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Foro de Teresina - Podcast (*Generated Transcript*), #255: Ordenhando a boiada - Part 1

#255: Ordenhando a boiada - Part 1

Rádio Piauí.

Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Terezina,

o podcast de política da revista Piauí.

Só não posso e nem vou ser responsável

por um resultado positivo ou negativo.

Se for positivo, todos os louros para o líder do governo,

Zé Guimarães, que tem sido um herói bravo, lutando.

Se for negativo, a culpa é do governo de uma maneira...

Eu, Fernando de Barros e Silva, na minha casa em São Paulo,

tenho o prazer de conversar com meu amigo José Roberto de Toledo,

aqui pertinho. Opa, Toledo!

Opa, Fernando! Opa, Thaís!

Quero pedir aqui aos senadores e senadoras presentes

que, assim que esse PL chegar a essa casa, seja rejeitado.

Os povos indígenas contam com a sensatez dos senhores e senhoras.

Thaís Bilenk, também no frio paulistano. Salve, salve, Thaís!

Salve, salve, Fernando de Toledo!

Companheiro Maduro, você sabe a narrativa que se construiu contra a Venezuela,

da antidemocrafia, do autoritarismo.

Então, eu acho que cabe à Venezuela mostrar a sua narrativa.

Vamos, então, aos assuntos da semana.

Foi por um triz. A medida provisória da reestruturação dos ministérios

foi aprovada pela Câmara na noite de quarta e ratificada pelo Senado na quinta, ontem.

Prazo final de sua validade.

Se não fosse votada, a MP iria, como se diz em jargão, caducar, virar letra morta.

E o governo Lula acordaria no dia seguinte com 14 ministérios a menos,

herdando a configuração da esplanada definida por Jair Bolsonaro.

Seria a implosão do governo.

O placar na Câmara acabou sendo folgado, 337 votos a favor, 125 contra e uma abstenção.

Mas esse número não se traduz em força política, pelo contrário.

No final da tarde de quarta, o presidente da Câmara, Arthur Lira,

usou uma coletiva de imprensa improvisada para desancar a articulação política de Lula.

Diz que havia insatisfação generalizada entre os parlamentares,

acusou o governo de inanição e completou dizendo que estava faltando pragmatismo,

consideração e atendimento por parte do Executivo.

Isso a despeito da liberação recorde de emendas parlamentares,

no valor de R$ 1,7 bilhão, na véspera da votação.

Horas depois de ter emparedado Lula, Lira disse que iria ajudar e o milagre se fez.

Algumas perguntas são necessárias.

O que explica a mudança de comportamento dos partidos sobre a influência de Lira?

Como deve ser a relação entre Lula e o Congresso daqui em diante?

O que deverá acontecer com os ministros da articulação política?

Depois do revés e da quase catumbe, o que se deve esperar do governo Lula?

No segundo bloco, a gente vai falar de mais retrocesso em questões fundamentais.

A mesma Câmara que emparedou Lula, aprovou na terça-feira um marco temporal

para a demarcação de terras indígenas.

Foram 283 votos favoráveis, 155 contra e mais uma abstenção.

O novo marco temporal estipula que a demarcação das terras só pode ocorrer

se houver comprovação de que os povos indígenas estavam sobre a área requerida

na data da promulgação da Constituição de 88.

Dali em diante, não há demarcação, é a lei da selva, lei que abre caminho

para os interesses predatórios de ruralistas, grileiros e quitais.

O projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e pode afetar mais de 300 pedidos

de demarcação e ter impacto sobre cerca de 200 mil indígenas.

Para a ministra dos povos indígenas, Sonia Guajajara,

o marco temporal representa um genocídio legislado.

A gente vai falar deste e de outros retrocessos na área ambiental,

onde a pauta progressista está perdendo de lavada.

Por fim, no terceiro bloco, a gente trata da desastrada fala de Lula

sobre o regime de Nicolás Maduro na Venezuela.

Essa semana, durante a cúpula de líderes da América do Sul no Brasil,

o presidente brasileiro atribuiu a uma narrativa mundial a constatação

de que na Venezuela não há democracia.

O sofisma do líder petista foi amplamente criticado.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, explicou a Lula que a violação

aos direitos humanos, perseguição a adversários políticos e a jornalistas,

nada disso é uma construção narrativa, mas uma realidade.

Eu pergunto, por que Lula insiste neste papel mentiroso?

Por que, sendo um democrata, insiste em legitimar regimes francamente autoritários?

É isso? Vem com a gente.

Transcrição e Legendas Pedro Rodrigues

Transcrição e Legendas Pedro Rodrigues

O ambiente foi ganhando contornos dramáticos porque realmente era algo inédito, né?

Uma ameaça de implosão da organização da estrutura do governo federal.

E no fim, como você mencionou, a Câmara aprovou com um placar favorável,

um placar bom para o governo.

E a negociação que levou a esse placar foi uma negociação clássica,

que todos os governos fizeram desde a redemocratização,

que é ceder espaço no governo, ministério e emendas parlamentares em troca de votos.

Dinheiro e cargo.

Dinheiro e cargo.

Bom, o governo Lula sinalizou para os partidos do Centrão, em particular,

Republicanos e PP do Lira, progressistas,

que tende, que está disposto a contemplá-los na esplanada dos ministérios,

e sinalizou a União Brasil, que já tem três ministérios,

mas cuja bancada na Câmara não se sente representada,

também sinalizou uma mudança nos nomes para atender aos interesses dos deputados deste partido.

As definições de pasta, o que vai acontecer, quem vai, como vai, de que jeito vai, quando vai,

tudo está em negociação ainda,

mas o sinal verde foi dado durante a tarde de quarta-feira,

horas antes da votação à noite na Câmara,

numa visita que o Elmar Nascimento pediu e o Lula cedeu no Palácio do Planalto,

o Elmar Nascimento, que é, além de braço direito do Lula, líder da bancada do União Brasil,

do Lira, em si pediu para ser atendido pelo Lula, pessoalmente não conseguiu,

eles se falaram por telefone de manhã, a tensão foi aumentando,

e no fim, quando o Elmar Nascimento foi ao Palácio do Planalto,

ele percorreu o cipoal de reclamações, de que as emendas estão travadas,

e os cargos não são liberados, etc.

Mas ao mesmo tempo, fez o papel de bom policial e falou que era contra essa tensão,

e que ia trabalhar pela aprovação da medida provisória da esplanada,

e o governo sinalizou que vai atender aos reclames e às demandas do Central.

O que ficou claro aí?

Ficou claro que o Lira, isso é a leitura do governo,

de uma pessoa do governo que eu ouvi na quarta-feira,

depois de todo desfecho, desse suspense que foi ontem.

O Lira tentou encurralar o Lula, o Lula dobrou a aposta,

e o blefe do Lira acabou ficando exposto.

O que, para o governo, tem dois lados.

O copo meio cheio é que sim, o Lira acabou exposto.

