Cartas
CARTA I
Para a sra. Saville, Inglaterra
São Petersburgo, 11 de dezembro de 17–
Você vai gostar de saber que nenhum desastre ocorreu durante o início do
empreendimento que você encarou com presságios tão sombrios. Cheguei
aqui ontem; e minha primeira tarefa é assegurar minha querida irmã de meu
bem-estar e da confiança crescente no sucesso da empreitada.
Já estou bem ao norte no mapa, em relação a Londres; e conforme
caminho pelas ruas de Petersburgo sinto uma fria brisa polar brincar com
minhas bochechas, o que detém meu nervosismo e me enche de prazer.
Você compreende a sensação? Essa brisa, que migrou das regiões em
direção às quais avanço, me antecipa o gosto daquele clima gelado.
Inspirados por esse vento de promessa, meus sonhos diurnos se tornam
mais ferventes e vívidos. Tento em vão ser convencido de que o polo é
apenas geleira e desolação; mas ele sempre se apresenta à minha
imaginação como a região de beleza e prazer. Lá, Margaret, o sol é sempre
visível, seu amplo disco apenas roçando o horizonte e difundindo um
esplendor perpétuo. Lá – permita-me, minha irmã, depositar certa confiança
em navegadores precedentes –, neve e geleira são banidos; e, viajando num
mar calmo, seremos levados a uma terra que ultrapassa em maravilhas e em
beleza cada região até aqui descoberta neste globo habitável. Seus traços e
características podem não ter igual, como o fenômeno dos corpos celestiais
sem dúvida é nessas solidões não descobertas. O que não esperar de uma
terra de luz eterna? Lá, descobrirei talvez o maravilhoso poder que atrai o ponteiro e empreenderei milhares de observações celestiais que requerem
apenas esta viagem para conferir eterna consistência a suas aparentes
excentricidades. Saciarei minha ardente curiosidade com a visão de uma
parte do mundo nunca antes visitada, e poderei avançar numa terra nunca
antes marcada pelo pé do homem. São essas as minhas motivações, e são
suficientes para vencer todo o medo do perigo da morte e me induzir a
iniciar essa laboriosa viagem com o prazer que uma criança sente quando
entra num barquinho com seus colegas de férias numa expedição de
descoberta pelo rio de sua cidade. Mas, supondo que todas essas conjecturas
sejam falsas, você não tem como contestar o inestimável benefício que
poderei propiciar a toda a humanidade, até a última geração, ao descobrir
uma passagem perto do polo para países que atualmente demandam tantos
meses para serem alcançados; ou ao comprovar o segredo do magnetismo
que, se de todo for possível, somente poderá ser realizado por um
empreendimento como o meu.
Essas reflexões dissiparam a agitação com a qual comecei minha carta, e
sinto meu coração iluminado com um entusiasmo que me eleva aos céus;
pois nada contribui tanto para tranquilizar a mente como um propósito
firme – um ponto no qual a alma pode fixar seu olhar intelectual. Esta
expedição foi o sonho favorito de meus primeiros anos. Li com ardor os
relatos de várias viagens cujo objetivo era chegar ao oceano Pacífico Norte
pelos mares que cercam o polo. Você deve se lembrar de que a biblioteca de
nosso bom tio Thomas consistia inteiramente de histórias de expedições.
Minha educação foi negligenciada, mas ainda assim eu era apaixonado por
leitura. Esses volumes foram meu estudo dia e noite, e minha familiaridade
com eles aumentou o pesar que senti, quando criança, ao saber que a
imposição de meu pai moribundo proibira meu tio de permitir que eu
embarcasse numa vida de marinhagem.
Essas visões se apagaram quando mergulhei pela primeira vez na leitura
daqueles poetas cujas exaltações hipnotizaram minha alma e a elevaram aos
céus. Também eu me tornei um poeta, e por um ano vivi num paraíso de
minha própria criação; imaginei que também poderia obter um lugar notemplo onde os nomes de Homero e Shakespeare estão consagrados. Você
conhece bem o meu fracasso e sabe o quanto essa decepção me pesou. Mas,
bem naquela época, herdei a fortuna de meu primo, e meus pensamentos se
voltaram para suas primeiras inclinações.
