Sangue Latino, com Secos & Molhados - O ARRANJO #52 (English subtitles) (1)
Ney Matogrosso se inspirou no Teatro Kabuki Japonês para criar as máscaras de maquiagem com que ele se apresentava com o grupo Secos e Molhados
Ele diz que não se pintava pra ficar bonito, ele se pintava pra não ser mais ele, o Ney com o rosto exageradamente pintado ele virava outra pessoa
"A primeira intenção era que não soubessem quem eu era,
o resto era desaforo"
E descobriu que, não sendo mais ele, ganhava uma liberdade física absoluta, e essa liberdade era provocativa
E quanto mais o Ney sentia que provocava mais ele exagerava, tanto no gestual quanto no olhar, e isso no período mais repressivo da ditadura militar
Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo
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Sangue Latino é uma composição de João Ricardo e Paulo Mendonça, lançada no primeiro disco do grupo Secos & Molhados em 1973
A ideia do fundador do grupo, João Ricardo, era ser uma banda de rock musicando poemas, inclusive do seu pai,
o português João Apolinário, que tinha vindo para o Brasil fugindo da ditadura salazarista
O grupo já tinha uns dois anos quando chegou à formação clássica: João Ricardo e Genson Conrad nos violões e vocais e o cantor Ney Matogrosso
Apesar do visual transgressor e andrógino do Ney, ou talvez também por isso, os Secos e Molhados foram um fenômeno que a música brasileira nunca tinha visto até então
O seu primeiro disco, lançado pela gravadora Continental, saiu com uma prensagem pequena de 1500 cópias, sendo que um terço foi distribuído como divulgação
Mas em pouco tempo a gravadora já tava literalmente derretendo o estoque que ela tinha de outros discos
pra conseguir vinil, a matéria prima, pra prensar discos dos Secos e Molhados
O disco vendeu mais de um milhão de cópias, e pela primeira vez em muitos anos o disco mais vendido do ano não foi o do Rei Roberto Carlos
A capa desse LP é das mais importantes e impactantes da história da indústria fonográfica brasileira
Ela simula cabeças maquiadas e decapitadas dos integrantes do grupo servidos em uma mesa com feijões, cebolas e vinho
O primeiro sucesso nas rádios foi a primeira faixa do disco, Sangue Latino, e é esse o arranjo que eu vou analisar nesse vídeo
UM POUCO DE HISTÓRIA
No fim dos anos 1960 Ney de Souza Pereira era feliz com a liberdade que tinha: com o espírito hippie da época, vivia da venda dos artesanatos que fazia
Filho de um pai rigoroso e militar, Ney nasceu no Matogrosso do sul, na época só Matogrosso, e teve uma infância nômade, mudando de cidade com frequência
Aos 18 anos encontrou no serviço militar, na Aeronáutica, uma forma de sair de casa e depois se mudou pra Brasília, chegando pouco anos depois da inauguração da capital federal
"Quando eu fui pra Brasília, quando eu saí da aeronáutica, fui morar em Brasília, aí eu já fui trabalhando, ganhando o meu dinheiro.
Aí eu me aproximei de todas as manifestações artísticas que eu pude me aproximar, porque aí eu não tinha que dar satisfação da minha vida pra ninguém"
Depois de cinco anos em Brasília, achando que o seu ciclo na capital tinha se encerrado, colocou as suas poucas mudas de roupa numa mochila e se mudou pro Rio de Janeiro
Levava também uma encomenda que uma amiga de Brasília pedia pra ele levar na Tijuca, na casa da cantora e compositora Luhli
A casa da Luhli era um epicentro musical, como muitos saraus, ela já era profissional, e tinha um LP lançado. De cara já ficaram muito amigos
E foi a Luhli quem assistiu em São Paulo ao show de uma banda chamada Secos e Molhados, no Kurtisso Negro, um típico inferninho paulistano de 1970
O líder do grupo era um cara com cabelo comprido, tipo John Lennon, de barba, que cantava com sotaque português
e tocava violão e gaita ao mesmo tempo, como Bob Dylan: era o João Ricardo
Luhli e João ficaram amigos na mesma noite, descobriram que tinham os mesmos ídolos e que ambos eram compositores, e combinaram de se encontrar de novo
A primeira parceria dos dois, com música do João e letra da Luli foi chamada de "Fala", a princípio um rock, mas que acabou virando uma balada quando foi gravada
Eles compuseram a música juntos, e bem rápido
"Na sala do João Ricardo, ele tocando aquela música, eu peguei e escrevi. Assim!"