O copo meio vazio é que o nível de estresse para uma negociação

que é relativamente simples e relativamente corriqueira,

prova a fragilidade do governo no Congresso,

e que não foi resolvida na noite de quarta-feira.

Essa negociação para os republicanos eventualmente fazerem parte do governo

com o Ministério, que não é de ontem também, diga-se de passagem,

já vem de boas semanas em que isso está sendo negociado.

É uma negociação conjunta para a sucessão do Lira ser azeitada,

ser negociada com o Palácio do Planalto envolvido,

e o nome que foi ventilado, vem sendo ventilado,

é o do Marcos Pereira, que é presidente do Republicanas

e deputado federal, e pleiteia a presidência da Câmara.

Então, todo um pacote que visa também deixar o governo Lula

nos dois últimos anos do mandato menos refém,

um pouco mais no controle da pauta da Câmara

do que vem estando, pelo menos, nos seis primeiros meses de governo.

Para além dessa questão da sucessão, o que é que centram o orçamento?

Eles perderam o orçamento secreto quando o Supremo derrubou,

teve uma negociação para deixar as emendas vinculadas ao Ministério,

mas a coisa está emperrada.

Se o Lira rompesse de fato com o governo,

ele perderia ainda mais acesso ao orçamento,

o que para ele seria ruim, para o governo Lula seria ruim também,

seria ruim para todos, na verdade.

O Lira jogou duro, mas tem um aspecto do poder

que é aquele aspecto esquisito, que não importa só a caneta com tinta

e a chave do cofre para distribuir emenda.

A pessoa que tem poder quer prestígio, ela quer ser bajulada pelo presidente,

ela quer ser convidada para churrasco sexta-feira à noite no Palácio da Alvorada.

O Lula fez o churrasco, não convidou o Lira,

convidou ministros dos Supremos, líderes do governo.

Enfim, tem esse aspecto de nutrir também a vaidade e a sensação de prestígio da pessoa,

no caso do Arthur Lira, que passou a quarta-feira dizendo para interlocutores

que não quer mais tratar com ministros, ele quer tratar diretamente com o Lula

e que o Lula, o presidente da República, tem que conversar com ele sempre,

não apenas quando interessa.

Agora o Lula pode convidar o Lira para comer aquele churrasco

do cara lá que fez para a seleção brasileira com ouro, né, Zé?

Que faz picanha com ouro.

E a foto pode ser aquela, o Lula pondo assim uma picanha com ouro na boca do Lira.

Estou pensando nessa imagem agora.

Não deu muito certo na Copa, acho que não vai dar muito certo de novo agora.

O que a gente assistiu nessas últimas semanas, e ontem foi o desfecho dramático,

foi o que os americanos chamam de chicken game,

que mal traduzindo talvez fosse quem pisca primeiro aqui no Brasil, né?

Curiosamente aconteceu simultaneamente nos Estados Unidos e no Brasil.

Nos Estados Unidos o governo do Biden, democrata,

estava negociando com a maioria republicana na Câmara, ou seja, oposição,

exatamente como aqui, o teto de gastos deles lá, né?

E conseguiu na um décima hora um acordo, porque era um blefe dos republicanos

que o Biden pagou para ver e na última hora chegaram a um acordo

e o governo não entrou em defor, faliu para exagerar, vou usar uma hipérbole aqui.

E aqui no Brasil aconteceu exatamente a mesma coisa,

porque obviamente Cuartolira não estava em desacordo com a criação de mais cargos e ministérios

que eles vão querer ocupar, né?

É como se os fisiológicos falassem, não, não, não, não, peraí, não, é ministério demais,

não vamos criar tanto cargo assim, pô, não estou afim de cargo, é ridículo.

Do ponto de vista do conteúdo, da discussão, é ridículo.

E eles estavam se fazendo de conta que não queriam.

Ora, exageraram um pouco no cinismo e foram até o limite, né?

O limite do limite do limite, dizendo, ah, não vou aprovar, não vou colocar lá em votação,

isso daí já tinha sido acordado, é uma injustiça que estão fazendo com o meu apadrinhado,

que era o relator do caso, não sei o que lá, que é de Alagoas, que é da família Bulhões,

já falamos dele aqui.

Bom, era tudo blefe, ou era quase tudo blefe, né?

E na última hora votaram, basta ver a votação, estourou de voto.

Todos os partidos fisiológicos votaram, com exceção do PL, que é o fisiológico do outro lado, né?

Votaram a favor do MP.

E isso daí, vamos olhar a questão das emendas.

Ah, eles conseguiram liberar mais emendas, sim, conseguiram liberar mais emendas.

Só que, nessa mesma época do ano, em 2022, na gestão Bolsonaro,

o governo tinha liberado o dobro de emendas, mais de 12 bilhões de reais,

até o final de maio.

Então, beleza, precisou liberar, e vai ter que continuar liberando, e vai liberar cada vez mais.

Mas, comparativo ao Bolsonaro, foi metade, entendeu?

O segundo aspecto que eu acho importante.

Isso vai acabar aqui? Não.

Isso tem consequências graves, porque enquanto você está discutindo coisas que não merecem ser discutidas,

porque não tem ninguém em desacordo, como essa questão do quais são e quantos são os ministérios,

você vai passando a boiada em coisas que são fundamentais,

como o marco temporal, como a destruição da Mata Atlântica, e por aí vai, entendeu?

Zé, mas aí tem o seguinte, eu concordo com você, você está falando uma distinção entre forma e conteúdo,

mas não esquecer que o que foi aprovado foi mexido pelo Congresso, pelo Esnaldinho.

Não, mas é exatamente isso.

Você ficar discutindo o número de ministérios, como se isso fosse uma discussão,

mas aí você não discute o desossamento do Ministério do Meio Ambiente

e a realocação de órgãos que estavam com a Marina Silva para outros ministros,

embora sejam ministros do mesmo governo e até da mesma banda ideológica.

É uma estratégia, é um jeito de fazer a coisa.

Você olha para a minha mão esquerda enquanto com a direita eu estou roubando a sua carteira.

Mas não é só isso, acho que tem uma coisa de fundo que precisa ser olhada também,

que é o seguinte, desde 2019, posso argumentar que talvez desde 2013,

a participação do Congresso na tomada de decisões importantes vem aumentando.

E em 2019 você tem um marco importante, que é a implementação das emendas impositivas,

que o governo não tem mais o poder de não gastar aquele dinheiro,

ele só tem o poder de controlar o fluxo e a velocidade do gasto.

E isso mudou a dinâmica entre a presidência da República e o Congresso.

Conversei com vários cientistas políticos essa semana, eu tentando emplacar,

vamos chamar de semi-presidencialismo, e eles falaram que não dá,

ainda não dá para chamar de semi-presidencialismo ou de semi-parlamentarismo,

porque isso está definido nos cânones da ciência política e os critérios não estão dados.

No máximo, dá para a gente dizer que é um presidencialismo de pé quebrado,

porque ele tem muito mais dificuldades nessa negociação com o Congresso do que tinha antes.

Agora, ainda é o sistema presidencialista, basta você ver nessa quinta-feira as capas dos sites e dos jornais.

