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O Assunto (*Generated Transcript*), O caso Cuca e a violência de gênero no futebol I O ASSUNTO I

Intermedio 1 di portoguese lesson to practice reading

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O caso Cuca e a violência de gênero no futebol I O ASSUNTO I

A torcida vibrou, cantou o hino do Grêmio, aplaudiu os jogadores e xingou a jovem Suíça.

Foi assim que o jornal Zero Hora resumiu a recepção de quatro jogadores do Grêmio

no aeroporto de Porto Alegre, no dia 31 de agosto de 1987.

Eduardo, Fernando, Henrique e Alexi, o hoje treinador Cuca, voltavam ao Brasil depois

de 30 dias presos na Suíça, acusados pelo crime de estupro de vulnerável contra uma

menina de 13 anos de idade.

O advogado e vice-presidente do Grêmio de Porto Alegre viajou hoje para a Suíça para

defender os quatro jogadores acusados de terem violentado uma menina.

A garota subiu no quarto de um dos jogadores, no Hotel Inverna, para pegar uma camisa do

Grêmio.

No dia seguinte, ela foi vista com a camisa e disse que foi estuprada pelos quatro jogadores.

O caso foi manchete dos principais jornais do Rio Grande do Sul e mobilizou a opinião

pública que, na época, ficou ao lado dos então suspeitos.

Em todo o estado, a população acompanha o caso.

Nós fizemos uma enquete aqui no centro de Porto Alegre.

De 20 entrevistados, apenas um achou que os jogadores devem ser condenados.

Com tanta mulher, só por eles serem jogadores, vão assim atrás, vão correndo atrás dos

jogadores.

Eu acho que eles não fariam isso.

Os jogadores do Grêmio foram muito ingênuos em terem se envolvido com uma menor.

Eu não condenaria, né?

Porque eu acho que tem que ouvir primeiro a parte deles.

Eles não foram ouvidos ainda.

Quando ela sabe que é do Brasil, ela sabe já que é terra de futebol, samba e outras

coisas.

Então, o jogador é sempre mais procurado e isso pode acontecer.

Os atletas foram condenados em 1989 pela Justiça Suíça, mas nunca mais pisaram na prisão.

No Brasil, seguiram suas vidas normalmente, até que o caso Robinho colocasse no centro

da pauta esportiva a violência de gênero.

A Justiça Italiana condenou, em última instância, o jogador Robinho pelo crime de violência

sexual.

Segundo decisão da Justiça Italiana, de novembro de 2017, ele e outros cinco amigos

tiveram relações sexuais não consentidas com uma mulher que, na época, tinha 23 anos.

Depois de protestos de torcedores e da pressão dos patrocinadores, o Santos Futebol Clube

e o jogador Robinho anunciaram a suspensão do contrato que tinham assinado há seis dias.

Das dez empresas que investem no time de futebol do clube, uma rescindiu o contrato e outras

sete ameaçaram fazer o mesmo se o Santos não desistisse de repatriar Robinho.

Até que então, na semana passada, o Corinthians anunciou que Cuca seria o treinador da equipe

masculina.

E mais detalhes do crime vieram à tona.

Desde que foi apresentado, Cuca enfrentou protestos pelo que aconteceu em 1987.

Na primeira entrevista no Corinthians, Cuca alegou que não foi reconhecido pela vítima.

Mas esta semana, o portal Uol divulgou uma entrevista com o advogado da menina à época.

Ele disse que Cuca foi reconhecido pela vítima e que foi encontrado semen dele no corpo da

garota num exame feito pelas autoridades suíças.

A pressão da arquibancada cresceu.

Ao rotuíno, preste atenção, respeite as minas última.

Fazendo breve a passagem de Cuca pelo clube paulista.

O Corinthians venceu o Remo ontem, se classificou para as oitavas de final da Copa do Brasil

e logo depois do jogo, o técnico Cuca anunciou a saída do clube.

Foram sete dias e dois jogos no clube.

Da redação do G1, eu sou Júlia Doailibe e o assunto hoje é o caso do estupro de Berna

e a pressão que tirou Cuca do Corinthians.