A segunda era um rock bem humorado que brincava com um estilo de música da terra do João, Portugal, que é o Vira, começava em rock e terminava um Vira
Essa música foi talvez o maior sucesso do grupo, até com crianças e adolescentes
A formação dos Secos e Molhados que a Luhli conheceu se desfez pouco depois, e o João convidou o vizinho violonista Gerson Conrad para remontar o grupo
Mas nenhum dos dois tinha voz suficiente pra ser o cantor principal, e a Luhli falou: eu conheço um cara no Rio, o Ney, que vai ser perfeito pro grupo de vocês
Nessa época o Ney não tinha definido o seu nome artístico, e acabou incluindo uma parte do nome composto do seu pai, Antônio Matogrosso Pereira
Segundo a biografia do ney escrita por Júlio Maria, "Matogrosso representava não um nome, mas um estado de coisas.
Era selvagem, indígena e místico, algo que poderia defini-lo e explicar a sua facilidade de abrir portas para tudo o que não parecesse ser desse mundo"
João Ricardo e Gerson Conrad foram ao Rio conhecer o Ney na casa da Luli, e o cantor mais escutou do que falou
Eles falaram da proposta do grupo e cantaram algumas músicas do repertório com o Ney, que se mostrou o cantor perfeito pro grupo e disse: eu topo
"Entre esse 'eu topo' e a vinda dele pra São Paulo (foram) exatamente 11 meses.
Aí um dia que a gente já tinha até quase que desistido ele toca a campainha de casa e fala assim: cheguei pra ficar, cadê o trabalho?"
Eles ficaram quase um ano ensaiando, diariamente, enquanto o Ney fazia peças de teatro pra sobreviver
Uma dessas peças, A Viagem, estava em cartaz no Teatro Ruth Escobar, e no mesmo prédio desse teatro a proprietária,
a própria atriz Ruth Escobar, abriu um espaço alternativo onde antes funcionava o Teatro do Meio
Era um espaço de experimentação para jovens, e ganhou o sugestivo nome de Casa de Badalação e Tédio
e lá os espetáculos começavam depois da peça em cartaz no teatro principal
Ney, que na peça A Viagem fazia o papel de um marujo do heróico português Vasco da Gama, só precisou mudar de personagem,
virar um cantor de rock, e subir as escadas pra fazer o primeiro show da nova formação dos Secos e Molhados
No pouco tempo que tinha entre a peça e o show, Ney cobriu o rosto com purpurinas coloridas bem delineadas,
vestiu uma calça de cetim branca apertada, ficou sem camisa e colocou uma grinalda de rosas na cabeça
Ele viu que ali havia mesmo um personagem, alguém sem nome, sem rosto, sem sexo e nem idade, não era mais ele
Na plateia estava o experiente jornalista e produtor Moracy do Val que ficou vidrado, ele nunca tinha visto nada igual, e se ofereceu pra ser o empresário do grupo
Eles já tinham gravado uma fita e mostrado pra diversas gravadoras sem retorno nenhum, mas o Moracy tinha uma boa entrada com a gravadora Continental
"O Moracy do Val nos viu na Casa de Badalação é Tédio e levou uma fita da gente pra Continental dizendo assim:
gravem, porque senão ele vão acontecer imediatamente em qualquer gravadora"
Os Secos e Molhados estavam muito bem ensaiados para gravar o disco, mas só as partes dos vocais e dos violões, todo o resto foi criado no estúdio de forma coletiva
O líder do grupo, João Ricardo, era um cara muito bem informado, começando no jornalismo, com muitas referências musicais e estéticas
O Ney Matogrosso, ao contrário, era uma pedra bruta e movido pela intuição: ele tinha 31 anos