Tem uma reportagem em cima dizendo lira, cobra caro, lira, chantageia, lira não sei o que lá,

e imediatamente embaixo uma outra chamada dizendo que a Polícia Federal faz operação em reduto eleitoral de lira.

Quer dizer, não é que o governo está sem dentes, o governo tem também mecanismos para fazer pressão contra o presidente da Câmara.

Não acho que nenhum dos dois esteja caminhando para esticar a corda até o ponto dela arrebentar,

era tudo blefes e contrablefes.

Mas a consequência final é que o custo de governar aumenta

e as concessões que o governo tem que fazer do ponto de vista conteudístico são muito altas.

E quem está pagando o preço agora é o meio ambiente e os povos indígenas, mas não vai parar por aí, é claro.

Concordo com a Thais, eu acho que vai ter uma reforma ministerial,

vai ter mais espaço para esses partidos fisiológicos dentro do governo e eventualmente até dentro do Palácio,

porque o Arthur Lira não quer mais ficar bebendo nas tetas do governo, ele quer ordenhar a vaca, entendeu?

Que foi o que ele teve no governo Bolsonaro com o Ciro Nogueira na Casa Civil, é isso.

Ele perdeu o poder em relação ao ano passado e está brigando pelo mesmo espaço que ele já teve.

Obrigado por explicar em uma frase o que eu estou tentando falar sem sucesso há 10 minutos.

Mas é exatamente isso, porque basta ver o volume, basta ver o volume.

Até o final do ano passado ele tinha conseguido liberar o dobro de emendas do que ele conseguiu liberar até agora,

sendo que o partido dele foi preterido na liberação de emendas esse ano.

Então é disso que se trata, o governo não está acabando, mas o custo é muito alto

e a capacidade de o governo fazer o que pretendia é cadente, está diminuindo.

Não está acabando, mas as expectativas vão sendo reduzidas e a configuração do governo vai tomando outra cara.

Você vai ficando mais conservador ou mais emperrado.

Bom, o governo, na verdade, é o seguinte, o Congresso é cada vez mais conservador.

A cada eleição que passa, desde 2013, o Congresso fica mais conservador,

porque o discurso da antipolítica fortaleceu os políticos fisiológicos tipo Arthur Lira

e aumentou a porcentagem de bancadas temáticas conservadoras na Câmara,

que estão mais organizadas do que nunca.

A bancada do agro é a bancada mais organizada que tem.

Tem o think tank, que fornece subsídios para os caras legislarem, falarem, talking points,

tem lobby super organizado e estruturado, enfim, não é à toa que essas mudanças acontecem.

Você tem de um lado o cara distraindo e do outro lado os caras operando.

Muito bem, Thais Bilenk, podemos encerrar?

Não, eu tenho duas coisas para dizer, uma é rápida e bombástica.

O André Janones, deputado famoso, deputado da base Lulista,

deu uma entrevista ontem na Globo News e ele disse

eu defendo que a gente mude o nome do Centrão para Direitão.

Quer dizer, tá ouvindo pouco?

Ladrão!

É, assim, tentou fazer de um jeito disfarçado.

Mas o que eu tenho para dizer também, Fernando, é que no meio desse tiroteio

tem um ministro do governo Lula que está se saindo muito bem obrigada,

que é o Valdez Góes, ministro de Integração e Desenvolvimento Regional,

indicado pelo Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá,

mesmo estado do ministro.

Ele foi condenado a quase sete anos de prisão pelo STJ,

mas tem um recurso pendente no Supremo, então a situação jurídica dele é complicada.

Mas, politicamente, ele cresceu muito no governo Lula,

desde as chuvas em São Sebastião.

A avaliação política é que ele se saiu muito bem naquele episódio

e desde então ele cresceu, ele ganhou respeito no núcleo do governo

porque ele tem lealdade com o presidente, entrega o que promete

e conseguiu muito prestígio com os deputados e senadores.

Por quê? A Codevasp, que é a estatal central da distribuição de emendas do relator,

do Orçamento Secreto, está no guarda-chuva do ministério dele

e ele tem, assim, alguma facilidade, tem tido alguma desenvoltura

para liberar emendas, recursos, obras, etc., que os outros ministérios não têm tido.

Eu vou dar um exemplo para mostrar esse espaço que o Valdes ganhou.

O Marco Fiscal foi aprovado na Câmara no dia 25 de maio

e no dia 26 de maio o Valdes Góes embarcou num jatinho da FAB,

ao qual ele tem direito como ministro de estado,

com o Cláudio Cajado, que era o relator do Marco Fiscal na Câmara.

Eles embarcam juntos e, junto no voo, vai o presidente da Codevasp,

eles vão para a Bahia, que é a base eleitoral do Cajado.

E, chegando lá, eles entregam um sistema de esgotamento sanitário em Rio do Pires

e depois assinam uma ordem de serviço para outras obras em Tanque Novo.

R$ 28 milhões investidos, anunciados, com pampo e circunstância,

inclusive com emendas, dentro desse valor total,

tem emendas indicadas pelo deputado Cajado.

É uma pequena amostra de tudo o que um deputado quer.

Quer dizer, ele aprovou a medida que o governo queria, com uma ampla votação,

e aí embarca, com pompo e circunstância, no jatinho de ministro de estado

e, junto com ele, anuncia milhões e milhões de reais em investimento na base eleitoral dele,

que é disso que os deputados reclamam tanto.

Quando eles estão reclamando que o governo não atende,

que o governo... é o que o Valdes Góes tem conseguido fazer

e, por isso, tem se tornado uma central ali de articulação paralela

e quase na moita do governo Lula.

A Thais deu o exemplo de como a coisa funciona no detalhe,

só para vocês entenderem.

A RP9, que é a emenda do relator, que é a base do orçamento secreto,

custou para o país, no ano passado, em 2022,

R$ 2,4 bilhões apenas de janeiro até o final de maio.

Se a gente pegar o mesmo período agora, desse ano, de 2023,

o governo Lula, que mesmo pagando um monte de emenda do relator

que sobrou de restos a pagar do ano passado,

gastou R$ 1,5 bilhão.

É muito dinheiro? Sem dúvida.

Mas está gastando quase R$ 1 bilhão a menos do que o Bolsonaro

gastou no ano passado no mesmo período.

É isso daqui que está pegando.

A queda é muito grande.

E o jeito do Arthur Lira ganhar votos e manter-se no poder

e se eleger e ter esse poder todo de fazer uma bancada inteira,

mover de um lado para o outro em uma votação,

é graças a essa grana aqui.

É por isso que ele está chiando tanto.

Não é só por isso, claro.

Ele quer ter controle da torneira, meter a mão na teta da vaca, etc.

Mas esses valores dão uma ordem de grandeza

do quanto ele deixou de ter o poder que ele perdeu

da época do Bolsonaro para cá.

Muito bem. Cabe a mim ordenhar os blocos do programa.

Eu vou terminando o primeiro por aqui.

A gente faz um rápido intervalo.

