×

We use cookies to help make LingQ better. By visiting the site, you agree to our cookie policy.


image

Foro de Teresina - Podcast (*Generated Transcript*), #243: Os diamantes de Bolsonaro - Part 1

#243: Os diamantes de Bolsonaro - Part 1

Rádio Piauí.

Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Terezina,

o podcast de política da revista Piauí.

Eu quero dizer o seguinte, dependendo de onde eu esteja,

tem que ter o ato de licitação do mercado livre,

que é uma incorporação.

Não terei nem como liberar, mesmo que eu pudesse,

não terei como liberar. Não estou sabendo.

Eu, Fernando de Barros e Silva, na minha casa em São Paulo,

tenho o prazer de conversar com o meu amigo José Roberto de Toledo,

aqui pertinho. E hoje não vai ter roupa, Toledo.

Hoje é tudo joia, Toledo.

Salam Aleikum, Fernando.

Me perguntam também sobre o meu patrimônio.

E eu explico. Desde sempre declaro todos os meus bens

na minha declaração de imposto de renda,

inclusive os meus cavalos.

E Thaís Bilenk, que está em Brasília.

Salve, salve! Tudo joinha, Thaís Bilenk?

Tudo joinha, Fernando. Tudo joinha.

Eu falei que ia arrancar risada da Thaís Bilenk,

ela falou, hoje eu duvido.

Hoje nunca duvide, Thaís.

Mulheres sem resistência contra o trabalho estravo!

Mulheres sem resistência contra o trabalho estravo!

Bom, antes de ir para os assuntos da semana,

um recado para vocês.

Nós faremos uma live do foro no dia 20 de março,

a outra segunda-feira, às 7 da noite,

para os assinantes da Piauí.

A gente vai falar desses quase três primeiros meses de governo,

responder perguntas de vocês,

enfim, fazer a nossa baguncinha organizada,

ou nem tão organizada, de sempre.

Vamos então aos assuntos da semana.

No primeiro bloco, a gente fala do escândalo das joias

envolvendo o casal Bolsonaro e o governo da Arábia Saudita.

Ficamos sabendo no final da semana passada,

por uma reportagem do Estadão,

que Bolsonaro tentou resgatar diversas vezes na alfândega brasileira

um kit com colar, brincos, anel e relógio de diamantes,

tudo avaliado em R$ 16,5 milhões.

O mimo, destinado à então primeira-dama Michele,

que de Micheque evoluiu para Miamantes,

era um presente do governo saudita trazido ao Brasil

pela comitiva do então ministro das Minas e Energia,

Almirante Bento Albuquerque, em outubro de 2021.

Um presente das Arábias, literalmente,

para as ardas Bolsonaro, ficou retido na fiscalização.

Retido apesar da carteirada do Almirante Bento,

no dia da apreensão e de pelo menos oito tentativas de burlar a lei,

a última delas em 29 de dezembro do ano passado,

um dia antes da ida de Bolsonaro para os Estados Unidos.

Quando um sargento da Marinha viajou de Brasília a Guarulhos,

num avião da FAB, para tentar liberar o kit Arábia,

em caráter de urgência.

Como se sabe, o kit destinado à Michele não rolou,

mas outro pacote, incluindo relógio, anel, caneta,

um rosário e abotoaduras,

tudo também da marca suíça Chopar,

avaliado no mínimo em R$ 400 mil,

isso tudo passou batido pela Receita Federal

e foi incorporado ao patrimônio pessoal de Bolsonaro.

Podemos imaginar o que ele fez com as abotoaduras,

se deu de presente para Queiroz,

uma para Queiroz e outra para o ASEF,

o advogado de filme de terror,

ou ainda se comeu os objetos de ouro misturado no leite condensado.

O que se sabe é que neste angu tem caroço.

A gente vai discutir o que já se conhece

e os mistérios ou as dúvidas que ainda cercam este caso reluzente.

No segundo bloco deixamos a estátua do cavalo dourado que veio da Arábia,

tinha isso também,

e vamos falar de outro cavalo, o Rochão,

que coitado não tem culpa no cartório

por ter sido homenageado pelo ministro Juscelino Filho

na inauguração de uma praça.

Rochão, vejam só, propriedade de um sócio de Juscelino,

que viajou em avião da FAB, não o Rochão, mas o Juscelino,

até São Paulo em caráter urgente

e dedicou quase todo o tempo de sua agenda,

custeada com dinheiro público,

para cuidar de assuntos privados relacionados à criação e comercialização de cavalos.

Juscelino, que não é titulado Ministério do Pasto,

esse Lula ainda não criou,

mas das comunicações foi mantido no governo

depois de conversar com o presidente.

É um caso exemplar de sacrifício da moralidade

em benefício da chamada governabilidade no Congresso,

já que o partido do ministro, União Brasil,

tem 59 votos na Câmara e mais 9 no Senado,

e o governo luta para não perdê-los nas votações importantes.

A gente vai discutir como está tudo isso.

Por fim, no terceiro bloco,

o nosso assunto é a exploração do trabalho escravo,

ou análogo à escravidão, no Brasil atual.

Vieram à tona nas últimas semanas casos escabrosos,

entre eles o de maior repercussão de Bento Gonçalves,

no Rio Grande do Sul,

no qual mais de 200 trabalhadores foram resgatados de um alojamento

onde eram submetidos a condições degradantes durante a colheita da uva.

Privados de liberdade, explorados financeiramente

e vítimas de violência física.

Muitos eram identificados como baianos

e alguns haviam sido, eu ia dizer punidos,

mas a palavra é torturados, com choques elétricos.

Eles eram contratados por uma empresa que oferecia mão de obra

para as vinícolas Aurora, Cooperativa Garibaldi e Salton.

Nessa semana, 32 trabalhadores rurais foram resgatados

pelo Ministério Público do Trabalho

em situação análoga à escravidão

em uma fazenda no interior de São Paulo.

Fazenda que fornecia cana-de-açúcar

à Colombo Agroindústria, fabricante da marca Caravelas.

Os canavieiros trazidos do interior de Minas

pagaram pelas próprias passagens,

sofreram privação alimentar,

não receberam os salários combinados

e parte deles foi alojada em um açougue, isso mesmo.

Segundo o levantamento do Ministério Público do Trabalho,

o total de denúncias de pessoas trabalhando em condições análogas

a de escravizados é o maior desde 2012.

Bem-vindo ao país do futuro, querido ouvinte.

É isso, vem com a gente.

Muito bem, José Roberto de Toledo, eu fiz aqui um resumo...

Brilhante, eu diria.

Não, resumo precário.

Já sabendo ou apostando que você fará uma cronologia melhor

para explicar este escândalo e caracterizá-lo,

o escândalo dos diamantes.

Essa história, Fernando, começa em junho de 2019,

quando Bolsonaro tinha seis meses no cargo de presidente,

quando ele conhece o encontro, não sei se pela primeira vez,

mas é um encontro significativo com o MBS,

que é o homem forte do regime saudita,

Mohammed Bin Salman, aquele do cachogue jornalista,

que foi morto esquartejado dentro da embaixada da Arábia Saudita na Turquia.

Pois bem, eles se conhecem lá no G20, no Japão,

e a partir daí desenvolve uma relação que Bolsonaro chamaria

como a de quase irmãos.

Logo em seguida, no dia 29 de outubro de 2019,

o Bolsonaro assinou um acordo com a Arábia Saudita

que previa investimentos de 10 bilhões de dólares

do Fundo de Investimento Público Saudita no Brasil,

principalmente em infraestrutura e energia, petróleo.

O tempo passa e, no dia 25 de outubro de 2021,

a comitiva do ministro Bento Albuquerque,

que estava deixando o hotel na Arábia Saudita de volta ao Brasil,

depois de uma viagem de negócios,

quando recebe de um emissário do governo saudita

pelo menos duas remessas de joias muito caras.

