certas.
Talvez para você eu não esteja.
Mas por enquanto são as que eu preciso que você responda.
Você não quer fazer as perguntas certas.
Porque você não quer escutar as respostas certas.
E você acha que isso é, no seu ponto de vista, porque eu tenho medo?
Acho. Acho que você tem medo.
Medo de que?
De mim.
Eu deveria ter medo de você?
Doutora, você acha que eu te espionei porque eu conheço o seu nome completo.
E você nunca me espionou.
Isso te deixa confusa.
Você andou me investigando.
Não do jeito que você imagina.
Eu não fui ao seu apartamento quando você não estava.
Não roubei suas roupas íntimas.
Eu não hackeei suas contas.
Eu sei o seu nome porque você se apresentou para o meu pai, para a minha mãe,
quando me investigou ou quando vai me investigar.
Os tempos verbais são complicados nessa circunstância.
Mas, enfim, é difícil.
Esquecer um nome se a gente ouviu ele desde pequeno.
Você não tem sotaque de gaúcho.
Isso é porque você cresceu na frente de uma tela?
Pelo efeito, é geração inter-pandêmica?
Entre pandemias. Geração entre pandemias.
Não. Eu não falo com esse sotaque por outra razão.
Mas me surpreende que você tenha um sotaque de gaúcho.
Me surpreende você se preocupar com isso, doutora, e não me fazer as perguntas certas.
Tá, mas você pode me explicar, só por curiosidade, por que você não tem sotaque de gaúcho?
Vamos lá.
38 anos de inteligência artificial e neurociências
permitiram que os tradutores não precisassem ser como os que você tem aí no seu celular.
Nós não somente podemos descarregar qualquer língua baixando um pacote de dados,
como também podemos baixar sotaques específicos de regiões, cidades e anos
e falar todos eles razoavelmente bem.
Mas isso nem é uma coisa que eu preciso pensar. Simplesmente acontece.
E eu que pensava, hein, que numa caixa de fósforos como essa era impossível ter sinal.
Me desculpa, é que pode ser uma emergência.
Eu prometo não ir pra lugar nenhum.
Alô?
Onde estávamos?
Está preocupada.
Como assim?
Sua testa. Até agora você não tinha franzido ela desse jeito.
Isso é novo.
Não é de estranheza.
É de preocupação.
Olha, vou te dar um conselho para o nosso próximo encontro.
Uma espécie de lição de casa.
O que seria?
Imagine ou visualize que o tempo é um caminho através de uma floresta.
Uma trilha.
Agora você está num determinado ponto, amanhã você vai estar além e o ano seguinte mais além.
Você pode imaginar isso, não pode?
Eu vou precisar disso porque eu vou te pedir.
Eu estou imaginando.
Imagine que existe uma doutora Elisa em cada um desses momentos
e que a doutora Elisa que nos interessa está no final da trilha.
No futuro.
E ela quer te dizer alguma coisa?
Dar um conselho para sua irmã mais nova de hoje?
Que é você, hoje.
Que conselho ela te daria?
E você quer que eu faça isso agora?
Não.
Esse é o ponto.
Não poderia.
Seria você hoje imaginando a doutora Elisa do futuro
dando um conselho que você elaborou com a informação de hoje?
Não.
Mas você pode fazer um acordo.
Se comunicar com a futura doutora Elisa enquanto dorme.
Ela vai te dar uns bons conselhos.
E da próxima vez que a gente se encontrar, você vai me contar o que sonhou.
Quem sabe ela não te fala sobre nós.
Sobre nós?
Sobre você e sobre mim.
Eu estou deduzindo que você acha que nós dois vamos nos encontrar.
E que essa relação vai ser tão relevante para mim
que eu, ou melhor, o meu eu do futuro vai me alertar nos sonhos.
É isso?
É que eu queria entender direito.
Exatamente, doutora.
Então, você viajou no tempo sonhando?
É que não me parece muito científico.
Não, doutora. Eu não viajei assim.
Só estou lhe dando um presente de um dado que todo mundo conhece na minha época.
Eu viajei de uma maneira bem mais complexa.
Então, você é um cientista? Ou um militar?
Se eu fosse um cientista ou um militar, não estaria preso aqui.
Teria treinamento suficiente para que nunca tivesse me descoberto.
Eu sou uma pessoa comum que foi enviada justamente por isso.
Por ser quem eu sou.
E quem é você?
A gente já vai chegar nisso.