Um episódio para explicar o que mudou na abordagem da violência de gênero no futebol

e na sociedade brasileira nos últimos 30 anos.

Neste episódio, eu converso com André Rizek, apresentador do EsporteTV.

Em seguida, eu falo com Gabriela Moreira, repórter de esportes da Globo.

Sexta-feira, 28 de abril.

Rizek, você pode lembrar para a gente, para quem nos ouve, como foi a cobertura desse

caso na época dos fatos, no fim da década de 1980?

Bom, é preciso a gente entender como era a sociedade nos anos 80 e como a gente melhorou

de lá para cá.

Porque a cobertura da época, ela foi basicamente tratar os jogadores do Grêmio como vítimas

Não a vítima da violência sexual em si, a Sandra, uma garota suíça de apenas 13 anos.

Quem recebeu o tratamento de vítima na época, na cobertura, falando de uma maneira geral,

na média, foram os quatro jogadores do Grêmio, cujas idades variavam entre 20 e 24 anos.

O Cuca, por exemplo, que é o rosto mais famoso desses quatro jogadores condenados na Suíça,

ele tinha 24 anos.

Então o tratamento foi assim, que eles ficaram presos na época, deram a volta por cima,

conseguiram seguir as suas vidas, retornaram ao Grêmio, às suas famílias.

O ambiente no Grêmio é de muita preocupação.

O presidente, Paulo Adoni Ribeiro, defende os jogadores, mas diz que independente da

decisão do Tribunal Suíço, o clube aqui vai tomar providências.

A direção do Grêmio dá toda a solidariedade, cuidado e proteção aos seus jogadores.

O tratamento, a vítima, de fato, sempre foi de que ela...

Poxa, mas quem garante que ela não quis?

Repito, ela tinha 13 anos à época.

Como um homem não vai se portar diante de uma mulher bonita?

Insisto, ela tinha 13 anos.

Tudo isso, você pensa que ali em reportagens publicadas à época, eles inclusive,

quando retornaram ao Brasil, foram recepcionados no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre,

por alguém que estava voltando da guerra, os heróis que estavam retornando para seguir a sua batalha.

Quando os atletas entraram no salão do aeroporto,

duas mil pessoas gritavam palavras de ordem contra a menina,

como se eles não tivessem praticado nenhum ato equivocado.

Nós erramos, eu acho que nós estamos conscientes disso e graças a Deus nós estamos aqui.

Vamos procurar esforçar bastante para superar esse erro e conseguir um futebol que é muito importante para nós.

Eles estão saindo muito rapidamente.

Eu vi que o Fernando e o Eduardo estavam sendo abraçados, eles estão sendo carregados.

Então é algo que eu acho que deve envergonhar a gente como classe, a gente jornalista, jornalista esportivo,

porque a cobertura à época foi essa.

Eu queria sim que você falasse sobre essa linha do tempo, mas queria mais também,

que você nos explicasse em que momento do Corinthians Kuka é contratado como técnico

e aproveitasse e falasse sobre a trajetória dele como treinador.

O Kuka é um dos principais treinadores em atividade hoje no Brasil.

Entre os principais, diria entre os três principais.

Ele é um treinador vitorioso, competente, isso eu acho que não se discute.

Acho que é importante dizer que quando eles voltam da Suíça, eles são condenados em 89,

dois anos depois do crime.

E digo crime numa boa, porque a justiça suíça já tratou de tirar essa dúvida.

Foi um crime que aconteceu no quarto 204 do Hotel Metropol, em Berna, na cidade da Suíça.

Eles foram condenados dois anos depois, em 89.

Por muito tempo se espalhou a versão e a gente jornalista comprou,

sem questionar, de que eles foram julgados à revelia.

Essa informação é falsa.

O Grêmio representou os quatro jogadores, o Luiz Carlos Filveira Martins,

advogado do Grêmio na época, e depois virou presidente do Grêmio, inclusive,

o presidente dele é Cacalo.

Ele defendeu os jogadores do Grêmio, aliás, qualquer pessoa tem direito à defesa.