Vamos falar, vamos continuar falando de retrocesso.

Vamos falar da área ambiental no segundo bloco.

A gente já volta.

Na revista Piauí, de junho,

Ana Clara Costa reconstitui a trama montada por policiais,

militares e políticos para golpear a democracia em 8 de janeiro.

Consuelo Diegues revela os bastidores do rombo das lojas americanas

e detalha como se deu o fiasco do festejado trio

formado por Jorge Paulo Leman, Beto Sicupira e Marcel Telles.

Os obstáculos para a reconstrução da política ambiental no governo Lula

são listados na reportagem de Bernardo Esteves.

E a escritora Ana Maria Machado

alerta para os riscos de corrigir clássicos infantos juvenis.

No papel, no celular ou no computador,

assinante Piauí lê esses e outros textos com exclusividade.

Saiba mais em revistapiaui.com.br.

Muito bem, José Roberto de Toledo.

Eu falei na abertura do Marco Temporal

sobre o que iremos tratar nesse bloco,

mas tem também a questão, a lei da Mata Atlântica,

que facilita ou flexibiliza o desmatamento

sem a necessidade de estudo prévio, certo?

Entre outras coisas, né, Fernando?

Explica, você que andou estudando a questão da Mata Atlântica,

explica pra gente o que vai ou o que pode acontecer.

A Mata Atlântica é aquela coisa que pega mais de 70% da população brasileira

que vive nela, mas não sabe que vive no bioma

porque não tem mais mata do lado pra ver, né?

No meu caso específico, tem uma questão pessoal,

uma vez que matão só chama matão,

por causa da mata que existia lá, que é Atlântica, né?

Apesar de estar longe, 300 quilômetros do litoral,

é ainda Mata Atlântica, é fazer a parte do bioma.

Só sobrou o nome.

É um bioma super importante que deu o nome ao Brasil, né?

O pau-brasil é uma árvore da Mata Atlântica,

foi uma das primeiras vítimas da chegada dos europeus aqui,

e é considerado um patrimônio nacional.

Tá na Constituição, tem lei específica,

ela já derrubaram tanto, né?

Sobrou uma parcela muito pequena da cobertura vegetal desse bioma,

que ela precisa ser preservada, entre outros motivos,

pra não faltar água na torneira de mais de 70% dos brasileiros.

Porque o que sobrou da Mata Atlântica,

e é uma colcha de retalhos, não é uma área contínua como a da Amazônia,

ela é responsável por cercar os mananciais de água

que abastecem a casa dos moradores de São Paulo, do Rio de Janeiro,

de Belo Horizonte, do Sul do Brasil também.

É um bioma que vai do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, né?

Então, é extremamente importante pra vida das pessoas.

Não é só pra defender a onça-pintada que tem na Mata Atlântica,

os mamíferos, as aves, não.

É pra defender os humanos que vivem nessa região.

Por isso que existe essa legislação de proteção.

Essa legislação foi muito eficiente, porque ela conseguiu derrubar

de 100 mil hectares ano de desmatamento de Mata Atlântica

pra 11 mil hectares ano, graças a esses aperfeiçoamentos,

desde a Constituição de 88, que foram implementados pra proteger a Mata Atlântica.

Pois bem, no governo Bolsonaro, voltou a crescer o desmatamento.

Já tá em 20 mil hectares ano.

E com essas mudanças que foram feitas pelo Congresso, agora,

nessas últimas semanas, tende a ficar mais difícil evitar

que a gente alcance o desmatamento zero prometido pelo governo Lula,

em campanha, e que é um compromisso do Brasil junto à comunidade internacional.

O desmatamento zero na Mata Atlântica é mais fácil de atingir, em tese,

do que na Amazônia.

As mortes por catástrofes naturais, por exemplo, como aconteceram

no litoral de São Paulo, é numa região de Mata Atlântica.

Porque esses eventos catastróficos vão ser cada vez mais frequentes e imprevisíveis.

Então, quanto mais preservada tiver essa mata,

menor a chance de você ter mortes e tragédias.

Enfim, do ponto de vista lógico, não tem explicação pra você

tornar mais vulnerável a Mata Atlântica, em vez de torná-la mais protegida.

O que os congressistas fizeram graças ao lobby, principalmente,

do setor agropecuário, mas também do setor minerador

e também do setor de infraestrutura.

Eles dispensaram obrigatoriedade de zona de amortecimento

de corredores ecológicos e unidades de conservação

quando estiverem situados em áreas urbanas,

que é justamente o lugar mais crítico.

Dispensa de consulta de aconselhos municipais e estaduais

de meio ambiente para uso do solo em margens de rios e lagos.

Flexibilização do desmatamento da vegetação primária e secundária.

Permissão de suspensão de vegetação para implementação de linhas

de transmissão de energia, gasodutos e sistemas de abastecimento

sem estudo prévio de impacto ou compensação.

Enfim, abriram a porteira pra boiada passar.

O efeito disso não só é aumentar o risco das pessoas que moram

dentro desse bioma, desses milhões de brasileiros,

da maioria dos brasileiros, como também você inviabilizar

essa colcha de retalhos. Por quê?

Como é muito fragmentado, é muito importante você ter

uma conexão entre esses fragmentos.

E essa conexão se dá através dos rios, principalmente.

Rios e cabeças de mananciais, áreas de proteção de mananciais.

Essa chamada mata ciliar é que forma uma espécie de corredor

entre um pedaço de mata que tem aqui, um pedaço de mata que tem ali.

E por que é importante que esses pedaços estejam conectados

entre si? Porque é através desses corredores, dessas matas ciliares,

que transitam a fauna e a flora, que vão polinizar de um lado,

que vão trocar genes de um pedaço de mata contra um pedaço de mata.

Quando ela fica totalmente isolada, sem conexão com esse corredor,

essa mata morre, não precisa nem desmatar, ela vai morrer sozinha.

Por pobreza genética e, enfim, por uma série de outros fatores ecológicos.

Então, você atacar justamente a mata ciliar e os corredores

é decretar o fim à morte da floresta, entendeu?

Então é um ato criminoso que o Congresso fez. Dá pra resumir assim.

Congresso ou a Câmara?

Não, o Senado já aprovou. É porque o Senado aprovou o projeto original,

que não diz respeito à Mata Atlântica, em particular, tirou os jabutis todos.

Aí voltou pra Câmara e a Câmara reintroduziu, aprovou,

e agora foi pra sanção do Lula. Então, assim, a esperança é que o Lula vete.

E que a Câmara não derrube o veto.

Ministros do Lula já anteciparam que ele irá vetar, certo?

Sim, a questão é se o governo vai ter força pra manter o veto do Lula na Câmara.

Vai custar caro, né? Obviamente. Vai ser a próxima chantagem.

Muito bem. Toledo deu uma pequena aula.

Na verdade, eu tô reproduzindo aqui, tô parafraseando aqui o diretor executivo

da Fundação SOS Mata Atlântica.