Uma, como você já disse, supostamente endereçada ao Bolsonaro,

que tinha ali abotoaduras, caneta, que não era bique,

anel, relógio de ouro, um rosário,

tudo isso estimado em mais ou menos 400 mil reais,

e a outra, muito mais valiosa, com colares e brincos de diamantes

avaliados em 3 milhões de euros,

o que, como você disse, dá 16,5 milhões de reais.

Exatamente no mesmo dia 25, onde estava Bolsonaro?

Pergunto eu, e eu mesmo respondo, baseado em reportagem

dos valorosos e brilhantes Adriana Fernandes e André Borges,

repórteres do Estadão.

No mesmo dia, Bolsonaro almoçava onde?

Na casa do embaixador da Arábia Saudita no Brasil, em Brasília.

E ali fazia uma reunião junto com outros dignatários

ou diplomatas dos países do Golfo,

e na pauta do almoço estava a venda da refinaria Landolfo Alves,

na Bahia, pela Preto Brás, para Mubadala Capital,

que é uma empresa de investimento dos Emirados Árabes,

pela bagatela de 1 bilhão e 800 milhões de dólares.

Então você vê que são negócios bilionários.

Aí é bagatela mesmo, porque a avaliação diz que a refinaria

valia muito mais do que isso.

Exatamente, é uma bagatela, não é uma força de expressão,

nem um trocadilho infame, é a expressão da realidade,

e é uma refinaria estratégica.

Bom, no dia seguinte, a comitiva do Bento Albuquerque

desembarca no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo,

um dos conjuntos de joias passa batido pela Receita,

como você já falou, mas outro, os fiscais da Receita

pedem para o auxiliar do ministro Bento Albuquerque,

o Márcio André dos Santos Soeiro, passar com a bagagem pelo Raio-X.

E no Raio-X, descobre-se dentro da mochila do Marcos André,

esse conjunto milionário de joias que, supostamente,

eram para Michelle e Bolsonaro.

Como é que a Receita mandou o cara passar pelo Raio-X?

Porque o Bento Albuquerque, almirante Bento Albuquerque,

como ministro das Minas e Energia, fez pelo menos 26 viagens ao exterior

em três anos e cinco meses como ministro.

É quase uma viagem para fora a cada mês e meio.

A gente pode imaginar que tem muita botuadura por aí, Toledo.

O cara visitou Estados Unidos, Áustria, França, Espanha, Israel,

os Estados Árabes, Rússia, Inglaterra, Rússia duas vezes, Índia duas vezes.

Pode ser que ele seja colecionador de suveniros, por exemplo.

É, eu acho, provavelmente.

E daí descobre-se esse conjunto milionário na mochila.

Todos eram militares, o assessor também era militar.

Só aí você já tem algumas ilegalidades.

A primeira dela é que o ministro não declarou a Receita Federal

como era obrigatório declarar, especialmente se tratando de um ministro de Estado,

as joias da Receita.

Porque você não pode entrar na fila do nada a declarar

se você tem 16 milhões e meio de reais na sua mochila.

Você tem que declarar que você está trazendo aquilo ali.

E aí, diamante. Diamante, vamos lembrar, é a coisa mais fácil de você comercializar ilegalmente.

Porque é muito difícil de você verificar procedência, enfim.

E é muito pequenininho e fácil de transportar.

Bom, aí vem a segunda ilegalidade,

que é a carterada do ministro das Minas e Energia,

querendo liberar a Namarra, os brilhantes,

dizendo que aquilo era destinado à primeira dama.

E aí o fiscal da Receita, o auditor da Receita, é muito firme e correto

dizendo que não, não é assim que as coisas funcionam.

Se isso vai ser incorporado ao patrimônio da União,

isso tem que ser declarado e tem que ir para o patrimônio da União

e tem um documento que registra a entrada dessas joias

que vai para o patrimônio da União.

Agora, isso que você está querendo fazer é incorporar o patrimônio privado do Bolsonaro.

Para fazer isso, você tem que pagar imposto.

E esse imposto não é barato.

É uma multa de 50% do valor de tudo que exceder mil dólares.

Tem 16,5 milhões de reais e ia pagar mais do que o Bolsonaro diz que tem, né?

Oficialmente, pelo menos.

E aí, Fernando, tem um outro aspecto, o Hélio Gaspari levanta na coluna dele de quarta-feira,

que é muito importante.

Esses presentes oficiais, esses presentes dados por dignatários estrangeiros

a autoridades brasileiras ou autoridades de qualquer parte do mundo,

eles têm um protocolo.

Você registra isso, você fotografa, você cria uma cerimônia pública,

você manda, no mínimo, uma carta para a destinatária dizendo

olha, Michelle, pelos seus belos olhos, aqui vão 16,5 milhões de reais para você.

Não, não teve carta, não teve bilhete, não teve foto e teve uma tentativa de passar incógnito.

É contrabando que chama isso daí, né?

Então, isso pode caracterizar suborno.

O presidente da república está discutindo com os caras para vender uma refinaria da Petrobras

no mesmo dia que o cara entrega 16,5 milhões de reais em joias não declaradas a um emissário.

Porque aqui ninguém está preso ainda.

Me explica alguém, por favor.

Não bastasse isso, o Bento Albuquerque, porque é um conjunto de atrapalhadas, né?

Parece coisa dos trapalhões, parece comédia, parece traje cômico, né?

A pergunta que fica é se a caxtocracia sofre de cleptomania.

Veja só, ele liga para o embaixador da Arábia Saudita nos dias subsequentes,

fala com o chanceler e tenta resolver a questão, não consegue.

No mês de 2021, o Bolsonaro liga ou recebe ligação do secretário da Receita Federal

para tentar que o secretário da Receita Federal convencesse seus subordinados a liberar joias.

Manda o seu 007, o coronel Cid, o ajudante de ordens que está segurando a pasta do Bolsonaro

em tudo quanto é foto com o dignatário estrangeiro,

mandar um ofício para a Receita para tentar liberar joias,

para incorporar o patrimônio pessoal dele ou da Michelle.

Não consegue e daí, na véspera de voar para os Estados Unidos fugido,

ele manda um sargento ao aeroporto de Guarulhos

para tentar, na pressão direta pessoal, arrancar as joias do cofre da Receita,

para levar com ele, para sabe-se lá para onde, né?

Então, Fernando, você tem vários crimes aí.

Você tem contrabando, você tem apropriação indébita de patrimônio público,

você tem possível subordo, porque você tem contrapartidas.

Porque o governo da Arábia Saudita é famoso no mundo por distribuir presentes.

Não nesse valor.

Pelo menos para chefe de Estado e primeira dama, são sempre valores muito menores.

É mais simbólico.

Está mais para os 400 mil reais que o Bolsonaro embolsou,

que eu não sei se poderia, tenho dúvidas, acho que não.

Nós não queremos nada disso, nem um prato de quibe, nada.

Nem queremos.

Agora, se investigar qual é a relação do governo saudita com o Bento Albuquerque,

a Petrobras e esses negócios todos.

Porque, obviamente, isso daí não foi de graça.

Não existe almoço grátis ou não existe diamante grátis.

Exatamente.

Prossiga.

Vou prosseguir essa cronologia que o Toledo começou fazendo,

exatamente um mês depois da tentativa de entrada dos 16,5 milhões de reais em diamantes do Bento Albuquerque.

Em 25 de novembro de 2021, o ministro dos negócios estrangeiros da Arábia Saudita,

o príncipe Faisal Bin Farhan Al Saud, vem ao Brasil.

E é recebido com pompa no Itamaraty pelo chanceler, então chanceler brasileiro, Carlos França.

Eles se encontram a portas fechadas, tem outros ministros também reunidos.

Na saída, o Carlos França dá uma coletiva de imprensa, uma entrevista junto com o saudita,

dizendo que Bolsonaro poderia voltar à Arábia Saudita no primeiro semestre de 2022.