Seis anos se passaram desde que me decidi pela presente missão. Posso
até me lembrar do instante em que comecei a me dedicar a esse grande
empreendimento. Iniciei habituando meu corpo à adversidade. Acompanhei
os baleeiros em várias expedições ao mar do Norte; suportei,
voluntariamente, frio, fome, sede e sono; com frequência trabalhava mais
duro que os marinheiros comuns durante o dia e dedicava minhas noites ao
estudo da matemática, à teoria da medicina e aos ramos da física dos quais
uma aventura marítima poderia extrair a maior vantagem prática. Por duas
vezes, de fato me empreguei como ajudante num baleeiro da Groenlândia, e
conquistei admiração. Preciso dizer que fiquei um pouco orgulhoso quando
meu capitão me alçou a segundo-imediato na embarcação e pediu com a
maior sinceridade que eu permanecesse, de tão valiosos que ele considerava
meus serviços.
E agora, querida Margaret, será que não mereço conquistar algum grande
feito? Minha vida poderia ter sido de luxo e sem percalços; mas preferi a
glória a qualquer sedução que a riqueza tenha colocado em meu caminho.
Oh, que alguma voz encorajadora me responda afirmativamente! Minha
coragem e resolução estão firmes; mas minhas esperanças oscilam, e meu
espírito frequentemente se encontra deprimido. Estou prestes a seguir numa
longa e difícil viagem, cujas contingências vão exigir toda a minha força:
caberá a mim não apenas elevar o moral dos outros, mas às vezes sustentar
o meu próprio quando o deles vacilar.
Esta é a melhor época para viajar na Rússia. Os trenós voam
rapidamente na neve; o movimento é prazeroso e, na minha opinião, muito
mais agradável do que o de uma diligência inglesa. O frio não é excessivo,
se você estiver envolto em peles – uma vestimenta que já adotei, pois há
uma grande diferença entre caminhar no convés e permanecer sentado
imóvel por horas, sem qualquer exercício que evite que o sangue congele defato em suas veias. Não tenho ambição de perder a vida na estrada entre São
Petersburgo e Arcangel.
Devo partir para essa última cidade em duas ou três semanas; e minha
intenção é lá contratar um navio, o que pode ser feito facilmente pagando-se
o seguro para o proprietário, e tantos marinheiros quanto achar necessário
entre os que estão acostumados a caçar baleias. Não pretendo velejar antes
de junho. E quando devo retornar? Ah, querida irmã, como posso responder
a essa pergunta? Se tiver sucesso, muitos e muitos meses, talvez anos, terão
se passado antes que você e eu possamos nos encontrar. Se fracassar, você
irá me ver novamente em breve, ou nunca mais.
Adeus, minha querida e maravilhosa Margaret. Que o céu derrame
bênçãos sobre você e, Deus queira, que eu possa de novo assegurar minha
gratidão por todo o seu amor e a sua bondade.
Seu amoroso irmão,
R. Walton
CARTA II
Para a sra. Saville, Inglaterra
Arcangel, 28 de março de 17–
Como o tempo passa lento aqui, rodeado como estou por gelo e neve!
Ainda assim, um novo passo é dado em direção à minha missão. Contratei
uma embarcação e estou ocupado reunindo meus marinheiros. Aqueles que
já empreguei parecem ser homens com os quais posso contar e certamente
possuem uma coragem destemida.
Mas tenho um desejo que ainda não fui capaz de satisfazer; e sinto agora
essa ausência como o mal mais severo. Não tenho amigos, Margaret.
