O HOMEM QUE TEM CARRO
Boa tarde.
Ué, cadê o Roberto?
Eu estou aqui, Marta.
O que você está fazendo aí, Roberto, no lugar do motorista do Uber?
Não tem motorista de Uber, esse aqui é o meu carro.
Para de palhaçada, Roberto. Ninguém tem mais carro hoje em dia.
-Eu tenho carro. -Você roubou de um Uber?
-Não, eu comprei o carro. -De um Uber?
Não, numa concessionária.
Eles deixam?
Deixam. Você vai lá com dinheiro e compra o carro.
Então você é um Uber de si mesmo? É um auto-uber?
É tipo isso, é.
Você tem que chamar seu próprio carro?
Não, não tenho que chamar.
É só eu descer, eu entro no carro e foi.
Mas se um cliente te chamar, você tem que ir, né?
Não. Marta, não tem cliente. Eu não tenho nem o aplicativo.
Eu não tenho Uber, eu não tenho 99, Easy Taxy, Cabify, não tenho nada.
Eu só entro no meu carro e vou.
E como é que você faz quando chega nos lugares,
deixa o carro no meio da rua?
Eu estaciono, né?
Eu lembro disso, que a gente tinha que procurar vaga!
Eu posso botar num estacionamento também.
Mas aí vai pagar quanto?
Uns 20 reais.
-Mais caro que um Uber, né? -É, às vezes, é.
E ele fica lá parado, é?
No estacionamento até a gente jantar?
Fica.
Desperdício, né?
Com tanta gente precisando de um Uber aí, carro parado lá...
É...
Mas, em compensação, não tem cancelamento de corrida,
não precisa de...
Desculpa te interromper, mas você não tem uma balinha, não?
Opa, opa! Boa tarde, casal!
Cinquinho pra tomar conta aí?
Não precisa, não, amigão. Obrigado, viu?
Não, não, espera aí, por que você não deixa
ele fazer uma corrida enquanto a gente janta?
-Como assim, "fazer corrida"? -Aqui pertinho, já vem.
-Não... -Melhor:
deixa ele levar o carro depois do jantar
que aí você pode beber.
-Eu levo, pô. -Ele leva.
-Levo lá, levo lá, levo lá. -Tá.
Fica à vontade lá, os dois.