Lembrando que Bolsonaro esteve no país assim que assumiu a presidência.

E o Carlos França diz ainda que o Brasil propôs a eles criar um fundo de investimento

para o desenvolvimento de produtos de defesa e estreitar a cooperação de tecnologia desta área da defesa.

Tinham acabado de voltar dos Emirados, a Árabes Unidas, Bahrein e Catar,

tanto o França quanto o próprio Bolsonaro, o então secretário de Assuntos Estratégicos Flávio Rocha

e os filhos do presidente Eduardo e Flávio.

Nessas ocasiões, em mais de uma ocasião, mas então recentemente naquele último périplo pelo Oriente Médio,

Bolsonaro usou argumentos que são considerados um tanto quanto desastrosos por diplomatas

para justificar a prioridade que ele sempre deu desde que assumiu as relações com esses países árabes.

Em vez de adotar a região geográfica como critério, que é a praxe no Itamaraty,

que é a praxe da diplomacia, portanto dizer que faz negócio com o Oriente Médio, por exemplo,

ele nos seus discursos dizia que estava fazendo parcerias com os países árabes.

Acontece que, por exemplo, o Oriente Médio inclui países não árabes, como Turquia e quando você negocia,

não porque eles são árabes, mas porque eles estão em determinada localização.

E os países árabes, muito pelo contrário, incluem países no norte da África.

E ele usa esse argumento para dizer que o mercado árabe era o maior mercado para produtos brasileiros

atrás da China e dos Estados Unidos.

Então ele pega 22 países, une num bloco que não existe, formalmente, ignora a União Europeia,

que se fosse para comparar com o bloco teria que ser comparado com a União Europeia,

mas ele compara o mercado árabe com dois países sozinhos.

Comparou banana com maçã é um desastre para relações internacionais.

Um dos países que ele visitou e priorizou, abriu embaixada, é o Bahrein, que é o inferninho da Arábia Saudita,

que é um país que está a uma ponte de distância da Arábia Saudita,

que se tornou um destino frequente do Eduardo Bolsonaro.

Ele esteve pelo menos três vezes no Bahrein durante o governo do pai,

uma delas em março de 2022, ou seja, no semestre que o Carlos França disse que o Bolsonaro queria voltar à Arábia Saudita,

Bolsonaro não voltou.

O Eduardo Bolsonaro estava no Marrocos com a família, sozinho foi para o Bahrein,

quer dizer, pegou mais 12 horas de voo, dispensou ajuda diplomática, não publicou nada em rede social,

o que é bem incomum para os padrões do Eduardo Bolsonaro, ficou lá menos de 24 horas e voltou para o Brasil em seguida.

Tudo isso é muito esquisito e muito mal explicado, mas tem uma coisa que talvez seja a mais esquisita de todas, que é o seguinte,

um presidente da República, ou uma comitiva presidencial, quando viaja em avião da FAB,

e o Bento Albuquerque é um almirante, então ele sabe disso bem melhor do que eu,

quando eles voltam, eles pousam na base aérea de Brasília, eles não pousam no aeroporto, eles não passam pelo raio-x.

O presidente da República não é inspecionado pela receita quando ele chega,

se ele tem na mochila um chocolate Lindt ou se ele tem na mochila um Rolex, ninguém sabe.

Mal os ministros são inspecionados.

O Bolsonaro já tinha estado na Arábia Saudita em 2019, pousou e não passou pelo raio-x.

Por algum motivo, a monarquia saudita queria muito que Bolsonaro voltasse para a Arábia Saudita em 2022,

mandou junto com o almirante Bento Albuquerque essas caixas de joias,

e mandou um mês depois um ministro vir aqui reiterar o convite, estreitar relações de cooperação na área da defesa,

o Bento Albuquerque passou pelo raio-x na sua volta, o que é muito esquisito que ele tenha feito isso

e que o estojo mais caro de joias tenha ficado na mochila de um assessor,

cuja carterada vale bem menos do que a carterada do próprio ministro.

Então essas coisas todas são, como eu ouvi de um ministro do judiciário, muito tabajara,

e é tudo muito mal explicado.

O governo Bolsonaro estabeleceu uma relação com esses países que, de nenhum ponto de vista,

faz sentido para o Brasil, para os interesses nacionais.

A pergunta que eu faço, Thais, é a seguinte,

será que a União Europeia, que foi preterida, não sei se compara as coisas que você bem lembrou,

da CHOPAR para os seus dignatários visitantes?

Bom, muitas dúvidas.

Primeiro, muitas evidências e essa caracterização de provável suborno,

mas, pelo que vocês relataram, há muita coisa ainda para se descobrir, né?

Coisas boas e coisas novas, digamos assim.

Tem uma outra coisa, que é a evidência, Fernando, que são auto-incriminatórias.

Primeiro é que o Bolsonaro mentiu no sábado ao se referir a esse caso lá nos Estados Unidos,

onde ele está fugido.

Ele disse que não sabia disso, que não sabia da existência desse negócio,

que está sendo crucificado.

Não só sabia, como pediu para o secretário da Receita Federal interceder para reaver as joias.

Ele mentiu, de novo.

Por que você mente sobre isso, se você não tem culpa no cartório?

E as redes bolsonaristas, segundo o levantamento aqui da Arquimedes,

estão fazendo o que elas podem para mudar de assunto.

Só estão falando de aumento do preço da gasolina.

E sobre esse assunto elas se omitem, porque elas perdem de lavada, obviamente.

Não tem como defender que a Michelle...

E eu desconfio que a Michelle não tenha nada a ver com essa história, né?

Sinceramente.

Acho que é o Pilatos do credo nessa história.

Ela tem pelo menos do ponto de vista político, porque é o seguinte.

Foi um desastre para o Bolsonaro politicamente.

Ele ia voltar para o Brasil em meados de março.

O Flávio inclusive postou e depois apagou.

Mas antes disso, ele adiou esse retorno.

E foi antes da postagem, porque eu apurei isso na segunda-feira.

Ele já tinha pedido para os seguranças que o acompanham como ex-presidente nos Estados Unidos,

ele já tinha feito um pedido à Casa Civil para que eles ficassem pelo menos até o final de março.

Então ele já tinha adiado a volta dele.

O 8 de março, dia da mulher que o PL estava pretendendo fazer um grande tour da Michelle,

uma grande estreia da Michelle,

ela acabou tendo que fazer um videozinho gravado por Zoom.

E daí ela fala assim, já estou sentindo cheiro de pão de queijo.

Vamos conversar com fulaninha de tal em Belo Horizonte.

Coitada.

Ela ia rodar o Brasil, comer pão de queijo de verdade.

E depois acabou tendo que sentir cheiro de pão de queijo pelo computador.

Então teve um problema, um desastre.

Não, não estou discutindo isso, você tem toda razão.

A Michelle foi para o espaço, foi para as Arábias,

o plano de transformar a Michelle em candidata.

Mas o problema é, quem garante que essas joias eram para a Michelle?

Porque ela disse que não sabia de nada.

Um conjunto ficou guardado no Ministério das Minas e Energia durante um ano.

E o outro ficou na Receita.

E o cara só vai tentar reaver na véspera de fugir para os Estados Unidos?

Talvez a Michelle nem soubesse mesmo.

Não, não, claro.

Só derivei para um assunto político porque eu acho importante, inclusive.

E acho que esse caso, de novo, revela os métodos, ou a falta deles,

do Bolsonaro e do bolsonarismo. Por quê?

Ele conversa na terça-feira, ou alguém dele conversa na terça-feira

com o advogado que passou a representá-lo no Supremo, Marcelo Bessa.

Eles fazem uma conversa sobre que linha de defesa vão atuar.

Ninguém dá retorno nenhum. Passa horas.