Contrataram dois representantes na Suíça, houve a defesa.

O que aconteceu é que os jogadores não estiveram presentes nos julgamentos,

mas isso não quer dizer que eles foram julgados à revelia.

Eles tiveram amplo acesso, amplo direito de defesa e foram condenados.

Este é Alex Estival. O Kuka é paranaense, joga na meia-direita, tem 24 anos,

único dos quatro jogadores que é casado. Os outros três são gaúchos.

Eduardo Hamster, goleiro, tem 21 anos, nasceu em Porto Alegre.

Fernando Castoldi, joga na ponta, 22 anos, nasceu em Guaporé.

E Henrique Etges, zagueiro, 20 anos, nasceu em Venançoares.

Em 89 eles são condenados, como eles estavam no Brasil, eles não cumpriram a pena,

a pena prescreveu, hoje eles podem inclusive entrar na Suíça como cidadãos livres.

A vida deles segue, e aí o Kuka vira treinador.

Isso sempre foi tratado na mídia, com o passar dos anos, como pé de página.

Quando você fazia perfis do Henrique, do Kuka, você tratava o tema como pé de página,

uma condenação na Suíça, a qual ele, Kuka, sempre alegou inocência,

e que, aí acho que é importante a gente deixar isso claro,

o Kuka sempre alegou que ele nunca fora reconhecido pela vítima.

Por três vezes a moça teve lá na frente, não é que reconheceu, é que eu não estava,

e ela, a vítima, não sou eu, é ela, a vítima é a moça.

O rapaz não está, o rapaz não está, o rapaz não está.

Se a vítima fala que não está, e eu juro por Nossa Senhora,

que é o que eu mais adoro e amo na vida, que não estava, como que eu posso ser condenado?

E nós, numa falha grotesca, vergonhosa, vexatória da imprensa como um todo,

nós aceitamos a versão do condenado, sem buscar nos autos do processo,

sem buscar junto aos representantes da vítima, se essa versão fazia sentido.

Então o Kuka dizia, não, eu nunca fui reconhecido pela vítima, eu sou injustiçado,

a gente tratou isso como um atenuante.

Mas essa informação, ela é provavelmente falsa,

porque o Portal Uol teve o grande mérito nessa semana,

de depois do Kuka contratado pelo Corinthians, já depois de fazer a sua estreia, inclusive,

trazer pela primeira vez a versão, numa reportagem no Brasil, a versão da vítima,

que é a versão que mais importa.

E o advogado da vítima, entrevistado pelo Portal Uol, num furaço de reportagem,

disse que ela reconheceu o Kuka, ao contrário do que o Kuka falou,

e eu chequei essa informação com pessoas que acompanharam o caso à época,

e por incrível que pareça, elas confirmaram a informação,

ou seja, a gente publicou algo errado por muito tempo.

Ela reconheceu o Kuka, e mais, assim como publicou o jornal Der Bund em agosto de 89,

um dia depois da condenação, é o principal jornal de Berna,

um esperma no corpo da menina, periciado, foi comprovadamente atribuído ao Kuka.

A Sandra mesmo, ela não quer aparecer, imagina o trauma na vida dela, segundo o advogado.

Ela tentou cometer suicídio, dois anos depois que foi violentada, por quatro adultos.

Você pode querer discutir qual a participação dos quatro, para mim ainda não está claro,

mas o fato é que os quatro foram condenados por uma violência sexual.

Kuka, Eduard e Henrique foram condenados por atentado ao pudor com uso de violência.

Já Fernando foi inocentado do atentado ao pudor,

mas foi condenado por estar envolvido num ato de violência.

Eles tiveram que pagar multa e receberam penas que variaram de 3 a 15 meses de prisão,

mas que puderam ser cumpridas em liberdade.

O Kuka que disse que nunca encostou nela, que só estava presente num quarto duplo,

tem essa versão agora confrontada pelo advogado da vítima.

E aí para a gente ter certeza e poder cravar, a gente precisaria ter acesso ao processo.