Quando estiver desfrutando o entusiasmo do sucesso, não haverá quem
compartilhe meu prazer; se for tomado pela decepção, ninguém vai se
esforçar para me afastar da tristeza. Devo dedicar meus pensamentos ao
papel, é verdade; mas esse é um pobre meio para a comunicação de
sentimentos. Desejo a companhia de um homem que possa se solidarizar
comigo; cujos olhos respondam aos meus. Pode me considerar romântico,
minha querida irmã, mas sinto amargamente a falta de um amigo. Não
tenho ninguém perto de mim, gentil e ainda corajoso, de posse de uma
mente elevada e capaz, cujos gostos sejam como os meus, para aprovar ou
reparar meus planos. Como tal amigo poderia corrigir os defeitos de seu
pobre irmão! Sou impetuoso demais na execução e impaciente demais nas
dificuldades. Mas ainda é um mal maior para mim ser autodidata: pelos
primeiros quatorze anos de minha vida, vivia solto por aí e nada lia além
dos livros de viagem de nosso tio Thomas. Naquela idade, tomeiconhecimento de célebres poetas de nosso próprio país; mas foi só quando
deixou de estar em meu poder extrair os benefícios mais importantes de tal
convicção que percebi a necessidade de me tornar conhecedor de mais
línguas do que a de meu país natal. Agora tenho vinte e oito anos e na
realidade sou mais iletrado do que muitos estudantes de quinze. É verdade
que tenho pensado mais, e que meus devaneios são muito mais extensos e
magníficos, porém falta a eles (como dizem os pintores) perspectiva, e
preciso fortemente de um amigo que tenha bom senso o suficiente para não
me desprezar como romântico, e afeição o bastante para que eu me esforce
por organizar minhas ideias.
Bem, essas são queixas inúteis; certamente não vou encontrar amigo
algum no vasto oceano, nem mesmo aqui em Arcangel, entre mercadores e
marinheiros. Ainda assim, mesmo nesses peitos rudes pulsam sentimentos
não relacionados ao dejeto da natureza humana. Meu tenente, por exemplo,
é um homem de maravilhosa coragem e iniciativa; deseja loucamente a
glória, ou melhor, para frasear com mais precisão, o avanço em sua
profissão. É um inglês e, entre preconceitos nacionais e profissionais não
amaciados pela cultura, retém alguns dos mais nobres dons da humanidade.
Eu o conheci a bordo de uma embarcação baleeira; ao descobrir que estava
desempregado nesta cidade, contratei-o facilmente para ajudar em minha
missão.
O mestre é uma pessoa de excelente disposição, e é notável no navio
pela gentileza e a disciplina tranquila. Essa circunstância, acrescida de sua
bem conhecida integridade e coragem destemida, me deixou muito desejoso
de contratá-lo. Uma juventude vivida em solidão, meus melhores anos
passados sob sua tutela gentil e feminina, minha irmã, refinaram tanto as
fundações de minha personalidade que não consigo superar uma aversão
intensa à costumeira brutalidade exercida a bordo de um navio: nunca
acreditei que ela fosse necessária, e quando escuto sobre um marinheiro
igualmente reconhecido por sua bondade no coração e o respeito e a
obediência prestados a ele por sua tripulação, sinto-me peculiarmente
afortunado por poder contratar seus serviços. Ouvi falar dele pela primeiravez de uma maneira bem romântica, por uma senhora que lhe deve a
felicidade de sua vida. Esta é brevemente sua história. Há alguns anos, ele
amou uma jovem russa de fortuna modesta e, tendo reunido uma soma
considerável em dotes, o pai da menina consentiu com o casamento. Ele viu
a amada uma vez antes da fatídica cerimônia, mas ela estava banhada em
lágrimas e, jogando-se aos pés dele, implorou-lhe que a poupasse,
confessando amar outro, mas que este era pobre e seu pai nunca consentiria
com a união. Meu generoso amigo confortou a suplicante e, ao ser
informado do nome de seu amante, instantaneamente abdicou de sua
concorrência. Já havia comprado uma fazenda com seu dinheiro, na qual
planejara passar o resto da vida; mas entregou-a inteira a seu rival, junto
com o que sobrava de seus dotes, para que comprasse gado; então ele
próprio solicitou ao pai da jovem que consentisse com o casamento dela
com o amado. Mas o velho recusou decididamente, achando-se preso por
uma questão de honra ao meu amigo, que, quando notou que o pai estava
irredutível, abandonou seu país sem voltar até ouvir que sua antiga amada
se casara de acordo com suas inclinações. “Que sujeito nobre!”, você vai
exclamar. Ele é, sim; mas é totalmente inculto: é silencioso como um turco,
e um tipo de descuido ignorante o assola, o que, embora torne sua conduta
ainda mais espantosa, afasta-o do interesse e da simpatia que, caso
contrário, ele provocaria.