O ASEF, como você já mencionou na abertura, Fernando,

solta uma nota para defender o Bolsonaro.

Ninguém tinha dito para o Marcelo Bessa que ia ser ele ou que não ia.

Ele estava sendo anunciado pelo partido como o advogado do Bolsonaro nessa causa.

E o Bolsonaro decide, escala um advogado que é investigado,

que precisa ele próprio se defender, para defender o Bolsonaro.

Politicamente, para encerrar, a avaliação no PL, no entorno do Valdemar,

que se faz, é que o Bolsonaro está lascado com essas investigações.

Tudo isso é muito ruim para ele judicialmente.

Politicamente, nem tanto.

Para eles, é menos importante as consequências jurídicas das estripulias do Bolsonaro.

Eles continuam considerando que o Bolsonaro é fundamental

para fazer prefeitura na próxima eleição e bancada na seguinte.

E a Michelle vai continuar trazendo expectativa de voto para essa turma,

na opinião do PL.

A pergunta que fica é por que Bolsonaro, Michelle, ministro e Companhia Limitada

ficaram silenciosos durante um ano e só foram correr atrás dessas joias depois da eleição?

É porque, obviamente, eles tinham medo que o escândalo viesse a público durante a eleição

e prejudicasse o Bolsonaro, porque ele sabe que fez algo errado.

Ele sabe que se apropriou de joias que não são dele e sabe, pior ainda,

que essas joias que supostamente eram para Michelle tinham outra finalidade.

Bom, muito bem. Vamos encerrar o primeiro bloco.

No segundo, a gente vai falar do Juscelino, que não é o Kubitschek,

que permanece no governo Lula.

A gente já volta.

Bolsonaro pode ter sido derrotado nas urnas,

mas a extrema-direita continua forte no Brasil.

O Congresso está ainda mais conservador e não vai ser fácil avançar,

especialmente para as mulheres e para outras minorias.

Mas essa não é a primeira briga que elas compram.

O que as mulheres, que mudaram a cara da nossa democracia,

podem nos ensinar sobre os desafios de hoje?

Ouça o podcast Jogo de Cartas, um original da Deezer,

produzido pela Rádio Novelo em parceria com o Instituto Update.

Jogo de Cartas

Muito bem, Thaís Bilenk, vamos começar o segundo bloco com você.

Esse episódio envolvendo o ministro das Comunicações

mostra várias coisas, né?

Conivência do governo com esse tipo de prática, que é ilegal,

houve clara irregularidade, e mostra a dificuldade do Lula

e do governo para se arrumar no Congresso.

Como é que vão ser as coisas daqui para frente?

Como, né, Fernando?

Como?

Como? Bom, só voltando rapidamente, semana passada,

a Glaise Hoffmann, presidente do PT, defendeu o afastamento dele,

e na sexta-feira ainda, quando o caso ainda estava mais quente,

estavam as revelações quentes ainda, um ministro do governo,

o Lula, me disse, usou o argumento assim,

bom, ela vai defender a mesma coisa, vai defender afastamento,

se o ministro que estiver sendo o alvo é petista,

exatamente o argumento que a União Brasil usou depois

para defender o Juscelino, que não é o Kubitschek.

E esse mesmo ministro, minimizando a importância desse escândalo,

porque ele diz assim, olha só, diárias,

os assessores pedem automaticamente para o sistema,

quando o ministro vai viajar, a gente que tem que tomar a iniciativa

de dizer que não precisa de diária, enfim, essa, como você chamou,

conivência com essas práticas, e também porque, por exemplo,

uma das acusações que pesam contra o Juscelino é que ele usou

o orçamento secreto para asfaltar a estrada que passa pela fazenda dele,

o problema do governo é que se for criar problema com todo mundo

que usou o orçamento secreto para alguma coisa que não é exatamente republicana,

o governo aí que não vai ter base de apoio no Congresso mesmo.

O governo Lula deu sorte porque o escândalo do diamante acabou abafando esse caso,

mas essa semana no Congresso, tudo girava em torno da constatação

de que o governo está com uma base bastante incipiente de apoio.

E a história do Juscelino ajudou a desorganizar.

O Lula precisou dar uma enquadrada no próprio PT,

que estava fazendo pressão contra o Juscelino, segundo eu apurei,

ele conversou com a Gleisi Hoffmann dizendo que se fosse para criticar o governo,

seria bom ela falar antes com alguém do governo,

porque ela também disse que o Alexandre Silveira,

ministro de Minas e Energia, tinha traído o Lula com as indicações

de diretoria da Petrobras e o governo sabia quais eram as indicações

do Alexandre Silveira, depois ela disse que reuneirá combustível

era estelionato eleitoral, mas também de novo o governo optou por essa medida.

Então primeiro ele precisou dar uma reorganizada no próprio partido

e depois ajudou a acirrar os ânimos com os aliados ou pretensos aliados,

porque o Juscelino, uma indicação do Davi Alcolumbre,

o Davi Alcolumbre é o senador que é o número 2 do Rodrigo Pacheco,

presidente do Senado, ele não traz voto para o governo na Câmara,

onde o Elmar Nascimento está insatisfeito com os espaços que o governo cedeu a ele.

O Elmar Nascimento do União Brasil da Bahia,

ele reclamou das críticas que o PT estava fazendo ao Juscelino,

mas também não dá voto porque diz que o Juscelino não representa a bancada.

Então tem toda uma dificuldade aí de o governo ter lealdade desses deputados.

Quem está por trás disso é o Arthur Lira, presidente da Câmara,

que está tentando fazer uma federação com a União Brasil,

ele é do PP, do Progressistas, mas o Elmar Nascimento é um aliadíssimo dele de primeira hora.

Então a questão toda é, como disse o Círio Nogueira ontem na quarta-feira,

o Arthur Lira não deve nada ao Lula, a reeleição dele como presidente da Câmara estava garantida,

o que o governo fez foi não atrapalhar, não lançar um concorrente,

porque tinha medo que isso depois virasse alguma retaliação,

mas que se o governo tentasse pôr a PEC da transição agora para votar em plenário,

ele obviamente não conseguiria, que o Arthur Lira não vai fazer as vezes de líder do governo

como fez no governo Bolsonaro e que ainda por cima o Lula,

segundo o entendimento do Círio Nogueira, o Lula abriu mão do poder que ele poderia ter

sobre o Congresso ao transformar metade do orçamento secreto em emenda impositiva,

que não depende do governo para ser executada.

O que se tira de tudo isso? E aí agora citando líderes do governo do PT,

portanto não da oposição como o Círio Nogueira, existe uma disputa sonora

entre o Arthur Lira e o Pacheco por protagonismo no Congresso,

se o texto da reforma tributária que vai ser tramitado vai ser o do Senado ou se vai ser o da Câmara,

se medida provisória vai ser comissão mista ou vai ser sem comissão,

é assim, um tanto de coisa técnica de quem vive no dia a dia do Congresso que eles estão disputando

e tudo começou na própria eleição deles próprios para se reelegerem presidentes de uma casa e de outra

porque eles tinham um acordo entre eles que um ajudaria o outro, o Arthur Lira ficou com tudo

e o Pacheco suou frio ali com a candidatura do Rogério Marinho.

Tem essa questão das CPIs agora que talvez nem todo mundo que acompanha muito o dia a dia do Congresso entende.

Por que o governo não quer de jeito nenhum a instalação da CPI do 8 de janeiro?

O Randolph Rodrigues, líder do governo no Senado, diz que essa CPI do 8 de janeiro serviria para obstruir as investigações

e mais que isso, ela serviria de holofote para a oposição.

Aí, o que eles fazem? Eles já estão articulando outras 5 CPIs na Câmara contra o bolsonarismo,

a CPI da Joia, a CPI disso, daquilo, daquilo outro, tudo para mostrar que na verdade essa base de apoio


#243: Os diamantes de Bolsonaro - Part 1 #243: Die Diamanten von Bolsonaro - Teil 1 #243: The Diamonds of Bolsonaro - Part 1 #243: ボルソナロのダイヤモンド - 前編

Rádio Piauí.

Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Terezina,

o podcast de política da revista Piauí.

Eu quero dizer o seguinte, dependendo de onde eu esteja,

tem que ter o ato de licitação do mercado livre,

que é uma incorporação.

Não terei nem como liberar, mesmo que eu pudesse,

não terei como liberar. Não estou sabendo.

Eu, Fernando de Barros e Silva, na minha casa em São Paulo,

tenho o prazer de conversar com o meu amigo José Roberto de Toledo,

aqui pertinho. E hoje não vai ter roupa, Toledo.

Hoje é tudo joia, Toledo.

Salam Aleikum, Fernando.

Me perguntam também sobre o meu patrimônio. They also ask me about my assets.

E eu explico. Desde sempre declaro todos os meus bens

na minha declaração de imposto de renda,

inclusive os meus cavalos.

E Thaís Bilenk, que está em Brasília.

Salve, salve! Tudo joinha, Thaís Bilenk?

Tudo joinha, Fernando. Tudo joinha.

Eu falei que ia arrancar risada da Thaís Bilenk,

ela falou, hoje eu duvido.

Hoje nunca duvide, Thaís. Never doubt today, Thaís.

Mulheres sem resistência contra o trabalho estravo!

Mulheres sem resistência contra o trabalho estravo!

Bom, antes de ir para os assuntos da semana,

um recado para vocês.

Nós faremos uma live do foro no dia 20 de março,

a outra segunda-feira, às 7 da noite,

para os assinantes da Piauí.

A gente vai falar desses quase três primeiros meses de governo,

responder perguntas de vocês,

enfim, fazer a nossa baguncinha organizada,

ou nem tão organizada, de sempre.

Vamos então aos assuntos da semana.

No primeiro bloco, a gente fala do escândalo das joias

envolvendo o casal Bolsonaro e o governo da Arábia Saudita.

Ficamos sabendo no final da semana passada,

por uma reportagem do Estadão, by an Estadão report,

que Bolsonaro tentou resgatar diversas vezes na alfândega brasileira

um kit com colar, brincos, anel e relógio de diamantes,

tudo avaliado em R$ 16,5 milhões.

O mimo, destinado à então primeira-dama Michele,

que de Micheque evoluiu para Miamantes,

era um presente do governo saudita trazido ao Brasil

pela comitiva do então ministro das Minas e Energia,

Almirante Bento Albuquerque, em outubro de 2021.

Um presente das Arábias, literalmente,

para as ardas Bolsonaro, ficou retido na fiscalização.

Retido apesar da carteirada do Almirante Bento,

no dia da apreensão e de pelo menos oito tentativas de burlar a lei,

a última delas em 29 de dezembro do ano passado,

um dia antes da ida de Bolsonaro para os Estados Unidos.

Quando um sargento da Marinha viajou de Brasília a Guarulhos,

num avião da FAB, para tentar liberar o kit Arábia,

em caráter de urgência.

Como se sabe, o kit destinado à Michele não rolou,

mas outro pacote, incluindo relógio, anel, caneta,

um rosário e abotoaduras,

tudo também da marca suíça Chopar,

avaliado no mínimo em R$ 400 mil,

isso tudo passou batido pela Receita Federal

e foi incorporado ao patrimônio pessoal de Bolsonaro.

Podemos imaginar o que ele fez com as abotoaduras,

se deu de presente para Queiroz,

uma para Queiroz e outra para o ASEF,

o advogado de filme de terror,

ou ainda se comeu os objetos de ouro misturado no leite condensado.

O que se sabe é que neste angu tem caroço.

A gente vai discutir o que já se conhece

e os mistérios ou as dúvidas que ainda cercam este caso reluzente.

No segundo bloco deixamos a estátua do cavalo dourado que veio da Arábia,

tinha isso também,

e vamos falar de outro cavalo, o Rochão,

que coitado não tem culpa no cartório

por ter sido homenageado pelo ministro Juscelino Filho

na inauguração de uma praça.

Rochão, vejam só, propriedade de um sócio de Juscelino,

que viajou em avião da FAB, não o Rochão, mas o Juscelino,

até São Paulo em caráter urgente

e dedicou quase todo o tempo de sua agenda,

custeada com dinheiro público,

para cuidar de assuntos privados relacionados à criação e comercialização de cavalos.

Juscelino, que não é titulado Ministério do Pasto,

esse Lula ainda não criou,

mas das comunicações foi mantido no governo

depois de conversar com o presidente.

É um caso exemplar de sacrifício da moralidade

em benefício da chamada governabilidade no Congresso,

já que o partido do ministro, União Brasil,

tem 59 votos na Câmara e mais 9 no Senado,

e o governo luta para não perdê-los nas votações importantes.

A gente vai discutir como está tudo isso.

Por fim, no terceiro bloco,

o nosso assunto é a exploração do trabalho escravo,

ou análogo à escravidão, no Brasil atual.

Vieram à tona nas últimas semanas casos escabrosos,

entre eles o de maior repercussão de Bento Gonçalves,

no Rio Grande do Sul,

no qual mais de 200 trabalhadores foram resgatados de um alojamento

onde eram submetidos a condições degradantes durante a colheita da uva.

Privados de liberdade, explorados financeiramente

e vítimas de violência física.

Muitos eram identificados como baianos

e alguns haviam sido, eu ia dizer punidos,

mas a palavra é torturados, com choques elétricos.

Eles eram contratados por uma empresa que oferecia mão de obra

para as vinícolas Aurora, Cooperativa Garibaldi e Salton.

Nessa semana, 32 trabalhadores rurais foram resgatados

pelo Ministério Público do Trabalho

em situação análoga à escravidão

em uma fazenda no interior de São Paulo.

Fazenda que fornecia cana-de-açúcar

à Colombo Agroindústria, fabricante da marca Caravelas.

Os canavieiros trazidos do interior de Minas

pagaram pelas próprias passagens,

sofreram privação alimentar,

não receberam os salários combinados

e parte deles foi alojada em um açougue, isso mesmo.

Segundo o levantamento do Ministério Público do Trabalho,

o total de denúncias de pessoas trabalhando em condições análogas

a de escravizados é o maior desde 2012.

Bem-vindo ao país do futuro, querido ouvinte.

É isso, vem com a gente.

Muito bem, José Roberto de Toledo, eu fiz aqui um resumo...

Brilhante, eu diria.

Não, resumo precário.

Já sabendo ou apostando que você fará uma cronologia melhor

para explicar este escândalo e caracterizá-lo,

o escândalo dos diamantes.

Essa história, Fernando, começa em junho de 2019,

quando Bolsonaro tinha seis meses no cargo de presidente,

quando ele conhece o encontro, não sei se pela primeira vez,

mas é um encontro significativo com o MBS,

que é o homem forte do regime saudita,

Mohammed Bin Salman, aquele do cachogue jornalista,

que foi morto esquartejado dentro da embaixada da Arábia Saudita na Turquia.

Pois bem, eles se conhecem lá no G20, no Japão,

e a partir daí desenvolve uma relação que Bolsonaro chamaria

como a de quase irmãos.

Logo em seguida, no dia 29 de outubro de 2019,

o Bolsonaro assinou um acordo com a Arábia Saudita

que previa investimentos de 10 bilhões de dólares

do Fundo de Investimento Público Saudita no Brasil,

principalmente em infraestrutura e energia, petróleo.

O tempo passa e, no dia 25 de outubro de 2021,

a comitiva do ministro Bento Albuquerque,

que estava deixando o hotel na Arábia Saudita de volta ao Brasil,

depois de uma viagem de negócios,

quando recebe de um emissário do governo saudita

pelo menos duas remessas de joias muito caras.