A Suíça preza muito o direito à privacidade, ao sigilo,

e nunca liberou o acesso de jornalistas brasileiros que por muito tempo procuraram os autos,

do chamado escândalo de Berna.

É até possível, Júlia, que esse processo já tenha sido incinerado,

já que é uma prática na Suíça, depois de um certo tempo,

você incinerar os processos quando eles eram na época de papel.

Então a gente não tem acesso ao processo.

O Kuka contratou um escritório de advocacia criminal aqui no Brasil

que promete ir à Suíça e ir atrás das informações,

assim como a gente mesmo aqui do Grupo Globo está tentando, mas sem sucesso,

porque até agora a Justiça Suíça nega totalmente o acesso ao caso.

Por que de repente se voltou a falar de um caso que por décadas estava esquecido na imprensa brasileira?

Para mim, o ponto de virada é a condenação do Robinho.

Em 2020, quando o Robinho ainda não estava condenado em todas as instâncias,

mas você já tinha acesso a detalhes do processo na Itália,

do crime de estupro, o Robinho na Itália é um criminoso,

houve uma gritaria da opinião pública de vários jornalistas,

como é que o Santos vai contratar um jogador que está sendo,

ainda não era uma condenação definitiva, condenado por estupro?

Isso foi em 2020.

Aí o Esporte Espetacular da TV Globo fez uma matéria profunda

sobre outros casos de atletas envolvidos ou condenados em escândalo sexual

e se buscou uma equivalência.

Ué, se o Robinho não pode voltar a jogar futebol,

por que as pessoas condenadas lá atrás, como o Kuka, seguiram a sua vida?

E essa pergunta passou a ser feita com mais constância.

O Kuka, depois disso, foi trabalhar no Clube Atlético Mineiro,

onde ele tem uma história muito bonita como treinador,

acho que ele é o maior treinador da história do Galo,

e no Galo, na minha visão, o Kuka foi muito blindado com relação ao tema.

Não se deixou esse assunto chegar, por exemplo, para entrevistas coletivas,

como aconteceu no Corinthians.

O Corinthians é um clube diferente,

o Corinthians é um clube que gosta de bater no peito

e se dizer o clube mais democrático do país.

Sócrates, Vladimir, Casagrande e Zenon lideraram um grupo

que fundou uma democracia dentro do Corinthians.

Decisões importantes do clube, como regras de comportamento dos jogadores,

o fim das concentrações e até as contratações eram colocadas em votação.

Todos tinham direito de opinar.

E o voto era igual mesmo.

Eu era o único jogador de seleção do Corinthians.

Eu tinha o mesmo peso que tinha o terceiro goleiro.

Tinha o mesmo peso que o cara que limpava a minha chuteira.

E tinha o mesmo peso que o diretor do clube.

O meu voto era um para um.

É a coisa mais bonita do mundo, cara.

Então esse assunto não foi tratado como tabu

e acho que é fundamental trazer como um ponto importantíssimo dos dias de hoje

que é a presença das mulheres na imprensa esportiva

de maneira como a gente não via antes.

E é óbvio que como no Brasil uma a cada três mulheres

relatam já ter sofrido algum tipo de abuso sexual,

é claro que uma notícia dessa pega diferente numa mulher do que no homem.

E a presença de mulheres no debate esportivo

tornara essa discussão mais forte, essa discussão essencial.

Paralelo a isso, o Corinthians é um clube que empoderou as suas atletas.

O Corinthians tem hoje muito mais sucesso esportivo no futebol feminino

que no masculino.

O futebol feminino do Corinthians é hoje a grande referência na América do Sul

desse esporte.

Está muito mais vitorioso no momento que o futebol masculino.

Agora o Corinthians foi campeão da Libertadores em 2017, 2019 e agora 2021.

Tem o Timarço.

O Corinthians é atual campeão brasileiro e venceu...

E o Corinthians empoderou as suas atletas.

Elas têm voz ativa no clube.

E elas arrastam para o estádio torcedoras.

O Corinthians criou uma cultura de futebol feminino.