e nunca tinha comprado um LP, nunca tinha ido a um show de rock, não tinha ídolos e nem grandes referências
E isso acabou virando um trunfo pra ele: aquela voz aguda, quase feminina, aquele gestual rebolativo, aquela pintura no rosto, tudo isso junto era muito diferente
A princípio o João e o Gerson não pintavam o rosto, mas quando foram fazer as fotos para a capa do disco
o fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues pediu que os outros também pintassem o rosto como Ney
Naquela época o baterista, Marcelo Frias tinha sido convidado pra ser um membro do grupo, e foi o único que reclamou na hora, mas mesmo assim se pintou e tirou a foto
Depois do disco pronto avisou que não suportaria o peso de fazer esse personagem de sexualidade dúbia, e pediu pra voltar a ser da banda de apoio
A dupla de produtores Miéle e Bôscoli era responsável pelos números musicais do Fantástico, um programa que a TV Globo tinha acabado de lançar e que era um grande sucesso
Eles tinham recebido o LP dos Secos e Molhados, ficaram encantados com a capa e sugeriram fazer um videoclipe deles para o programa, antes mesmo de ouvirem o disco
O contexto era: uma banda do underground de São Paulo, que se apresentava pra pequenas plateias e de repente apareceu na TV pra milhões de telespectadores
O que aconteceu em seguida foi possivelmente um dos últimos fenômenos musicais brasileiros espontâneos, não fabricados por uma estratégia de marketing de uma grande gravadora
As rádios começaram a tocar, eles fizeram muitos programas de TV e as vendas do disco dispararam
A consagração veio em um show no ginásio do Maracanãzinho para 20 mil pessoas, e se calculava que outras 20 mil tinham ficado do lado de fora
Foi também a primeira vez que um grupo sozinho se apresentava pra uma plateia tão grande, e o show ainda foi transmitido pela TV Globo pro país inteiro
E com a pintura no rosto o Ney mantinha a sua liberdade fora dos palcos: sem maquiagem ele podia andar tranquilamente pelas ruas da cidade sem ser abordado
1. MELODIA
João Ricardo estava na casa do amigo Paulo Mendonça, no Rio de Janeiro, e viu uma letra, um poema, e musicou, mas a letra já era de outra parceria
Nessa mesma noite Paulo Mendoça acordou no meio da madrugada e escreveu de uma vez toda a letra, quase mediunicamente
Era a letra de Sangue Latino, que o João Ricardo levou pra São Paulo e o autor só ouviu musicada quando tocou nas rádios
A melodia é quase mântrica, toda construída dentro de uma oitava, baseada em duas frases musicais
A primeira é essa
E uma variação dela
Agora a segunda frase
E repete a primeira
E segue assim, variando entre essas duas frases
2. ORQUESTRAÇÃO
A banda que gravou o primeiro LP da banda era formada basicamente pelos músicos que tocavam na peça A Viagem
e que tinham ido assistir à estreia do grupo na Casa de Badalação e Tédio
O baixista e o baterista, Willy Verdaguer e Marcelo Frias eram argentinos que tinham feito parte do grupo Beat Boys
Foi essa mesma banda de cabeludos que acompanhou Caetano Veloso no Festival da TV Record quando ele cantou Alegria, Alegria, no começo do tropicalismo
Os arranjos foram feitos coletivamente no estúdio, não havia um diretor musical, o João Ricardo era quem tinha criado a ideia do grupo, mas não era o arranjador
"Mas éramos nós que fazíamos os arranjos, o João RIcardo era compositor, aí ele aparecia com o violão, mostrava a música e nós desenvolvíamos ela. E ele também participava"