Mas não pense que, porque reclamo um pouco ou porque concebo um
consolo que jamais alcançarei para minha labuta, estou vacilando em
minhas resoluções. Estas estão tão firmes quanto o destino, e minha viagem
agora só se atrasa até que o clima permita o embarque. O inverno tem sido
terrivelmente severo, mas a primavera promete, e espera-se que seja uma
estação notavelmente precoce; então talvez eu possa navegar antes do que
esperava. Não devo fazer nada impulsivamente: você me conhece o
suficiente para confiar em minha prudência e consideração sempre que a
segurança de terceiros está entregue aos meus cuidados.
Não posso descrever a você minhas emoções com a perspectiva próxima
de minha empreitada. É impossível transmitir essa sensação trêmula,metade prazer e metade temor, com a qual estou me preparando para partir.
Vou para regiões inexploradas, para a “terra de neblina e neve”, mas não
matarei um albatroz que seja, portanto não se alarme por minha segurança
ou se eu voltar a você tão gasto e lastimável quanto o “Velho Marinheiro”.
Você vai sorrir com minha alusão; mas vou revelar um segredo.
Frequentemente atribuo meu compromisso, meu apaixonado entusiasmo
pelos perigosos mistérios do oceano, à produção dos mais imaginativos
poetas modernos. Há algo operando em minha alma que eu não entendo.
Estou quase diligente, minucioso, um operário a se dedicar com
perseverança e labuta; mas, além disso, em todos os meus projetos, há um
amor pelo maravilhoso, uma crença no maravilhoso que me apressa para
longe dos caminhos comuns dos homens, até o mar selvagem e regiões não
visitadas que estou prestes a explorar.
Mas voltemos a considerações mais estimadas. Será que irei encontrá-la
novamente após ter atravessado imensos mares e voltado pelo cabo mais
meridional da África ou da América? Não ouso esperar tal sucesso, ainda
assim não posso suportar olhar para o outro lado da moeda. Continue por
ora a escrever para mim a cada oportunidade: vou receber suas cartas
quando mais precisar delas para sustentar meu ânimo. Eu a amo com
ternura. Lembre-se de mim com afeto, se nunca mais souber de mim
novamente.
Seu amoroso irmão,
Robert Walton
CARTA III
Para a sra. Saville, Inglaterra
7 de julho de 17–
Minha querida irmã,
Escrevo algumas linhas apressadas para dizer que estou em segurança – e
bem avançado em minha viagem. Esta carta chegará à Inglaterra por um
mercador que agora volta para casa, saindo de Arcangel; mais afortunado
do que eu, que não poderei ver minha terra natal talvez por muitos anos.
Porém estou num humor positivo: meus homens são fortes e aparentemente
de propósitos firmes, nem as camadas flutuantes de gelo que continuamente
passam por nós, indicando os perigos da região em direção à qual estamos
avançando, parecem desmotivá-los. Já chegamos a uma latitude bem
elevada; mas é alto verão, e, apesar de não ser tão quente quanto na
Inglaterra, as ventanias do sul, que nos levam velozes em direção a essas
praias que tão ardentemente desejo atingir, trazem um sopro de calor
renovador que eu não esperava.
Nenhum incidente até então recaiu sobre nós que pudesse impressionar
numa carta. Uma ou duas ventanias rigorosas e um princípio de vazamento
são acidentes que navegantes experientes mal se lembram de registrar; e
devo ficar bem satisfeito se nada de pior acontecer durante nossa viagem.
Adieu, minha querida Margaret. Assegure-se de que, para meu próprio
bem, assim como o seu, não vou procurar impulsivamente o perigo. Serei
frio, perseverante e prudente.Mas o sucesso deve coroar meus esforços. Como não? Assim, longe eu
fui, traçando um rastro seguro sobre mares não delineados: as próprias
estrelas em si como testemunhas e provas de meu triunfo. Por que não
proceder sobre o indomado ainda que obediente elemento? O que pode
deter o coração determinado e a vontade decidida do homem?