Então o próprio time feminino do Corinthians, de forma unânime,

todas as jogadoras, inclusive o técnico,

fizeram uma postagem no domingo, dia da estreia do Cuca contra o Goiás,

no minuto 87, que remete ao ano do crime cometido em Berna,

numa posição clara contra a chegada do treinador.

As jogadoras do Corinthians se pronunciaram em relação à contratação do Cuca.

Esse post, gente, é da Tamires, capitã, jogadora muito importante,

de grande identificação com o clube.

Ela postou isso e todas as outras atletas também.

Vou ler aqui.

Estar em um clube democrático significa que podemos usar a nossa voz,

por vezes de forma pública, por vezes nos bastidores.

Respeita as minas. Não é uma frase qualquer.

É, acima de tudo, um estado de espírito e um compromisso compartilhado.

Ser corinthians significa viver e lutar por direitos todos os dias.

O Corinthians tem uma campanha que é respeita as minas.

É exatamente assim, respeita as minas.

E o Cuca, na sua apresentação, além de repetir essa versão de que ele é inocente,

ele chegou a dizer que não entendia porque as mulheres estavam contra a contratação dele

e que ele ia procurar abraçar a campanha.

Qual o nome mesmo? Ele não sabia o nome da campanha.

Então ele chegou despreparado também para a entrevista para tratar de algo que é muito caro hoje no Corinthians,

que é essa campanha junto à sua torcida, que é o respeita as minas e a palavra das mulheres.

Nossa, André, que aula. Deu para entender tudo.

Para a gente finalizar, então, queria mergulhar num último ponto.

Queria entender um pouco como se posicionaram os jogadores, a presidência do clube e a torcida.

Bom, falar de torcida do Corinthians é muito difícil.

São 28 milhões de corintianos, segundo as pesquisas no Brasil.

O que o Corinthians fez foi consultar a principal torcida organizada, que é a Gaviões da Fiel, que deu o aval.

Então o clube achou, na minha visão, na minha interpretação,

achou que tendo o aval da maior organizada, ele teria paz na sua torcida para trazer o Cuca.

E isso não foi o que aconteceu, porque a Gaviões da Fiel tem um peso muito grande,

é uma torcida organizada muito forte na história do Corinthians,

ela pode até ditar o ritmo daquilo que acontece na arquibancada, no estádio,

mas ela jamais vai conseguir representar 28 milhões de pessoas.

E que se manifesta em rede social, em campanhas.

Por exemplo, houve faixas estendidas por torcedores do Corinthians

numa reunião segunda-feira do Conselho Deliberativo com o Foracuca.

Nós fomos contra a contratação.

A hashtag Respeita as Minas foi pioneira no futebol pelo Corinthians,

mas hoje a gente coloca essa hashtag abaixo e a gente vem falar que não queremos só o marketing,

a gente quer ser respeitada em todos os sentidos.

Essa contratação vem violar toda essa caminhada que a gente vem lutando.

Então o Corinthians dimensionou muito mal, o Corinthians se preparou muito mal

e chegou a comunicar ao presidente corinthiano, Duilio Monteiro Alves,

que o clube havia feito uma pesquisa muito embasada, muito séria,

e segundo essa pesquisa o Cuca era inocente e o Corinthians acreditava nessa pesquisa.

Claramente essa pesquisa é uma balela, o Corinthians apenas ouviu a versão do Cuca

e achou que não haveria repercussão.

O Corinthians é uma caixa de ressonância brutal,

e você não consegue controlar a reação da opinião pública nem dos corinthianos.

Eu acho que a reação dos corinthianos, de vários corinthianos,

se misturou a reação de várias pessoas que acompanham o futebol.

Então o que a gente tinha no jogo de despedida do Cuca era no estádio

um certo acordo entre os torcedores de que não abordaria o tema durante o jogo do Corinthians,

por isso que ela chegou contra o Remo.

Mas claramente a campanha e a indignação de vários torcedores

continuaria depois da partida, ainda que no estádio houvesse esse pacto

de não se falar contra a chegada do Cuca.

