SÓ PAI ENTENDE
Vamos brincar?
Vamos!
Eu trago ele sempre aqui.
Tem muito espaço.
Aqui é bom sim.
–Oi, Ana. Tudo bom? –Oi.
Mas é bom ter um dia de folga também.
Deixar eles correndo assim é tão bonito, né?
Bom que também gasta energia,
não perturba, não faz bagunça dentro de casa.
Criança dá trabalho mesmo, mas quando solta assim é...
...impressionante.
Verdade.
Aqui, resolveu aquele negocinho do intestino dele,
com problema, você achou que era virose.
Sim, graças a Deus não era virose.
Ele tá ótimo, ele...
Ô!! Tira isso da boca!
Cospe no chão!
Pode ver nada no chão que enfia na boca.
Uma seringa.
Mas tá ótimo. Aquele mal-estar que dá nessa idade,
sempre tem um revertereozinho.
O meu também estava meio malzinho.
Fazendo um cocozinho molengo.
Deixa falar uma coisa rapidão?
Sabe que a gente gosta muito de você, de trocar uma ideia,
mas tá chato já.
Você fica querendo participar do nosso papo
que somos pais de verdade, e você não é.
Quer participar e não tem condições
porque não sabe o que a gente vive.
Claro que vou entender, minha filha tá ali brincando.
Tua filha é humana, não se compara com cachorro.
Somos pais de pet,
dá muito mais trabalho.
Fica até desrespeitoso relativizar isso, de verdade.
Não sou mãe então?
Não sou mãe porque não sou mãe de cachorro?
Porque sou mãe de humano. Isso é preconceito.
Olha, é muito difícil dar conta de um ser que não fala
e não tem responsabilidade pelos seus atos, entendeu?
Eu sei, Carla. Um bebê é exatamente assim.
Já tá comparando de novo? Não dá pra comparar.
É até feio. Para com isso. Coisa chata.
Quero ver se sabe o que é, por exemplo,
separar, dosar um vermífugo pra dar pro seu filho.
O que é lavar, esfregar, levantar o rabo, lavar dentro.
Ela não sabe a responsabilidade, não adianta.
Responsabilidade.
O filho de vocês, literalmente, caga no chão.
Opa! No tapete higiênico.
Filho meu não caga em sinteco não.
Vou ter que falar uma coisa, Ana.
A gente tá aguentando esse tempo todo porque é nossa amiga,
mas você tá comparando muito, já passou do limite.
Na semana passada eu estava aqui contando do Tuli,
que sofreu uma castração e ficou mal,
e veio comparar com seu humano que teve catapora
e ficou internado.
Foi feio demais.
O nome é Beatriz Valentina, tá? Não chama de humana.
–Frescura! –Não gosto que chame de humana!
Ana, isso é uma carência sua. Deve ser.
Deve ser. Está muito apegada.
Vai fazer terapia, cromoterapia, qualquer coisa.
Por que não adota um vira-lata mesmo?
Tô ocupada demais criando minha filha legítima,
que nasceu de mim, que ficou nove meses na minha barriga.
Pra cima e pra baixo parecendo uma melancia.
Troca, Ana.
Tanta gente louca querendo adotar humano de verdade.
Não vou trocar minha filha por um cachorro.
Ana, continua brincando aí de ser mãe.
É muita pressão tirar um pet de uma situação de rua.
Quer que eu coloque um golden na minha casa,
e sacuda minha filha no mato? É isso?
Mas ela vai embora de qualquer jeito, Ana.
Humano é assim, tu não sabe?
Pequenininho você cuida, quando cresce ganha o mundo.
Vai pra faculdade, faz amigos e nunca mais vai ligar.
Você vai ligar e ela não vai atender nunca mais.
Agora, o Tobias não.
–Ah, seu poddle. –Lulu.
Lulu da Pomerânia.
E ele vai ficar comigo até o último dia da vida dele.
Mãe de humana é interesseira. Tá esperando o quê?
Que tua filha seja uma dentista em São Conrado,
uma juíza, médica.
Dra. Deolane, né?
Não! A gente não espera nada dos nosso filhos.
No máximo, um sofá mijado,
uma correia ruidinha da nossa sandália
que nem serve mais pra nada.
A gente ama de verdade, você não sabe o que é isso.
Está enganada, está enganado.
Queria saber se dedicaria tanto amor à sua filha,
se soubesse que quando ela crescer
ela vai virar uma gerente de RH do Méier
casada com um coach.
É o que imaginei.
Vou embora.
Vamos, filha, vamos embora.
Tchau! Vamos. Minha casa é muito mais legal que aqui.
Tchau!
Tchau, vai tarde!
Nossa!
Ih, olha quem vem lá.
Ô, meu Deus! O que é aquilo na mão dela? Uma samambaia?
Ôxe, a samambaia tem nome, é Letícia.
A samambaia.
–Boa tarde. Tudo bem? –Opa! Boa Tarde.
Tem horário pra banho?
Sim. Inclusive, a gente tá na promoção de um vermífugo novo.
Deixa eu mostrar pra você.
Acho que não precisa não. Quero só banho mesmo.
Você tosa também, por favor?
Tosa agora, mas não passa perfume de jeito nenhum.
porque ela tem alergia.
Mas coloca gravatinha e estrelinha na testa,
porque ela ama, né, filha? Ela adora.
Volto daqui a uma hora pra buscar, tá bom?
Beijo, meu amor. Fica com titio. Aproveita!
Senhora! Senhora!
Abraço!
–Tudo bem? –Tudo.