#255: Ordenhando a boiada - Part 1 #Nr. 255: Melken der Herde - Teil 1 #255: Milking the herd - Part 1 #255: Ordeñar el rebaño - Parte 1 #255 : Traire le troupeau - Partie 1 #第255回:牛の乳搾り - 前編 #255: Доение стада - часть 1

Rádio Piauí.

Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Terezina,

o podcast de política da revista Piauí.

Só não posso e nem vou ser responsável

por um resultado positivo ou negativo.

Se for positivo, todos os louros para o líder do governo,

Zé Guimarães, que tem sido um herói bravo, lutando.

Se for negativo, a culpa é do governo de uma maneira...

Eu, Fernando de Barros e Silva, na minha casa em São Paulo,

tenho o prazer de conversar com meu amigo José Roberto de Toledo,

aqui pertinho. Opa, Toledo!

Opa, Fernando! Opa, Thaís!

Quero pedir aqui aos senadores e senadoras presentes

que, assim que esse PL chegar a essa casa, seja rejeitado.

Os povos indígenas contam com a sensatez dos senhores e senhoras.

Thaís Bilenk, também no frio paulistano. Salve, salve, Thaís!

Salve, salve, Fernando de Toledo!

Companheiro Maduro, você sabe a narrativa que se construiu contra a Venezuela,

da antidemocrafia, do autoritarismo.

Então, eu acho que cabe à Venezuela mostrar a sua narrativa.

Vamos, então, aos assuntos da semana.

Foi por um triz. A medida provisória da reestruturação dos ministérios

foi aprovada pela Câmara na noite de quarta e ratificada pelo Senado na quinta, ontem.

Prazo final de sua validade.

Se não fosse votada, a MP iria, como se diz em jargão, caducar, virar letra morta.

E o governo Lula acordaria no dia seguinte com 14 ministérios a menos,

herdando a configuração da esplanada definida por Jair Bolsonaro.

Seria a implosão do governo.

O placar na Câmara acabou sendo folgado, 337 votos a favor, 125 contra e uma abstenção.

Mas esse número não se traduz em força política, pelo contrário.

No final da tarde de quarta, o presidente da Câmara, Arthur Lira,

usou uma coletiva de imprensa improvisada para desancar a articulação política de Lula.

Diz que havia insatisfação generalizada entre os parlamentares,

acusou o governo de inanição e completou dizendo que estava faltando pragmatismo,

consideração e atendimento por parte do Executivo.

Isso a despeito da liberação recorde de emendas parlamentares,

no valor de R$ 1,7 bilhão, na véspera da votação.

Horas depois de ter emparedado Lula, Lira disse que iria ajudar e o milagre se fez.

Algumas perguntas são necessárias.

O que explica a mudança de comportamento dos partidos sobre a influência de Lira?

Como deve ser a relação entre Lula e o Congresso daqui em diante?

O que deverá acontecer com os ministros da articulação política?

Depois do revés e da quase catumbe, o que se deve esperar do governo Lula?

No segundo bloco, a gente vai falar de mais retrocesso em questões fundamentais.

A mesma Câmara que emparedou Lula, aprovou na terça-feira um marco temporal

para a demarcação de terras indígenas.

Foram 283 votos favoráveis, 155 contra e mais uma abstenção.

O novo marco temporal estipula que a demarcação das terras só pode ocorrer

se houver comprovação de que os povos indígenas estavam sobre a área requerida

na data da promulgação da Constituição de 88.

Dali em diante, não há demarcação, é a lei da selva, lei que abre caminho

para os interesses predatórios de ruralistas, grileiros e quitais.

O projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e pode afetar mais de 300 pedidos

de demarcação e ter impacto sobre cerca de 200 mil indígenas.

Para a ministra dos povos indígenas, Sonia Guajajara,

o marco temporal representa um genocídio legislado.

A gente vai falar deste e de outros retrocessos na área ambiental,

onde a pauta progressista está perdendo de lavada.

Por fim, no terceiro bloco, a gente trata da desastrada fala de Lula

sobre o regime de Nicolás Maduro na Venezuela.

Essa semana, durante a cúpula de líderes da América do Sul no Brasil,

o presidente brasileiro atribuiu a uma narrativa mundial a constatação

de que na Venezuela não há democracia.

O sofisma do líder petista foi amplamente criticado.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, explicou a Lula que a violação

aos direitos humanos, perseguição a adversários políticos e a jornalistas,

nada disso é uma construção narrativa, mas uma realidade.

Eu pergunto, por que Lula insiste neste papel mentiroso?

Por que, sendo um democrata, insiste em legitimar regimes francamente autoritários?

É isso? Vem com a gente.

Transcrição e Legendas Pedro Rodrigues

Transcrição e Legendas Pedro Rodrigues

O ambiente foi ganhando contornos dramáticos porque realmente era algo inédito, né?

Uma ameaça de implosão da organização da estrutura do governo federal.

E no fim, como você mencionou, a Câmara aprovou com um placar favorável,

um placar bom para o governo.

E a negociação que levou a esse placar foi uma negociação clássica,

que todos os governos fizeram desde a redemocratização,

que é ceder espaço no governo, ministério e emendas parlamentares em troca de votos.

Dinheiro e cargo.

Dinheiro e cargo.

Bom, o governo Lula sinalizou para os partidos do Centrão, em particular,

Republicanos e PP do Lira, progressistas,

que tende, que está disposto a contemplá-los na esplanada dos ministérios,

e sinalizou a União Brasil, que já tem três ministérios,

mas cuja bancada na Câmara não se sente representada,

também sinalizou uma mudança nos nomes para atender aos interesses dos deputados deste partido.

As definições de pasta, o que vai acontecer, quem vai, como vai, de que jeito vai, quando vai,

tudo está em negociação ainda,

mas o sinal verde foi dado durante a tarde de quarta-feira,

horas antes da votação à noite na Câmara,

numa visita que o Elmar Nascimento pediu e o Lula cedeu no Palácio do Planalto,

o Elmar Nascimento, que é, além de braço direito do Lula, líder da bancada do União Brasil,

do Lira, em si pediu para ser atendido pelo Lula, pessoalmente não conseguiu,

eles se falaram por telefone de manhã, a tensão foi aumentando,

e no fim, quando o Elmar Nascimento foi ao Palácio do Planalto,

ele percorreu o cipoal de reclamações, de que as emendas estão travadas,

e os cargos não são liberados, etc.

Mas ao mesmo tempo, fez o papel de bom policial e falou que era contra essa tensão,

e que ia trabalhar pela aprovação da medida provisória da esplanada,

e o governo sinalizou que vai atender aos reclames e às demandas do Central.

O que ficou claro aí?

Ficou claro que o Lira, isso é a leitura do governo,

de uma pessoa do governo que eu ouvi na quarta-feira,

depois de todo desfecho, desse suspense que foi ontem.

O Lira tentou encurralar o Lula, o Lula dobrou a aposta,

e o blefe do Lira acabou ficando exposto.

O que, para o governo, tem dois lados.

O copo meio cheio é que sim, o Lira acabou exposto.

