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Gloss Brazilian Portuguese Level 3, Especialista critica cobertura eleitoral nas mídias tradicionais

Especialista critica cobertura eleitoral nas mídias tradicionais

O professor de comunicação da Universidade de São Paulo (USP), Laurindo Lalo Leal Filho, faz uma análise crítica sobre a cobertura da campanha política nas mídias tradicionais - rádio, TV e jornais. De acordo com ele, os debates refletem mais os interesses dos donos das empresas de comunicação do que da população brasileira.

Nesta entrevista, Lalo mostra a postura das empresas de comunicação, inclusive das públicas, na cobertura jornalística das campanhas eleitorais.

Professor Lalo Filho, que análise o senhor faz da cobertura da mídia (TV, das rádios, dos jornais)?

Com um enfraquecimento eleitoral dos partidos de oposição, essa grande mídia comercial nacional ocupou o papel dos partidos de oposição; se tornou a própria oposição brasileira.

Isso não sou eu quem digo, como crítico e analista, a própria presidente da associação nacional de jornais, que representa as empresas jornalísticas de todo o país, disse claramente há alguns anos; já que a oposição estava tão enfraquecida, a mídia tinha o dever de se tornar a oposição.

A mídia brasileira hegemonicamente, com uma raríssima exceção que eu considero a revista Carta Capital, tem um compromisso muito grande com os interesses financeiros e econômicos dos grandes grupos empresariais brasileiros e internacionais. Então, a imprensa vocaliza esses grupos interessados em voltar às políticas econômicas anteriores que privilegiavam os bancos e as grandes empreiteiras.

Há um excelente trabalho da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, na internet, chamado “Manchetômetro”, onde eles vinham analisando as manchetes da Folha, do O Globo, do Estadão e do Jornal Nacional, da rede Globo, do começo do ano até agora. Os números são altíssimos à favor das manchetes contra a presidente Dilma e são mínimas aquelas que contrariam os interesses dos outros candidatos.

Como é que o senhor vê a apresentação destas pesquisas pela mídia de forma constante e que influência o senhor percebe que isso tem na vida do eleitor?

Não só na do eleitor, mas também dos candidatos, dos apoiadores e principalmente dos financiadores de campanha.

As campanhas no Brasil, enquanto nós não tivermos uma reforma política que permita apenas o financiamento público delas, são muito caras e são financiadas majoritariamente por grandes empresas, grandes bancos.

Assim sendo, temos que ter um grau de distanciamento, do resultado destas pesquisas, bastante cuidadoso. Não digo que elas sejam inexatas, que não retratem a realidade; os institutos na maioria das vezes são sérios, não todos, mas os grandes institutos o são.

O problema é que essas pesquisas são muito difíceis de se fazer. O Brasil tem duzentos milhões de habitantes metade deles têm direito a voto, então para você ter uma análise precisa, se precisa ter um rigor que estas pesquisas não têm.

A publicação exacerbada, o uso delas pela mídia acaba distorcendo muitas vezes a vontade do eleitor.

Não seria viável dar o horário nobre a esse debate, professor?

Sem dúvida. Além dos horários absurdos, nós temos a falta do debate. Esses debates, quando são transmitidos pelo rádio e pela televisão, nesse período eleitoral é de uma maneira muito amarrada, engessada, cada candidato não consegue falar mais de 30 segundos, uma resposta tem no máximo um minuto e meio. Como é que você pode discutir um programa de governo, questões que precisam ser aprofundadas para o telespectator entender, em um minuto e meio?

O Brasil é uma das raras democracias do mundo que não tem na televisão e no rádio, debates políticos rotineiros. Quer dizer, o debate político, não pode num país como o nosso ficar restrito ao período pré-eleitoral.

O cidadão não pode ficar dependente desses debates realizados em horários absolutamente improváveis para audiências e pior ainda com formatos que reduz programas eleitorais à meros slogans. Falta no Brasil o debate político permanente, mas nem a TV pública tem esse tipo de programas.

Que análise o senhor faz da nossa [EBC] cobertura?

A TV pública tem a missão de aprofundar mais; os telejornais têm sido extremamente cuidadosos. Na minha opinão, caberia como sendo prioritário à TV pública a discussão dos temas políticos, no período eleitoral ainda mais, já que a TV pública não tem as amarras dos interesses comerciais e econômicos dos donos de emissoras.

As perguntas das emissoras comerciais feitas nos debates políticos são enviesadas pelos interesses das concessionárias. A TV pública cujo o patrão é o cidadão, é a sociedade brasileira, ela é a dona da TV, tem muito mais liberdade para fazer perguntas que não são com interesses de A B ou C.

Hoje, infelizmente, a TV pública brasileira não ocupou ainda esse espaço e é o papel dela de dar voz a todas essas correntes políticas existentes no Brasil, para prestar um serviço público. Esse que é o serviço público de comunicação, que vai além do serviço, é o direito do cidadão, direito humano do cidadão de ser bem informado.

Existem algumas emissoras ditas públicas, em que vemos muitas distorções. Nos estados, as emissoras chamadas de públicas são na verdade emissoras estatáis, controladas pelos governos estaduais e defende os interesses políticos estaduais. Isso não é comunicação pública, isso é comunicação partidária.