Uma, como você já disse, supostamente endereçada ao Bolsonaro,

que tinha ali abotoaduras, caneta, que não era bique,

anel, relógio de ouro, um rosário,

tudo isso estimado em mais ou menos 400 mil reais,

e a outra, muito mais valiosa, com colares e brincos de diamantes

avaliados em 3 milhões de euros,

o que, como você disse, dá 16,5 milhões de reais.

Exatamente no mesmo dia 25, onde estava Bolsonaro?

Pergunto eu, e eu mesmo respondo, baseado em reportagem

dos valorosos e brilhantes Adriana Fernandes e André Borges,

repórteres do Estadão.

No mesmo dia, Bolsonaro almoçava onde?

Na casa do embaixador da Arábia Saudita no Brasil, em Brasília.

E ali fazia uma reunião junto com outros dignatários

ou diplomatas dos países do Golfo,

e na pauta do almoço estava a venda da refinaria Landolfo Alves,

na Bahia, pela Preto Brás, para Mubadala Capital,

que é uma empresa de investimento dos Emirados Árabes,

pela bagatela de 1 bilhão e 800 milhões de dólares.

Então você vê que são negócios bilionários.

Aí é bagatela mesmo, porque a avaliação diz que a refinaria

valia muito mais do que isso.

Exatamente, é uma bagatela, não é uma força de expressão,

nem um trocadilho infame, é a expressão da realidade,

e é uma refinaria estratégica.

Bom, no dia seguinte, a comitiva do Bento Albuquerque

desembarca no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo,

um dos conjuntos de joias passa batido pela Receita,

como você já falou, mas outro, os fiscais da Receita

pedem para o auxiliar do ministro Bento Albuquerque,

o Márcio André dos Santos Soeiro, passar com a bagagem pelo Raio-X.

E no Raio-X, descobre-se dentro da mochila do Marcos André,

esse conjunto milionário de joias que, supostamente,

eram para Michelle e Bolsonaro.

Como é que a Receita mandou o cara passar pelo Raio-X?

Porque o Bento Albuquerque, almirante Bento Albuquerque,

como ministro das Minas e Energia, fez pelo menos 26 viagens ao exterior

em três anos e cinco meses como ministro.

É quase uma viagem para fora a cada mês e meio.

A gente pode imaginar que tem muita botuadura por aí, Toledo.

O cara visitou Estados Unidos, Áustria, França, Espanha, Israel,

os Estados Árabes, Rússia, Inglaterra, Rússia duas vezes, Índia duas vezes.

Pode ser que ele seja colecionador de suveniros, por exemplo.

É, eu acho, provavelmente.

E daí descobre-se esse conjunto milionário na mochila.

Todos eram militares, o assessor também era militar.

Só aí você já tem algumas ilegalidades.

A primeira dela é que o ministro não declarou a Receita Federal

como era obrigatório declarar, especialmente se tratando de um ministro de Estado,

as joias da Receita.

Porque você não pode entrar na fila do nada a declarar

se você tem 16 milhões e meio de reais na sua mochila.

Você tem que declarar que você está trazendo aquilo ali.

E aí, diamante. Diamante, vamos lembrar, é a coisa mais fácil de você comercializar ilegalmente.

Porque é muito difícil de você verificar procedência, enfim.

E é muito pequenininho e fácil de transportar.

Bom, aí vem a segunda ilegalidade,

que é a carterada do ministro das Minas e Energia,

querendo liberar a Namarra, os brilhantes,

dizendo que aquilo era destinado à primeira dama.

E aí o fiscal da Receita, o auditor da Receita, é muito firme e correto

dizendo que não, não é assim que as coisas funcionam.

Se isso vai ser incorporado ao patrimônio da União,

isso tem que ser declarado e tem que ir para o patrimônio da União

e tem um documento que registra a entrada dessas joias

que vai para o patrimônio da União.

Agora, isso que você está querendo fazer é incorporar o patrimônio privado do Bolsonaro.

Para fazer isso, você tem que pagar imposto.

E esse imposto não é barato.

É uma multa de 50% do valor de tudo que exceder mil dólares.

Tem 16,5 milhões de reais e ia pagar mais do que o Bolsonaro diz que tem, né?

Oficialmente, pelo menos.

E aí, Fernando, tem um outro aspecto, o Hélio Gaspari levanta na coluna dele de quarta-feira,

que é muito importante.

Esses presentes oficiais, esses presentes dados por dignatários estrangeiros

a autoridades brasileiras ou autoridades de qualquer parte do mundo,

eles têm um protocolo.

Você registra isso, você fotografa, você cria uma cerimônia pública,

você manda, no mínimo, uma carta para a destinatária dizendo

olha, Michelle, pelos seus belos olhos, aqui vão 16,5 milhões de reais para você.

Não, não teve carta, não teve bilhete, não teve foto e teve uma tentativa de passar incógnito.

É contrabando que chama isso daí, né?

Então, isso pode caracterizar suborno.

O presidente da república está discutindo com os caras para vender uma refinaria da Petrobras

no mesmo dia que o cara entrega 16,5 milhões de reais em joias não declaradas a um emissário.

Porque aqui ninguém está preso ainda.

Me explica alguém, por favor.

Não bastasse isso, o Bento Albuquerque, porque é um conjunto de atrapalhadas, né?

Parece coisa dos trapalhões, parece comédia, parece traje cômico, né?

A pergunta que fica é se a caxtocracia sofre de cleptomania.

Veja só, ele liga para o embaixador da Arábia Saudita nos dias subsequentes,

fala com o chanceler e tenta resolver a questão, não consegue.

No mês de 2021, o Bolsonaro liga ou recebe ligação do secretário da Receita Federal

para tentar que o secretário da Receita Federal convencesse seus subordinados a liberar joias.

Manda o seu 007, o coronel Cid, o ajudante de ordens que está segurando a pasta do Bolsonaro

em tudo quanto é foto com o dignatário estrangeiro,

mandar um ofício para a Receita para tentar liberar joias,

para incorporar o patrimônio pessoal dele ou da Michelle.

Não consegue e daí, na véspera de voar para os Estados Unidos fugido,

ele manda um sargento ao aeroporto de Guarulhos

para tentar, na pressão direta pessoal, arrancar as joias do cofre da Receita,

para levar com ele, para sabe-se lá para onde, né?

Então, Fernando, você tem vários crimes aí.

Você tem contrabando, você tem apropriação indébita de patrimônio público,

você tem possível subordo, porque você tem contrapartidas.

Porque o governo da Arábia Saudita é famoso no mundo por distribuir presentes.

Não nesse valor.

Pelo menos para chefe de Estado e primeira dama, são sempre valores muito menores.

É mais simbólico.

Está mais para os 400 mil reais que o Bolsonaro embolsou,

que eu não sei se poderia, tenho dúvidas, acho que não.

Nós não queremos nada disso, nem um prato de quibe, nada.

Nem queremos.

Agora, se investigar qual é a relação do governo saudita com o Bento Albuquerque,

a Petrobras e esses negócios todos.

Porque, obviamente, isso daí não foi de graça.

Não existe almoço grátis ou não existe diamante grátis.

Exatamente.

Prossiga.

Vou prosseguir essa cronologia que o Toledo começou fazendo,

exatamente um mês depois da tentativa de entrada dos 16,5 milhões de reais em diamantes do Bento Albuquerque.

Em 25 de novembro de 2021, o ministro dos negócios estrangeiros da Arábia Saudita,

o príncipe Faisal Bin Farhan Al Saud, vem ao Brasil.

E é recebido com pompa no Itamaraty pelo chanceler, então chanceler brasileiro, Carlos França.

Eles se encontram a portas fechadas, tem outros ministros também reunidos.