Meu coração inchado involuntariamente assim se derrama. Mas devo
encerrar. Que o céu abençoe minha amada irmã!
R.W.
CARTA IV
Para a sra. Saville, Inglaterra
5 de agosto de 17–
Um acidente tão estranho aconteceu conosco que não posso me abster de
registrá-lo, apesar de ser muito provável que você me veja antes que esses
papéis tenham chegado às suas mãos.
Segunda-feira passada (31 de julho) estávamos cercados por gelo, que
bloqueava o navio por todos os lados, deixando pouco mais que o espaço de
mar no qual ele flutuava. Nossa situação era um tanto perigosa,
especialmente por estarmos envolvidos por uma neblina muito densa.
Assim, ancoramos, esperando que alguma mudança acontecesse na
atmosfera e no clima.
Por volta das duas horas, a neblina se dissipou e contemplamos,
estendidas em todas as direções, vastas e irregulares planícies de gelo que
pareciam não ter fim. Alguns dos meus camaradas resmungaram, e minha
mente começou a ficar alerta com pensamentos ansiosos, quando uma
estranha visão de repente atraiu nossa atenção e nos afastou da preocupação
com nossa situação. Notamos uma charrete baixa fixada num trenó e
puxada por cães, passando em direção ao norte, a pouco menos de um
quilômetro de distância; sentado no trenó, guiando os cães, vinha um ser
que tinha a forma de um homem, mas aparentemente de estatura gigante.
Observamos o rápido progresso do viajante com nossos telescópios até ele
desaparecer entre as longínquas irregularidades do gelo.Essa visão nos provocou um espanto absoluto. Estávamos, como
acreditávamos, a muitas centenas de quilômetros de qualquer terra; mas
essa aparição parecia denotar que, na realidade, não havíamos chegado tão
longe quanto supúnhamos. Trancados porém pelo gelo, era impossível
seguir seu rastro, o qual observamos com a maior atenção.
Cerca de duas horas após a ocorrência, ouvimos o mar estalando; e antes
de chegar a noite o gelo partiu-se e liberou nosso navio. No entanto,
ficamos ancorados até a manhã, temendo encontrar no escuro aquelas
grandes massas soltas que flutuam nas águas depois que o gelo se quebra.
Aproveitei o tempo para descansar algumas horas.
Porém, de manhã, logo que clareou, fui ao convés e encontrei todos os
marinheiros ocupados de um lado da embarcação, aparentemente
conversando com alguém no mar. Era de fato um trenó, como o que
havíamos visto antes, que havia vagado na nossa direção durante a noite
num grande fragmento de gelo. Apenas um dos cães permanecia vivo; mas
havia também um ser humano, que os marinheiros persuadiam a entrar na
embarcação. Ele não parecia, como o outro viajante, um habitante selvagem
de alguma ilha não descoberta, mas um europeu. Quando cheguei ao
convés, o mestre disse:
– Este é o nosso capitão, e ele não vai permitir que você pereça em mar
aberto.
Ao me notar, o estranho se dirigiu a mim em inglês, mas com um
sotaque estrangeiro.
– Antes de eu entrar em sua embarcação – disse –, você teria a bondade
de me informar para onde se dirigem?
Você pode imaginar meu espanto ao ouvir tal pergunta de um homem à
beira da morte, para quem eu deveria supor que minha embarcação teria
sido um recurso que ele não trocaria pelo mais precioso tesouro que a terra
pudesse oferecer. Porém respondi que estávamos numa viagem de
descobrimento em direção ao polo norte.Ao ouvir isso, ele pareceu satisfeito e consentiu em vir a bordo. Bom
Deus! Margaret, se você tivesse visto o homem que assim capitulou por sua
segurança, sua surpresa teria sido irrefreável. Seus membros estavam quase
congelados e seu corpo, horrendamente emaciado por fadiga e sofrimento.
Nunca vi um homem numa condição tão arrasada. Tentamos carregá-lo para
a cabine; mas logo que abandonou o ar fresco ele desmaiou.