O copo meio vazio é que o nível de estresse para uma negociação

que é relativamente simples e relativamente corriqueira,

prova a fragilidade do governo no Congresso,

e que não foi resolvida na noite de quarta-feira.

Essa negociação para os republicanos eventualmente fazerem parte do governo

com o Ministério, que não é de ontem também, diga-se de passagem,

já vem de boas semanas em que isso está sendo negociado.

É uma negociação conjunta para a sucessão do Lira ser azeitada,

ser negociada com o Palácio do Planalto envolvido,

e o nome que foi ventilado, vem sendo ventilado,

é o do Marcos Pereira, que é presidente do Republicanas

e deputado federal, e pleiteia a presidência da Câmara.

Então, todo um pacote que visa também deixar o governo Lula

nos dois últimos anos do mandato menos refém,

um pouco mais no controle da pauta da Câmara

do que vem estando, pelo menos, nos seis primeiros meses de governo.

Para além dessa questão da sucessão, o que é que centram o orçamento?

Eles perderam o orçamento secreto quando o Supremo derrubou,

teve uma negociação para deixar as emendas vinculadas ao Ministério,

mas a coisa está emperrada.

Se o Lira rompesse de fato com o governo,

ele perderia ainda mais acesso ao orçamento,

o que para ele seria ruim, para o governo Lula seria ruim também,

seria ruim para todos, na verdade.

O Lira jogou duro, mas tem um aspecto do poder

que é aquele aspecto esquisito, que não importa só a caneta com tinta

e a chave do cofre para distribuir emenda.

A pessoa que tem poder quer prestígio, ela quer ser bajulada pelo presidente,

ela quer ser convidada para churrasco sexta-feira à noite no Palácio da Alvorada.

O Lula fez o churrasco, não convidou o Lira,

convidou ministros dos Supremos, líderes do governo.

Enfim, tem esse aspecto de nutrir também a vaidade e a sensação de prestígio da pessoa,

no caso do Arthur Lira, que passou a quarta-feira dizendo para interlocutores

que não quer mais tratar com ministros, ele quer tratar diretamente com o Lula

e que o Lula, o presidente da República, tem que conversar com ele sempre,

não apenas quando interessa.

Agora o Lula pode convidar o Lira para comer aquele churrasco

do cara lá que fez para a seleção brasileira com ouro, né, Zé?

Que faz picanha com ouro.

E a foto pode ser aquela, o Lula pondo assim uma picanha com ouro na boca do Lira.

Estou pensando nessa imagem agora.

Não deu muito certo na Copa, acho que não vai dar muito certo de novo agora.

O que a gente assistiu nessas últimas semanas, e ontem foi o desfecho dramático,

foi o que os americanos chamam de chicken game,

que mal traduzindo talvez fosse quem pisca primeiro aqui no Brasil, né?

Curiosamente aconteceu simultaneamente nos Estados Unidos e no Brasil.

Nos Estados Unidos o governo do Biden, democrata,

estava negociando com a maioria republicana na Câmara, ou seja, oposição,

exatamente como aqui, o teto de gastos deles lá, né?

E conseguiu na um décima hora um acordo, porque era um blefe dos republicanos

que o Biden pagou para ver e na última hora chegaram a um acordo

e o governo não entrou em defor, faliu para exagerar, vou usar uma hipérbole aqui.

E aqui no Brasil aconteceu exatamente a mesma coisa,

porque obviamente Cuartolira não estava em desacordo com a criação de mais cargos e ministérios

que eles vão querer ocupar, né?

É como se os fisiológicos falassem, não, não, não, não, peraí, não, é ministério demais,

não vamos criar tanto cargo assim, pô, não estou afim de cargo, é ridículo.

Do ponto de vista do conteúdo, da discussão, é ridículo.

E eles estavam se fazendo de conta que não queriam.

Ora, exageraram um pouco no cinismo e foram até o limite, né?

O limite do limite do limite, dizendo, ah, não vou aprovar, não vou colocar lá em votação,

isso daí já tinha sido acordado, é uma injustiça que estão fazendo com o meu apadrinhado,

que era o relator do caso, não sei o que lá, que é de Alagoas, que é da família Bulhões,

já falamos dele aqui.

Bom, era tudo blefe, ou era quase tudo blefe, né?

E na última hora votaram, basta ver a votação, estourou de voto.

Todos os partidos fisiológicos votaram, com exceção do PL, que é o fisiológico do outro lado, né?

Votaram a favor do MP.

E isso daí, vamos olhar a questão das emendas.

Ah, eles conseguiram liberar mais emendas, sim, conseguiram liberar mais emendas.

Só que, nessa mesma época do ano, em 2022, na gestão Bolsonaro,

o governo tinha liberado o dobro de emendas, mais de 12 bilhões de reais,

até o final de maio.

Então, beleza, precisou liberar, e vai ter que continuar liberando, e vai liberar cada vez mais.

Mas, comparativo ao Bolsonaro, foi metade, entendeu?

O segundo aspecto que eu acho importante.

Isso vai acabar aqui? Não.

Isso tem consequências graves, porque enquanto você está discutindo coisas que não merecem ser discutidas,

porque não tem ninguém em desacordo, como essa questão do quais são e quantos são os ministérios,

você vai passando a boiada em coisas que são fundamentais,

como o marco temporal, como a destruição da Mata Atlântica, e por aí vai, entendeu?

Zé, mas aí tem o seguinte, eu concordo com você, você está falando uma distinção entre forma e conteúdo,

mas não esquecer que o que foi aprovado foi mexido pelo Congresso, pelo Esnaldinho.

Não, mas é exatamente isso.

Você ficar discutindo o número de ministérios, como se isso fosse uma discussão,

mas aí você não discute o desossamento do Ministério do Meio Ambiente

e a realocação de órgãos que estavam com a Marina Silva para outros ministros,

embora sejam ministros do mesmo governo e até da mesma banda ideológica.

É uma estratégia, é um jeito de fazer a coisa.

Você olha para a minha mão esquerda enquanto com a direita eu estou roubando a sua carteira.

Mas não é só isso, acho que tem uma coisa de fundo que precisa ser olhada também,

que é o seguinte, desde 2019, posso argumentar que talvez desde 2013,

a participação do Congresso na tomada de decisões importantes vem aumentando.

E em 2019 você tem um marco importante, que é a implementação das emendas impositivas,

que o governo não tem mais o poder de não gastar aquele dinheiro,

ele só tem o poder de controlar o fluxo e a velocidade do gasto.

E isso mudou a dinâmica entre a presidência da República e o Congresso.

Conversei com vários cientistas políticos essa semana, eu tentando emplacar,

vamos chamar de semi-presidencialismo, e eles falaram que não dá,

ainda não dá para chamar de semi-presidencialismo ou de semi-parlamentarismo,

porque isso está definido nos cânones da ciência política e os critérios não estão dados.

No máximo, dá para a gente dizer que é um presidencialismo de pé quebrado,

porque ele tem muito mais dificuldades nessa negociação com o Congresso do que tinha antes.