Na saída, o Carlos França dá uma coletiva de imprensa, uma entrevista junto com o saudita,

dizendo que Bolsonaro poderia voltar à Arábia Saudita no primeiro semestre de 2022.

Lembrando que Bolsonaro esteve no país assim que assumiu a presidência.

E o Carlos França diz ainda que o Brasil propôs a eles criar um fundo de investimento

para o desenvolvimento de produtos de defesa e estreitar a cooperação de tecnologia desta área da defesa.

Tinham acabado de voltar dos Emirados, a Árabes Unidas, Bahrein e Catar,

tanto o França quanto o próprio Bolsonaro, o então secretário de Assuntos Estratégicos Flávio Rocha

e os filhos do presidente Eduardo e Flávio.

Nessas ocasiões, em mais de uma ocasião, mas então recentemente naquele último périplo pelo Oriente Médio,

Bolsonaro usou argumentos que são considerados um tanto quanto desastrosos por diplomatas

para justificar a prioridade que ele sempre deu desde que assumiu as relações com esses países árabes.

Em vez de adotar a região geográfica como critério, que é a praxe no Itamaraty,

que é a praxe da diplomacia, portanto dizer que faz negócio com o Oriente Médio, por exemplo,

ele nos seus discursos dizia que estava fazendo parcerias com os países árabes.

Acontece que, por exemplo, o Oriente Médio inclui países não árabes, como Turquia e quando você negocia,

não porque eles são árabes, mas porque eles estão em determinada localização.

E os países árabes, muito pelo contrário, incluem países no norte da África.

E ele usa esse argumento para dizer que o mercado árabe era o maior mercado para produtos brasileiros

atrás da China e dos Estados Unidos.

Então ele pega 22 países, une num bloco que não existe, formalmente, ignora a União Europeia,

que se fosse para comparar com o bloco teria que ser comparado com a União Europeia,

mas ele compara o mercado árabe com dois países sozinhos.

Comparou banana com maçã é um desastre para relações internacionais.

Um dos países que ele visitou e priorizou, abriu embaixada, é o Bahrein, que é o inferninho da Arábia Saudita,

que é um país que está a uma ponte de distância da Arábia Saudita,

que se tornou um destino frequente do Eduardo Bolsonaro.

Ele esteve pelo menos três vezes no Bahrein durante o governo do pai,

uma delas em março de 2022, ou seja, no semestre que o Carlos França disse que o Bolsonaro queria voltar à Arábia Saudita,

Bolsonaro não voltou.

O Eduardo Bolsonaro estava no Marrocos com a família, sozinho foi para o Bahrein,

quer dizer, pegou mais 12 horas de voo, dispensou ajuda diplomática, não publicou nada em rede social,

o que é bem incomum para os padrões do Eduardo Bolsonaro, ficou lá menos de 24 horas e voltou para o Brasil em seguida.

Tudo isso é muito esquisito e muito mal explicado, mas tem uma coisa que talvez seja a mais esquisita de todas, que é o seguinte,

um presidente da República, ou uma comitiva presidencial, quando viaja em avião da FAB,

e o Bento Albuquerque é um almirante, então ele sabe disso bem melhor do que eu,

quando eles voltam, eles pousam na base aérea de Brasília, eles não pousam no aeroporto, eles não passam pelo raio-x.

O presidente da República não é inspecionado pela receita quando ele chega,

se ele tem na mochila um chocolate Lindt ou se ele tem na mochila um Rolex, ninguém sabe.

Mal os ministros são inspecionados.

O Bolsonaro já tinha estado na Arábia Saudita em 2019, pousou e não passou pelo raio-x.

Por algum motivo, a monarquia saudita queria muito que Bolsonaro voltasse para a Arábia Saudita em 2022,

mandou junto com o almirante Bento Albuquerque essas caixas de joias,

e mandou um mês depois um ministro vir aqui reiterar o convite, estreitar relações de cooperação na área da defesa,

o Bento Albuquerque passou pelo raio-x na sua volta, o que é muito esquisito que ele tenha feito isso

e que o estojo mais caro de joias tenha ficado na mochila de um assessor,

cuja carterada vale bem menos do que a carterada do próprio ministro.

Então essas coisas todas são, como eu ouvi de um ministro do judiciário, muito tabajara,

e é tudo muito mal explicado.

O governo Bolsonaro estabeleceu uma relação com esses países que, de nenhum ponto de vista,

faz sentido para o Brasil, para os interesses nacionais.

A pergunta que eu faço, Thais, é a seguinte,

será que a União Europeia, que foi preterida, não sei se compara as coisas que você bem lembrou,

da CHOPAR para os seus dignatários visitantes?

Bom, muitas dúvidas.

Primeiro, muitas evidências e essa caracterização de provável suborno,

mas, pelo que vocês relataram, há muita coisa ainda para se descobrir, né?

Coisas boas e coisas novas, digamos assim.

Tem uma outra coisa, que é a evidência, Fernando, que são auto-incriminatórias.

Primeiro é que o Bolsonaro mentiu no sábado ao se referir a esse caso lá nos Estados Unidos,

onde ele está fugido.

Ele disse que não sabia disso, que não sabia da existência desse negócio,

que está sendo crucificado.

Não só sabia, como pediu para o secretário da Receita Federal interceder para reaver as joias.

Ele mentiu, de novo.

Por que você mente sobre isso, se você não tem culpa no cartório?

E as redes bolsonaristas, segundo o levantamento aqui da Arquimedes,

estão fazendo o que elas podem para mudar de assunto.

Só estão falando de aumento do preço da gasolina.

E sobre esse assunto elas se omitem, porque elas perdem de lavada, obviamente.

Não tem como defender que a Michelle...

E eu desconfio que a Michelle não tenha nada a ver com essa história, né?

Sinceramente.

Acho que é o Pilatos do credo nessa história.

Ela tem pelo menos do ponto de vista político, porque é o seguinte.

Foi um desastre para o Bolsonaro politicamente.

Ele ia voltar para o Brasil em meados de março.

O Flávio inclusive postou e depois apagou.

Mas antes disso, ele adiou esse retorno.

E foi antes da postagem, porque eu apurei isso na segunda-feira.

Ele já tinha pedido para os seguranças que o acompanham como ex-presidente nos Estados Unidos,

ele já tinha feito um pedido à Casa Civil para que eles ficassem pelo menos até o final de março.

Então ele já tinha adiado a volta dele.

O 8 de março, dia da mulher que o PL estava pretendendo fazer um grande tour da Michelle,

uma grande estreia da Michelle,

ela acabou tendo que fazer um videozinho gravado por Zoom.

E daí ela fala assim, já estou sentindo cheiro de pão de queijo.

Vamos conversar com fulaninha de tal em Belo Horizonte.

Coitada.

Ela ia rodar o Brasil, comer pão de queijo de verdade.

E depois acabou tendo que sentir cheiro de pão de queijo pelo computador.

Então teve um problema, um desastre.

Não, não estou discutindo isso, você tem toda razão.

A Michelle foi para o espaço, foi para as Arábias,

o plano de transformar a Michelle em candidata.

Mas o problema é, quem garante que essas joias eram para a Michelle?

Porque ela disse que não sabia de nada.

Um conjunto ficou guardado no Ministério das Minas e Energia durante um ano.

E o outro ficou na Receita.

E o cara só vai tentar reaver na véspera de fugir para os Estados Unidos?

Talvez a Michelle nem soubesse mesmo.

Não, não, claro.

Só derivei para um assunto político porque eu acho importante, inclusive.

E acho que esse caso, de novo, revela os métodos, ou a falta deles,

do Bolsonaro e do bolsonarismo. Por quê?

Ele conversa na terça-feira, ou alguém dele conversa na terça-feira

com o advogado que passou a representá-lo no Supremo, Marcelo Bessa.

Eles fazem uma conversa sobre que linha de defesa vão atuar.

Ninguém dá retorno nenhum. Passa horas.