Consequentemente, nós o trouxemos de volta para o convés e o reanimamos
esfregando-o com conhaque e forçando-o a engolir uma pequena
quantidade. Logo que mostrou sinais de vida, nós o envolvemos em
cobertores e o colocamos perto da chaminé do forno da cozinha.
Lentamente ele se recuperou e tomou um pouco de sopa, que o restaurou
maravilhosamente.
Dois dias se passaram dessa maneira, até ele ser capaz de falar; e
frequentemente temi que seus sofrimentos o tivessem privado da razão.
Quando, em certa medida, ele se recuperou, eu o removi para minha própria
cabine e cuidei dele tanto quanto meu dever permitia. Nunca vi criatura
mais interessante; seus olhos têm geralmente uma expressão de selvageria,
e até loucura, mas há momentos em que, se alguém tem um ato de bondade
para com ele ou lhe oferece o serviço mais insignificante, toda a sua
fisionomia se ilumina com um raio de benevolência e doçura que nunca vi
igual. Mas em geral é melancólico e desesperado; e às vezes range os
dentes, como se impaciente pelo peso dos infortúnios que o oprimem.
Quando meu hóspede se recuperou um pouco, tive grande dificuldade
em manter os homens afastados, pois queriam fazer milhares de perguntas a
ele; mas não permiti que fosse atormentado pela vã curiosidade deles, num
estado de corpo e mente cuja recuperação evidentemente dependia de total
repouso. Uma vez, porém, o tenente perguntou por que ele havia vindo de
tão longe no gelo, num veículo tão estranho.
Seu semblante instantaneamente assumiu um aspecto de profundo pesar,
e ele respondeu:
– Para buscar quem fugiu de mim.
– E o homem que você busca viaja da mesma forma?– Sim.
– Então creio que o vimos, pois no dia anterior ao que pegamos você,
nós vimos alguns cães puxando um trenó com um homem, cruzando o gelo.
Isso atiçou a atenção do estranho, e ele fez uma infinidade de perguntas
em relação à rota que o demônio, como ele o chamou, havia seguido. Logo
após, quando estava sozinho comigo, ele disse:
– Sem dúvida aticei sua curiosidade, assim como a dessa boa gente; mas
vocês têm consideração demais para me interrogar.
– Certamente; seria de fato muito impertinente e desumano de minha
parte incomodá-lo com qualquer questionamento.
– E, ainda assim, você me resgatou de uma estranha e perigosa situação;
restaurou-me a vida por bondade.
Logo após isso, ele perguntou se eu achava que o rompimento do gelo
havia destruído o outro trenó. Respondi que não poderia saber com nenhum
grau de certeza, pois o gelo não havia se quebrado até perto da meia-noite, e
o viajante poderia ter chegado a um lugar seguro antes dessa hora; eu não
tinha como saber.
A partir de então, um novo espírito de vida animou a constituição
decaída do estranho. Ele manifestou grande avidez por estar no convés, de
vigília pelo trenó que havia aparecido anteriormente; mas eu o persuadi a
permanecer na cabine, porque está fraco demais para suportar a crueza da
atmosfera. Prometi que alguém vigiaria por ele e daria aviso instantâneo se
qualquer novo objeto aparecesse à vista.
Este é meu registro sobre o que se refere a essa curiosa ocorrência até o
momento presente. O estranho melhorou gradualmente de saúde, mas está
muito silencioso, e parece desconfortável quando alguém além de mim
entra na cabine. Ainda assim, seus modos são tão conciliadores e gentis que
os marinheiros estão todos interessados nele, apesar da pouca comunicação.
De minha parte, comecei a amá-lo como a um irmão; e sua dor constante e
profunda me enche de solidariedade e compaixão. Deve ter sido uma nobrecriatura em seus melhores dias, sendo agora, em frangalhos, tão atraente e
amável.
Eu disse numa das minhas cartas, minha querida Margaret, que não
poderia encontrar amigos no vasto oceano; ainda assim encontrei um
homem que, antes de ter seu espírito partido pela tristeza, eu teria ficado
feliz de ter como um irmão de coração.