Agora, ainda é o sistema presidencialista, basta você ver nessa quinta-feira as capas dos sites e dos jornais.

Tem uma reportagem em cima dizendo lira, cobra caro, lira, chantageia, lira não sei o que lá,

e imediatamente embaixo uma outra chamada dizendo que a Polícia Federal faz operação em reduto eleitoral de lira.

Quer dizer, não é que o governo está sem dentes, o governo tem também mecanismos para fazer pressão contra o presidente da Câmara.

Não acho que nenhum dos dois esteja caminhando para esticar a corda até o ponto dela arrebentar,

era tudo blefes e contrablefes.

Mas a consequência final é que o custo de governar aumenta

e as concessões que o governo tem que fazer do ponto de vista conteudístico são muito altas.

E quem está pagando o preço agora é o meio ambiente e os povos indígenas, mas não vai parar por aí, é claro.

Concordo com a Thais, eu acho que vai ter uma reforma ministerial,

vai ter mais espaço para esses partidos fisiológicos dentro do governo e eventualmente até dentro do Palácio,

porque o Arthur Lira não quer mais ficar bebendo nas tetas do governo, ele quer ordenhar a vaca, entendeu?

Que foi o que ele teve no governo Bolsonaro com o Ciro Nogueira na Casa Civil, é isso.

Ele perdeu o poder em relação ao ano passado e está brigando pelo mesmo espaço que ele já teve.

Obrigado por explicar em uma frase o que eu estou tentando falar sem sucesso há 10 minutos.

Mas é exatamente isso, porque basta ver o volume, basta ver o volume.

Até o final do ano passado ele tinha conseguido liberar o dobro de emendas do que ele conseguiu liberar até agora,

sendo que o partido dele foi preterido na liberação de emendas esse ano.

Então é disso que se trata, o governo não está acabando, mas o custo é muito alto

e a capacidade de o governo fazer o que pretendia é cadente, está diminuindo.

Não está acabando, mas as expectativas vão sendo reduzidas e a configuração do governo vai tomando outra cara.

Você vai ficando mais conservador ou mais emperrado.

Bom, o governo, na verdade, é o seguinte, o Congresso é cada vez mais conservador.

A cada eleição que passa, desde 2013, o Congresso fica mais conservador,

porque o discurso da antipolítica fortaleceu os políticos fisiológicos tipo Arthur Lira

e aumentou a porcentagem de bancadas temáticas conservadoras na Câmara,

que estão mais organizadas do que nunca.

A bancada do agro é a bancada mais organizada que tem.

Tem o think tank, que fornece subsídios para os caras legislarem, falarem, talking points,

tem lobby super organizado e estruturado, enfim, não é à toa que essas mudanças acontecem.

Você tem de um lado o cara distraindo e do outro lado os caras operando.

Muito bem, Thais Bilenk, podemos encerrar?

Não, eu tenho duas coisas para dizer, uma é rápida e bombástica.

O André Janones, deputado famoso, deputado da base Lulista,

deu uma entrevista ontem na Globo News e ele disse

eu defendo que a gente mude o nome do Centrão para Direitão.

Quer dizer, tá ouvindo pouco?

Ladrão!

É, assim, tentou fazer de um jeito disfarçado.

Mas o que eu tenho para dizer também, Fernando, é que no meio desse tiroteio

tem um ministro do governo Lula que está se saindo muito bem obrigada,

que é o Valdez Góes, ministro de Integração e Desenvolvimento Regional,

indicado pelo Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá,

mesmo estado do ministro.

Ele foi condenado a quase sete anos de prisão pelo STJ,

mas tem um recurso pendente no Supremo, então a situação jurídica dele é complicada.

Mas, politicamente, ele cresceu muito no governo Lula,

desde as chuvas em São Sebastião.

A avaliação política é que ele se saiu muito bem naquele episódio

e desde então ele cresceu, ele ganhou respeito no núcleo do governo

porque ele tem lealdade com o presidente, entrega o que promete

e conseguiu muito prestígio com os deputados e senadores.

Por quê? A Codevasp, que é a estatal central da distribuição de emendas do relator,

do Orçamento Secreto, está no guarda-chuva do ministério dele

e ele tem, assim, alguma facilidade, tem tido alguma desenvoltura

para liberar emendas, recursos, obras, etc., que os outros ministérios não têm tido.

Eu vou dar um exemplo para mostrar esse espaço que o Valdes ganhou.

O Marco Fiscal foi aprovado na Câmara no dia 25 de maio

e no dia 26 de maio o Valdes Góes embarcou num jatinho da FAB,

ao qual ele tem direito como ministro de estado,

com o Cláudio Cajado, que era o relator do Marco Fiscal na Câmara.

Eles embarcam juntos e, junto no voo, vai o presidente da Codevasp,

eles vão para a Bahia, que é a base eleitoral do Cajado.

E, chegando lá, eles entregam um sistema de esgotamento sanitário em Rio do Pires

e depois assinam uma ordem de serviço para outras obras em Tanque Novo.

R$ 28 milhões investidos, anunciados, com pampo e circunstância,

inclusive com emendas, dentro desse valor total,

tem emendas indicadas pelo deputado Cajado.

É uma pequena amostra de tudo o que um deputado quer.

Quer dizer, ele aprovou a medida que o governo queria, com uma ampla votação,

e aí embarca, com pompo e circunstância, no jatinho de ministro de estado

e, junto com ele, anuncia milhões e milhões de reais em investimento na base eleitoral dele,

que é disso que os deputados reclamam tanto.

Quando eles estão reclamando que o governo não atende,

que o governo... é o que o Valdes Góes tem conseguido fazer

e, por isso, tem se tornado uma central ali de articulação paralela

e quase na moita do governo Lula.

A Thais deu o exemplo de como a coisa funciona no detalhe,

só para vocês entenderem.

A RP9, que é a emenda do relator, que é a base do orçamento secreto,

custou para o país, no ano passado, em 2022,

R$ 2,4 bilhões apenas de janeiro até o final de maio.

Se a gente pegar o mesmo período agora, desse ano, de 2023,

o governo Lula, que mesmo pagando um monte de emenda do relator

que sobrou de restos a pagar do ano passado,

gastou R$ 1,5 bilhão.

É muito dinheiro? Sem dúvida.

Mas está gastando quase R$ 1 bilhão a menos do que o Bolsonaro

gastou no ano passado no mesmo período.

É isso daqui que está pegando.

A queda é muito grande.

E o jeito do Arthur Lira ganhar votos e manter-se no poder

e se eleger e ter esse poder todo de fazer uma bancada inteira,

mover de um lado para o outro em uma votação,

é graças a essa grana aqui.

É por isso que ele está chiando tanto.

Não é só por isso, claro.

Ele quer ter controle da torneira, meter a mão na teta da vaca, etc.

Mas esses valores dão uma ordem de grandeza

do quanto ele deixou de ter o poder que ele perdeu

da época do Bolsonaro para cá.

Muito bem. Cabe a mim ordenhar os blocos do programa.