O ASEF, como você já mencionou na abertura, Fernando,

solta uma nota para defender o Bolsonaro.

Ninguém tinha dito para o Marcelo Bessa que ia ser ele ou que não ia.

Ele estava sendo anunciado pelo partido como o advogado do Bolsonaro nessa causa.

E o Bolsonaro decide, escala um advogado que é investigado,

que precisa ele próprio se defender, para defender o Bolsonaro.

Politicamente, para encerrar, a avaliação no PL, no entorno do Valdemar,

que se faz, é que o Bolsonaro está lascado com essas investigações.

Tudo isso é muito ruim para ele judicialmente.

Politicamente, nem tanto.

Para eles, é menos importante as consequências jurídicas das estripulias do Bolsonaro.

Eles continuam considerando que o Bolsonaro é fundamental

para fazer prefeitura na próxima eleição e bancada na seguinte.

E a Michelle vai continuar trazendo expectativa de voto para essa turma,

na opinião do PL.

A pergunta que fica é por que Bolsonaro, Michelle, ministro e Companhia Limitada

ficaram silenciosos durante um ano e só foram correr atrás dessas joias depois da eleição?

É porque, obviamente, eles tinham medo que o escândalo viesse a público durante a eleição

e prejudicasse o Bolsonaro, porque ele sabe que fez algo errado.

Ele sabe que se apropriou de joias que não são dele e sabe, pior ainda,

que essas joias que supostamente eram para Michelle tinham outra finalidade.

Bom, muito bem. Vamos encerrar o primeiro bloco.

No segundo, a gente vai falar do Juscelino, que não é o Kubitschek,

que permanece no governo Lula.

A gente já volta.

Bolsonaro pode ter sido derrotado nas urnas,

mas a extrema-direita continua forte no Brasil.

O Congresso está ainda mais conservador e não vai ser fácil avançar,

especialmente para as mulheres e para outras minorias.

Mas essa não é a primeira briga que elas compram.

O que as mulheres, que mudaram a cara da nossa democracia,

podem nos ensinar sobre os desafios de hoje?

Ouça o podcast Jogo de Cartas, um original da Deezer,

produzido pela Rádio Novelo em parceria com o Instituto Update.

Jogo de Cartas

Muito bem, Thaís Bilenk, vamos começar o segundo bloco com você.

Esse episódio envolvendo o ministro das Comunicações

mostra várias coisas, né?

Conivência do governo com esse tipo de prática, que é ilegal,

houve clara irregularidade, e mostra a dificuldade do Lula

e do governo para se arrumar no Congresso.

Como é que vão ser as coisas daqui para frente?

Como, né, Fernando?

Como?

Como? Bom, só voltando rapidamente, semana passada,

a Glaise Hoffmann, presidente do PT, defendeu o afastamento dele,

e na sexta-feira ainda, quando o caso ainda estava mais quente,

estavam as revelações quentes ainda, um ministro do governo,

o Lula, me disse, usou o argumento assim,

bom, ela vai defender a mesma coisa, vai defender afastamento,

se o ministro que estiver sendo o alvo é petista,

exatamente o argumento que a União Brasil usou depois

para defender o Juscelino, que não é o Kubitschek.

E esse mesmo ministro, minimizando a importância desse escândalo,

porque ele diz assim, olha só, diárias,

os assessores pedem automaticamente para o sistema,

quando o ministro vai viajar, a gente que tem que tomar a iniciativa

de dizer que não precisa de diária, enfim, essa, como você chamou,

conivência com essas práticas, e também porque, por exemplo,

uma das acusações que pesam contra o Juscelino é que ele usou

o orçamento secreto para asfaltar a estrada que passa pela fazenda dele,

o problema do governo é que se for criar problema com todo mundo

que usou o orçamento secreto para alguma coisa que não é exatamente republicana,

o governo aí que não vai ter base de apoio no Congresso mesmo.

O governo Lula deu sorte porque o escândalo do diamante acabou abafando esse caso,

mas essa semana no Congresso, tudo girava em torno da constatação

de que o governo está com uma base bastante incipiente de apoio.

E a história do Juscelino ajudou a desorganizar.

O Lula precisou dar uma enquadrada no próprio PT,

que estava fazendo pressão contra o Juscelino, segundo eu apurei,

ele conversou com a Gleisi Hoffmann dizendo que se fosse para criticar o governo,

seria bom ela falar antes com alguém do governo,

porque ela também disse que o Alexandre Silveira,

ministro de Minas e Energia, tinha traído o Lula com as indicações

de diretoria da Petrobras e o governo sabia quais eram as indicações

do Alexandre Silveira, depois ela disse que reuneirá combustível

era estelionato eleitoral, mas também de novo o governo optou por essa medida.

Então primeiro ele precisou dar uma reorganizada no próprio partido

e depois ajudou a acirrar os ânimos com os aliados ou pretensos aliados,

porque o Juscelino, uma indicação do Davi Alcolumbre,

o Davi Alcolumbre é o senador que é o número 2 do Rodrigo Pacheco,

presidente do Senado, ele não traz voto para o governo na Câmara,

onde o Elmar Nascimento está insatisfeito com os espaços que o governo cedeu a ele.

O Elmar Nascimento do União Brasil da Bahia,

ele reclamou das críticas que o PT estava fazendo ao Juscelino,

mas também não dá voto porque diz que o Juscelino não representa a bancada.

Então tem toda uma dificuldade aí de o governo ter lealdade desses deputados.

Quem está por trás disso é o Arthur Lira, presidente da Câmara,

que está tentando fazer uma federação com a União Brasil,

ele é do PP, do Progressistas, mas o Elmar Nascimento é um aliadíssimo dele de primeira hora.

Então a questão toda é, como disse o Círio Nogueira ontem na quarta-feira,

o Arthur Lira não deve nada ao Lula, a reeleição dele como presidente da Câmara estava garantida,

o que o governo fez foi não atrapalhar, não lançar um concorrente,

porque tinha medo que isso depois virasse alguma retaliação,

mas que se o governo tentasse pôr a PEC da transição agora para votar em plenário,

ele obviamente não conseguiria, que o Arthur Lira não vai fazer as vezes de líder do governo

como fez no governo Bolsonaro e que ainda por cima o Lula,

segundo o entendimento do Círio Nogueira, o Lula abriu mão do poder que ele poderia ter

sobre o Congresso ao transformar metade do orçamento secreto em emenda impositiva,

que não depende do governo para ser executada.

O que se tira de tudo isso? E aí agora citando líderes do governo do PT,

portanto não da oposição como o Círio Nogueira, existe uma disputa sonora

entre o Arthur Lira e o Pacheco por protagonismo no Congresso,

se o texto da reforma tributária que vai ser tramitado vai ser o do Senado ou se vai ser o da Câmara,

se medida provisória vai ser comissão mista ou vai ser sem comissão,

é assim, um tanto de coisa técnica de quem vive no dia a dia do Congresso que eles estão disputando

e tudo começou na própria eleição deles próprios para se reelegerem presidentes de uma casa e de outra

porque eles tinham um acordo entre eles que um ajudaria o outro, o Arthur Lira ficou com tudo

e o Pacheco suou frio ali com a candidatura do Rogério Marinho.

Tem essa questão das CPIs agora que talvez nem todo mundo que acompanha muito o dia a dia do Congresso entende.

Por que o governo não quer de jeito nenhum a instalação da CPI do 8 de janeiro?

O Randolph Rodrigues, líder do governo no Senado, diz que essa CPI do 8 de janeiro serviria para obstruir as investigações

e mais que isso, ela serviria de holofote para a oposição.

Aí, o que eles fazem? Eles já estão articulando outras 5 CPIs na Câmara contra o bolsonarismo,

a CPI da Joia, a CPI disso, daquilo, daquilo outro, tudo para mostrar que na verdade essa base de apoio