Maravilha, André, muito obrigada pela sua disponibilidade de nos explicar esse caso.

Como eu te disse, foi uma aula e até a próxima vez.

Obrigado, Júlia, e acho que o principal recado como jornalista esportivo

que eu faço, a minha principal reflexão é a seguinte,

nós erramos, mas a gente não tem compromisso com o erro

e hoje a gente tenta fazer uma reparação histórica trazendo a maior quantidade

de detalhes e informações sobre o caso, ainda que tardiamente,

ocorrido em 87 na cidade de Berna, na Suíça.

Júlia, um beijo para você e a todos os ouvintes.

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Gabriela Moreira.

Gabriela, você acompanha de perto a repercussão de episódios em que homens

do mundo do futebol são acusados de abuso.

Na esteira desses episódios, a gente vê diretorias, jogadores e até torcedores

minimizando os crimes no que pode ser chamado de pacto da masculinidade no futebol.

Só que nesse episódio a gente viu um movimento diferente, um movimento importante

que veio do time feminino, que veio de parte da torcida e também da imprensa.

Eu faço um parênteses, uma imprensa que cobre futebol

em que cada vez mais há mulheres trabalhando.

Na sua avaliação, o caso Cuca pode representar uma mudança nesse cenário,

uma mudança de comportamento?

Júlia, sem dúvida. Ele já representa uma mudança de comportamento.

Veja bem, vamos analisar a notícia friamente.

O técnico do segundo time de maior torcida do país pediu para sair do comando desse time,

mesmo tendo classificado por uma competição importante.

Durante muitos anos, e na verdade a regra até então,

era que qualquer assunto que fosse considerado extra-campo

fosse minimizado diante dos resultados.

Sendo positivos, esquece-se o que aconteceu no extra-campo.

Sendo negativo, às vezes isso pode ser um caldo que dá mais fervura.

O que aconteceu nessa quarta-feira foi simbólico.

O Cuca, mesmo tendo classificado o Corinthians, pediu para sair

porque ele foi insuportável à cobrança por algo que ele fez extra-campo.

Então, a partir do Cuca, teremos outros casos.

Assim eu espero que aconteça.

Que a sociedade, que o mundo do futebol perceba que ele não está desconectado da sociedade.

Esse caso é exemplar para isso.

Gabriela, você vê uma diferença na forma como homens e mulheres abordaram esse assunto?

E aí eu estou falando de jogadores, jornalistas, torcedores.

Eu já vi em outros momentos jornalistas mulheres pregando sozinhas

sobre o que elas passam no universo que é predominantemente ainda masculino.

Esse caso, Júlia, eu vi que houve conexão com jornalistas homens também.

Se a gente for analisar os últimos fatos da história, as revelações da história,

elas foram trazidas por homens.

Foi numa reportagem do UOL, do Adriano Winkson, que revelou que o advogado da vítima

confirmava tudo aquilo que o Cuca estava negando.

Então eu consegui contato com o advogado da vítima, o Willy Igloff,

é um suíço que tem um escritório em Berna.

Ele me atendeu por e-mail e ele rebateu essa afirmação do Cuca.

Ele disse que sim, a vítima reconheceu o Cuca como um dos estupradores dela lá em 87.

Uma outra coisa importante que o advogado falou é que o sêmen do Cuca foi encontrado na vítima.

Foi feito um exame na Universidade de Berna na época e constatou que esse material genético

foi realmente do Cuca.

Então é uma prova material que liga o Cuca a esse caso.

Uma publicação específica, nichada, feita por torcedores,

e aí é uma análise que a gente faz da imprensa como geral,

que é um portal chamado Meu Timão, que é um portal que fala a linguagem do torcedor,

esse portal também trouxe revelações importantes em relação ao caso.

Ele conseguiu e-mails em que a justiça suíça confirmava tudo o que a imprensa estava trazendo para o caso.

Ele conseguiu referendar o que a imprensa suíça estava fazendo.

Então eu já vejo hoje isso como um avanço, em que as mulheres não pregam mais sozinhas sobre os seus problemas.