Eu vou terminando o primeiro por aqui.

A gente faz um rápido intervalo.

Vamos falar, vamos continuar falando de retrocesso.

Vamos falar da área ambiental no segundo bloco.

A gente já volta.

Na revista Piauí, de junho,

Ana Clara Costa reconstitui a trama montada por policiais,

militares e políticos para golpear a democracia em 8 de janeiro.

Consuelo Diegues revela os bastidores do rombo das lojas americanas

e detalha como se deu o fiasco do festejado trio

formado por Jorge Paulo Leman, Beto Sicupira e Marcel Telles.

Os obstáculos para a reconstrução da política ambiental no governo Lula

são listados na reportagem de Bernardo Esteves.

E a escritora Ana Maria Machado

alerta para os riscos de corrigir clássicos infantos juvenis.

No papel, no celular ou no computador,

assinante Piauí lê esses e outros textos com exclusividade.

Saiba mais em revistapiaui.com.br.

Muito bem, José Roberto de Toledo.

Eu falei na abertura do Marco Temporal

sobre o que iremos tratar nesse bloco,

mas tem também a questão, a lei da Mata Atlântica,

que facilita ou flexibiliza o desmatamento

sem a necessidade de estudo prévio, certo?

Entre outras coisas, né, Fernando?

Explica, você que andou estudando a questão da Mata Atlântica,

explica pra gente o que vai ou o que pode acontecer.

A Mata Atlântica é aquela coisa que pega mais de 70% da população brasileira

que vive nela, mas não sabe que vive no bioma

porque não tem mais mata do lado pra ver, né?

No meu caso específico, tem uma questão pessoal,

uma vez que matão só chama matão,

por causa da mata que existia lá, que é Atlântica, né?

Apesar de estar longe, 300 quilômetros do litoral,

é ainda Mata Atlântica, é fazer a parte do bioma.

Só sobrou o nome.

É um bioma super importante que deu o nome ao Brasil, né?

O pau-brasil é uma árvore da Mata Atlântica,

foi uma das primeiras vítimas da chegada dos europeus aqui,

e é considerado um patrimônio nacional.

Tá na Constituição, tem lei específica,

ela já derrubaram tanto, né?

Sobrou uma parcela muito pequena da cobertura vegetal desse bioma,

que ela precisa ser preservada, entre outros motivos,

pra não faltar água na torneira de mais de 70% dos brasileiros.

Porque o que sobrou da Mata Atlântica,

e é uma colcha de retalhos, não é uma área contínua como a da Amazônia,

ela é responsável por cercar os mananciais de água

que abastecem a casa dos moradores de São Paulo, do Rio de Janeiro,

de Belo Horizonte, do Sul do Brasil também.

É um bioma que vai do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, né?

Então, é extremamente importante pra vida das pessoas.

Não é só pra defender a onça-pintada que tem na Mata Atlântica,

os mamíferos, as aves, não.

É pra defender os humanos que vivem nessa região.

Por isso que existe essa legislação de proteção.

Essa legislação foi muito eficiente, porque ela conseguiu derrubar

de 100 mil hectares ano de desmatamento de Mata Atlântica

pra 11 mil hectares ano, graças a esses aperfeiçoamentos,

desde a Constituição de 88, que foram implementados pra proteger a Mata Atlântica.

Pois bem, no governo Bolsonaro, voltou a crescer o desmatamento.

Já tá em 20 mil hectares ano.

E com essas mudanças que foram feitas pelo Congresso, agora,

nessas últimas semanas, tende a ficar mais difícil evitar

que a gente alcance o desmatamento zero prometido pelo governo Lula,

em campanha, e que é um compromisso do Brasil junto à comunidade internacional.

O desmatamento zero na Mata Atlântica é mais fácil de atingir, em tese,

do que na Amazônia.

As mortes por catástrofes naturais, por exemplo, como aconteceram

no litoral de São Paulo, é numa região de Mata Atlântica.

Porque esses eventos catastróficos vão ser cada vez mais frequentes e imprevisíveis.

Então, quanto mais preservada tiver essa mata,

menor a chance de você ter mortes e tragédias.

Enfim, do ponto de vista lógico, não tem explicação pra você

tornar mais vulnerável a Mata Atlântica, em vez de torná-la mais protegida.

O que os congressistas fizeram graças ao lobby, principalmente,

do setor agropecuário, mas também do setor minerador

e também do setor de infraestrutura.

Eles dispensaram obrigatoriedade de zona de amortecimento

de corredores ecológicos e unidades de conservação

quando estiverem situados em áreas urbanas,

que é justamente o lugar mais crítico.

Dispensa de consulta de aconselhos municipais e estaduais

de meio ambiente para uso do solo em margens de rios e lagos.

Flexibilização do desmatamento da vegetação primária e secundária.

Permissão de suspensão de vegetação para implementação de linhas

de transmissão de energia, gasodutos e sistemas de abastecimento

sem estudo prévio de impacto ou compensação.

Enfim, abriram a porteira pra boiada passar.

O efeito disso não só é aumentar o risco das pessoas que moram

dentro desse bioma, desses milhões de brasileiros,

da maioria dos brasileiros, como também você inviabilizar

essa colcha de retalhos. Por quê?

Como é muito fragmentado, é muito importante você ter

uma conexão entre esses fragmentos.

E essa conexão se dá através dos rios, principalmente.

Rios e cabeças de mananciais, áreas de proteção de mananciais.

Essa chamada mata ciliar é que forma uma espécie de corredor

entre um pedaço de mata que tem aqui, um pedaço de mata que tem ali.

E por que é importante que esses pedaços estejam conectados

entre si? Porque é através desses corredores, dessas matas ciliares,

que transitam a fauna e a flora, que vão polinizar de um lado,

que vão trocar genes de um pedaço de mata contra um pedaço de mata.

Quando ela fica totalmente isolada, sem conexão com esse corredor,

essa mata morre, não precisa nem desmatar, ela vai morrer sozinha.

Por pobreza genética e, enfim, por uma série de outros fatores ecológicos.

Então, você atacar justamente a mata ciliar e os corredores

é decretar o fim à morte da floresta, entendeu?

Então é um ato criminoso que o Congresso fez. Dá pra resumir assim.

Congresso ou a Câmara?

Não, o Senado já aprovou. É porque o Senado aprovou o projeto original,

que não diz respeito à Mata Atlântica, em particular, tirou os jabutis todos.

Aí voltou pra Câmara e a Câmara reintroduziu, aprovou,

e agora foi pra sanção do Lula. Então, assim, a esperança é que o Lula vete.

E que a Câmara não derrube o veto.

Ministros do Lula já anteciparam que ele irá vetar, certo?

Sim, a questão é se o governo vai ter força pra manter o veto do Lula na Câmara.

Vai custar caro, né? Obviamente. Vai ser a próxima chantagem.

Muito bem. Toledo deu uma pequena aula.

Na verdade, eu tô reproduzindo aqui, tô parafraseando aqui o diretor executivo

da Fundação SOS Mata Atlântica.