Devo continuar meu diário em relação ao estranho a intervalos, se não
tiver novos incidentes para registrar.
13 de agosto de 17–
Meu afeto pelo hóspede aumenta a cada dia. Ele incita ao mesmo tempo
minha admiração e minha pena num nível espantoso. Como posso ver tal
nobre criatura destruída pela miséria sem sentir a mais pungente dor? Ele é
tão gentil, ainda assim tão sábio; sua mente é tão culta e, quando fala,
apesar de suas palavras serem escolhidas com a mais selecionada arte, elas
fluem com rapidez e uma eloquência sem paralelo.
Ele está agora bem recuperado da enfermidade e está sempre no convés,
aparentemente vigiando o trenó que precedeu o seu próprio. Ainda assim,
apesar de infeliz, não está tão ocupado com a própria tristeza, interessando-
se verdadeiramente pelos projetos dos outros. Com frequência conversa
comigo sobre o meu, que lhe comuniquei sem disfarces. Acompanhou com
atenção todos os meus argumentos a favor do meu eventual sucesso, e cada
mínimo detalhe das medidas que tomei para assegurá-lo. Fui facilmente
levado, pela solidariedade que ele evidenciou, a usar a linguagem de meu
coração, a expressar o ardor flamejante de minha alma e a proclamar, com
todo o fervor que me aqueceu, com qual felicidade eu sacrificaria minha
fortuna, minha existência, cada esperança minha para o avanço de meu
empreendimento. A vida ou a morte de um homem é nada além de um
pequeno preço para se alcançar o conhecimento que busco, para o domínio
que devo adquirir e transmitir sobre os inimigos elementares de nossa raça.Conforme eu falava, uma sombra escura se espalhava sobre o semblante do
meu ouvinte. De início notei que ele tentou suprimir a emoção; colocou as
mãos sobre os olhos, e minha voz vacilou e falhou, enquanto eu
contemplava lágrimas escorrerem velozes por entre seus dedos; um
grunhido irrompeu de seu peito arfante. Pausei; e depois de muito tempo ele
falou, com um forte sotaque:
– Homem infeliz! Você compartilha minha loucura? Também bebeu do
trago tóxico? Escute: deixe-me revelar minha história, e você afastará o
copo de seus lábios!
Tais palavras, como pode imaginar, excitaram estranhamente minha
curiosidade; mas o paroxismo da dor que se apossou do estranho superou
seus poderes enfraquecidos, e foram necessárias muitas horas de repouso e
conversa tranquila para restaurar sua compostura.
Depois de aplacar a violência de seus sentimentos, ele pareceu desprezar
a si mesmo por ser um escravo da paixão, e, dominando a escura tirania do
desespero, conduziu-me novamente a meus próprios assuntos. Perguntou a
história de meus primeiros anos. O relato foi rápido, mas despertou várias
linhas de reflexão. Falei do meu desejo de encontrar um amigo, de minha
sede por uma solidariedade com uma mente semelhante mais íntima do que
jamais me fora concedido, e expressei minha convicção de que um homem
poderia se vangloriar de pouca felicidade se não goza dessa bênção.
– Concordo com você – respondeu o estranho –, somos criaturas não
moldadas, apenas semiprontas, se alguém mais sábio, melhor e mais amado
do que nós mesmos, tal como um amigo teria de ser, não vem prestar seu
auxílio e aperfeiçoar nossa natureza fraca e falha. Outrora tive um amigo, a
mais notável das criaturas humanas, e desse modo posso julgar o que é a
amizade. Você tem esperança e o mundo diante de si, e não tem motivo para
desespero. Mas eu… eu perdi tudo e não posso começar a vida novamente.
Ao dizer isso, seu semblante tomou uma expressão de dor calma e
resignada que tocou meu coração. Mas ele ficou em silêncio e, em seguida,
retirou-se para a sua cabine.Mesmo com o espírito abatido como está, ninguém pode sentir mais
profundamente do que ele as belezas da natureza. O céu estrelado, o mar e
cada visão proporcionada por estas maravilhosas regiões parecem ainda ter
o poder de elevar sua alma da terra. Tal homem tem uma existência dupla:
pode sofrer e ser sobrepujado por decepções, ainda assim, quando se
recolhe em si mesmo, é como um espírito celestial com um halo que
nenhuma dor ou tolice adentra.