Eu vejo cada vez mais homens ou sendo constrangidos a darem posicionamentos,

ou dando posicionamentos sim, porque já fazem parte de uma sociedade que entendeu que é uma luta que não é só das mulheres.

Exato.

Gabriela, parte dos defensores de Cuca alegam que ele sofreu um cancelamento, que foi um massacre.

Mas é importante a gente lembrar que o treinador teve a oportunidade de se explicar, de se desculpar.

Foi uma decisão da justiça, teve um julgamento, num país em que existe uma justiça consolidada, que é a Suíça.

Gostaria que você falasse um pouco sobre isso.

Tem uma parte da nossa audiência, dos nossos telespectadores que consomem futebol,

que perguntam assim, vocês estão massacrando o Cuca, até onde vai o massacre com o Cuca?

Ele vai ser cancelado? Ele nunca mais vai poder treinar um time de futebol?

E, Júlia, eu tenho um posicionamento pessoal a favor da resocialização de condenados, por exemplo.

Eu não sou a favor da pena de morte.

Eu não sou a favor que o Cuca nunca mais treine um time de futebol.

Inclusive, eu sequer acho que ele deveria necessariamente ter saído do comando do Corinthians.

O que eu acho que o Cuca precisa entender é que a resocialização de condenados,

ou seja, que ele possa continuar trabalhando, isso vai depender que ele mostre que, de fato,

prestou contas à sociedade.

A resocialização de condenados, para mim, só é válida quando esta pessoa que deveu à justiça,

ela mostre que ela cumpriu o que merecia, o que deveria, tanto judicialmente,

quanto ela prestou contas à sociedade, prestou contas morais à sociedade.

E não me parece que o Cuca tem entendido isso.

Nos pronunciamentos públicos que ele fez, ele teve chance de fazer,

por diversas vezes ele se negou a fazer, mas em entrevistas recentes,

inclusive na saída dele do Corinthians, ele não mostrou que fez a reflexão

que a sociedade atual gostaria que ele refletisse.

Ele está sendo condenado moralmente, publicamente, por atos que ele fez há 36 anos,

mas tendo uma rara chance de, diante dos olhos da sociedade atual,

mostrar que ele minimamente refletiu sobre o que ele fez.

Mas eu não tenho lembrança, te juro por Deus, muita coisa...

Se eu pudesse fazer alguma coisa diferente, mas eu era um piá, um menino,

eu ficava no meu cantinho, eu ia fazer o que de diferente, o que...

Eu não vi nada, dentro daquilo eu não vi nada.

Tem um fato que é muito simbólico, muito se questiona o fato dele ter dito que

ele não se lembra o que aconteceu.

E eu entendo, Júlia, que ele não se lembre o que aconteceu,

porque esse fato que ele fez, ser acusado de abuso sexual contra uma menor de idade,

esse fato não o assombrou por 36 anos.

Mas ele está tendo a chance agora de refletir sobre esse ato e dizer à sociedade

o que ele pensa sobre o que ele fez lá atrás.

Então, eu acredito que se ele tivesse feito isso de uma forma que a sociedade

entendesse que é satisfatória, ele poderia ter continuado no cargo,

mas não foi assim que ele agiu.

Ele não mostrou aos torcedores, ele não mostrou aos formadores de opinião

que ele refletiu minimamente sobre o que ele fez.

Ele não deu satisfações à sociedade ainda.

Pois é, os tempos mudaram e os posicionamentos deveriam ter acompanhado essa mudança.

Gabriela, agradeço demais sua presença aqui com a gente.

Fico o convite para uma próxima vez.

Tá bom, Júlia, eu que agradeço.

Disponho.

Este episódio tem áudios do portal Uol.

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Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Thiago Aguiar,

Gabriel de Campos, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski, Etos Kleiter e Nayara Fernandes.

Eu sou a Júlia Adolibi e com este episódio me despeço desta temporada no assunto.

Ana Tuzaneri volta de férias no dia 2 de maio.

Agradeço demais a companhia de vocês e até a próxima.

Legendas pela comunidade Amara.org

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