Mas a gente estava falando do mecanismo da viagem no tempo.
Ok. Sim.
Me descreve, então, a máquina do tempo que trouxe você até aqui.
Onde foi que você deixou a sua cápsula?
Ou, não sei, a sua nave? Enfim, o que for.
Eu deixei a minha máquina no tempo.
Como é que ela era?
Se você precisar, eu posso te prestar uma folha para você fazer um desenho.
Não, doutora. Não existe máquina nenhuma.
Vamos tirar o Delorean da equação.
Você não lembra dos fatos históricos que seriam a prova para me convencer,
mas lembra, sim, o detalhe de um filme.
Claro. É uma comédia muito boa. Um clássico da cultura pop.
E eu não sei o que fazer com ela.
É uma comédia muito boa. Um clássico da cultura pop.
E eu gostar de cinema, ter assistido De Volta pro Futuro, O Poderoso Chefão,
ou Taxi Driver ou Homem da Terra, não invalida que eu seja um viajante do tempo.
Só me faz um viajante do tempo cinéfilo.
Fiz você rir.
Você queria que eu não risse?
O que foi?
Nada.
Estou só olhando para você.
Enfim, não estamos falando de cinema.
A gente está falando de algo bem mais complexo.
O que eu acho estranho é esse jogo onde você pretende estar interessada no meu delírio
e finge dar importância a coisas que você não entende e nem te interessa.
Segundo você, eu estou louco?
Para que você quer saber como eu viajei no tempo? Sinceramente.
Eu não acho que você esteja louco.
As patologias mentais são complexas e em muitos casos...
Quer mesmo saber?
Tá bom, eu quero. Me diz. Como é que você viajou no tempo?
Lasers.
Lasers.
Os lasers criam um feixe de luz circulante que entorta o espaço e o tempo.
Pegue um laser e veja o que acontece perto de um motor de um avião ajeto e leve um relógio.
Só para o registro. Um laser.
Um conjunto de lasers.
Um conjunto de lasers ao seu redor.
Que altera a gravidade.
Doutora, essa é a questão.
Para uma viagem ao futuro, a palavra-chave é velocidade.
Para uma viagem ao passado, a palavra-chave é gravidade.
Um campo gravitacional produzido por um anel de lasers.
Uma máquina do tempo baseada num feixe de luz circulante.
E onde ficou essa tecnologia? Para que você possa voltar agora para casa.
Bom, essa é a parte triste, doutora.
Esse tipo de viagem tem um inconveniente, aliás, bem grande.
É uma viagem sem retorno.
Mas se é assim, por que você ia querer vir?
O pessoal que foi para a colônia em Marte não pensa em voltar.
Colônia em Marte?
Bom, isso ainda não aconteceu, mas vai acontecer.
Eu não conheço os detalhes, as pequenas coisas, mas a colônia de Marte é muito importante.
O que eu quero dizer é que eles não pensam em voltar.
Eles escolheram um caminho de uma via só.
Assim como você.
Mas eles devem ter, imagino eu, algum propósito.
Também tem.
Salvar o mundo.
É óbvio. É. É um lugar comum. Mas é. Com certeza.
Ok. Mas salvar o mundo do quê?
Porque se for um vírus ou a mudança climática, me parece que chegou tarde demais.
Você percebe que fala como se acreditasse em mim, doutora Eliza?
Fizemos um grande avanço, você e eu.
Nossa, eu estou acompanhando a sua linha de raciocínio.
Por favor, me responda.
Salvar o mundo de quê?
Salvar o mundo de uma pessoa.
Sim. Sim. A Maria. Maria Cristina Borges.
E ela é o quê? Uma terrorista?
É uma pessoa como você e como eu.
Pessoas normais e invisíveis no grande desenho.
Mas ela... ela é muito importante.
E como você pretende fazer isso?
Eu digo, como você pretende impedir uma pessoa de fazer aquilo que ela tem que fazer, não importa o quê?
Não. Não.
Não sou eu quem vai impedi-la.
É você.
Você vai ter que impedir.
Você, doutora, vai deter Maria Cristina Borges de salvar o mundo.
E por que eu faria isso?
Porque você.
Porque você, sem nenhuma dúvida,
e derrubando todos os seus preconceitos,
no final desse caminho,
você vai acreditar em mim.
Paciente 63 é uma série original Spotify.
Protagonizada por Mel Lisboa e seu Jorge.
Criada por Julio Porras.
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