Será que você vai sorrir diante do entusiasmo que expresso em relação a
esse divino errante? Não sorriria, se o visse. Você foi instruída e refinada
por livros e pelo afastamento do mundo e, portanto, é de certa forma
exigente; mas isso só a torna mais propensa a apreciar os extraordinários
méritos desse homem maravilhoso. Às vezes, empenho-me em descobrir
que qualidade ele possui que o eleva imensuravelmente acima de qualquer
outra pessoa que já conheci. Acredito ser um discernimento intuitivo; um
ligeiro porém nunca vacilante poder de julgamento; uma capacidade de
penetrar nas causas das coisas, inigualada pela clareza e precisão;
acrescente a isso a facilidade de expressão e uma voz cujas entonações
variadas são música para suavizar a alma.
19 de agosto de 17–
Ontem o estranho me disse:
– Você pode facilmente notar, capitão Walton, que sofri infortúnios sem
paralelo. Havia decidido em certa ocasião que a lembrança desses males
deveria morrer comigo, mas você conseguiu alterar minha determinação.
Você busca conhecimento e sabedoria, como outrora eu fiz; e espero
ardentemente que a realização de seus desejos não seja a serpente a mordê-
lo, como aconteceu comigo. Não sei se o relato de meus desastres lhe será
útil; ainda assim, quando reflito que está seguindo o mesmo curso,
expondo-se aos mesmos perigos que me tornaram o que sou, imagino que
você possa extrair de meu relato uma moral apropriada, que poderá orientá-
lo se tiver sucesso em sua empreitada e consolá-lo em caso de fracasso.Prepare-se para ouvir episódios que geralmente são considerados
maravilhosos. Caso estivéssemos em um cenário natural mais manso, eu
temeria sua descrença, talvez seu escárnio; mas, nestas selvagens e
misteriosas regiões, muitas coisas que provocariam o riso de quem se alheia
ao poder tão variado da natureza parecerão possíveis; também não posso
duvidar que minha história transmita evidência intrínseca da verdade dos
fatos que a compõem.
Você pode facilmente imaginar que fiquei muito grato pela oferta de
comunicação, ainda assim não pude suportar que ele renovasse sua dor com
um recital de seus infortúnios. Senti a maior ânsia em ouvir a narrativa
prometida, em parte por curiosidade, em parte por um forte desejo de
atenuar o destino dele, caso isso estivesse em meu poder. Expressei esses
sentimentos em minha resposta.
– Agradeço a solidariedade – respondeu ele –, mas é inútil; meu destino
está quase cumprido. Espero apenas por um acontecimento, então poderei
repousar em paz. Entendo seu sentimento – continuou, percebendo que eu
desejava interrompê-lo –, mas está enganado, meu amigo, se assim permitir
que o chame; nada pode alterar meu destino. Escute minha história e vai
perceber quão irrevogavelmente ele está determinado.
Ele então me disse que iniciaria sua narrativa no dia seguinte, quando eu
deveria estar de folga. A promessa extraiu de mim o mais caloroso dos
agradecimentos. Decidi que, todas as noites, quando não estiver
imperativamente ocupado por meus deveres, vou registrar o que ele tiver
relatado durante o dia em suas próprias palavras, com o máximo de
fidelidade possível. Se eu estiver ocupado, irei ao menos fazer anotações.
Esse manuscrito sem dúvida vai lhe proporcionar grande prazer; mas para
mim, que o conheço e que escuto de seus próprios lábios, com qual
interesse e solidariedade não o lerei em algum dia futuro! Mesmo agora,
quando inicio minha tarefa, a voz impostada dele ressoa em meus ouvidos;
seus olhos lustrosos habitam em mim com toda a sua melancólica doçura;
vejo sua mão delgada se erguer com entusiasmo, enquanto os traços de seu
rosto irradiam sua alma. Estranha e angustiante deve ser sua história,temerosa a tempestade que envolveu a galante embarcação em seu curso e a
destroçou – ei-la!