Especialista critica cobertura eleitoral nas mídias tradicionais Expert criticizes electoral coverage in traditional media

O professor de comunicação da Universidade de São Paulo (USP), Laurindo Lalo Leal Filho, faz uma análise crítica sobre a cobertura da campanha política nas mídias tradicionais - rádio, TV e jornais. De acordo com ele, os debates refletem mais os interesses dos donos das empresas de comunicação do que da população brasileira.

Nesta entrevista, Lalo mostra a postura das empresas de comunicação, inclusive das públicas, na cobertura jornalística das campanhas eleitorais.

**Professor Lalo Filho, que análise o senhor faz da cobertura da mídia** (**TV**, **das rádios**, **dos jornais**)?

Com um enfraquecimento eleitoral dos partidos de oposição, essa grande mídia comercial nacional ocupou o papel dos partidos de oposição; se tornou a própria oposição brasileira.

Isso não sou eu quem digo, como crítico e analista, a própria presidente da associação nacional de jornais, que representa as empresas jornalísticas de todo o país, disse claramente há alguns anos; já que a oposição estava tão enfraquecida, a mídia tinha o dever de se tornar a oposição.

A mídia brasileira hegemonicamente, com uma raríssima exceção que eu considero a revista Carta Capital, tem um compromisso muito grande com os interesses financeiros e econômicos dos grandes grupos empresariais brasileiros e internacionais. Então, a imprensa vocaliza esses grupos interessados em voltar às políticas econômicas anteriores que privilegiavam os bancos e as grandes empreiteiras.

Há um excelente trabalho da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, na internet, chamado “Manchetômetro”, onde eles vinham analisando as manchetes da Folha, do O Globo, do Estadão e do Jornal Nacional, da rede Globo, do começo do ano até agora. Os números são altíssimos à favor das manchetes contra a presidente Dilma e são mínimas aquelas que contrariam os interesses dos outros candidatos.

**Como é que o senhor vê a apresentação destas pesquisas pela mídia de forma constante e que influência o senhor percebe que isso tem na vida do eleitor**?

Não só na do eleitor, mas também dos candidatos, dos apoiadores e principalmente dos financiadores de campanha.

As campanhas no Brasil, enquanto nós não tivermos uma reforma política que permita apenas o financiamento público delas, são muito caras e são financiadas majoritariamente por grandes empresas, grandes bancos.

Assim sendo, temos que ter um grau de distanciamento, do resultado destas pesquisas, bastante cuidadoso. Não digo que elas sejam inexatas, que não retratem a realidade; os institutos na maioria das vezes são sérios, não todos, mas os grandes institutos o são.

O problema é que essas pesquisas são muito difíceis de se fazer. O Brasil tem duzentos milhões de habitantes metade deles têm direito a voto, então para você ter uma análise precisa, se precisa ter um rigor que estas pesquisas não têm.

A publicação exacerbada, o uso delas pela mídia acaba distorcendo muitas vezes a vontade do eleitor.

**Não seria viável dar o horário nobre a esse debate**, **professor**? Would it not be feasible to give prime time to this debate, Professor?

Sem dúvida. Além dos horários absurdos, nós temos a falta do debate. Esses debates, quando são transmitidos pelo rádio e pela televisão, nesse período eleitoral é de uma maneira muito amarrada, engessada, cada candidato não consegue falar mais de 30 segundos, uma resposta tem no máximo um minuto e meio. Como é que você pode discutir um programa de governo, questões que precisam ser aprofundadas para o telespectator entender, em um minuto e meio?

O Brasil é uma das raras democracias do mundo que não tem na televisão e no rádio, debates políticos rotineiros. Quer dizer, o debate político, não pode num país como o nosso ficar restrito ao período pré-eleitoral.

O cidadão não pode ficar dependente desses debates realizados em horários absolutamente improváveis para audiências e pior ainda com formatos que reduz programas eleitorais à meros slogans. Falta no Brasil o debate político permanente, mas nem a TV pública tem esse tipo de programas.

**Que análise o senhor faz da nossa** [**EBC**] **cobertura**?

A TV pública tem a missão de aprofundar mais; os telejornais têm sido extremamente cuidadosos. Na minha opinão, caberia como sendo prioritário à TV pública a discussão dos temas políticos, no período eleitoral ainda mais, já que a TV pública não tem as amarras dos interesses comerciais e econômicos dos donos de emissoras.

As perguntas das emissoras comerciais feitas nos debates políticos são enviesadas pelos interesses das concessionárias. A TV pública cujo o patrão é o cidadão, é a sociedade brasileira, ela é a dona da TV, tem muito mais liberdade para fazer perguntas que não são com interesses de A B ou C.

Hoje, infelizmente, a TV pública brasileira não ocupou ainda esse espaço e é o papel dela de dar voz a todas essas correntes políticas existentes no Brasil, para prestar um serviço público. Esse que é o serviço público de comunicação, que vai além do serviço, é o direito do cidadão, direito humano do cidadão de ser bem informado.

Existem algumas emissoras ditas públicas, em que vemos muitas distorções. Nos estados, as emissoras chamadas de públicas são na verdade emissoras estatáis, controladas pelos governos estaduais e defende os interesses políticos estaduais. Isso não é comunicação pública, isso é comunicação partidária.