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Flavio Mendes (Bossa Nova), Bonita, Tom Jobim - O ARRANJO #37 (English subtitles)

Bonita, Tom Jobim - O ARRANJO #37 (English subtitles)

Los Angeles, 1965

Antônio Carlos Jobim estava sempre preocupado com as versões em Inglês das suas músicas, dos seus sambas

Não é fácil fazer versões de músicas: a tradução literal é inviável, porque é impossível encaixar uma simples tradução na melodia da música

E há, nas letras da bossa nova especialmente, uma atmosfera carioca, um humor e uma visão do mundo a partir de Ipanema,

e isso não é algo que se traduza naturalmente para qualquer outra língua

E havia, por parte dos versionistas norte americanos, um total desconhecimento do que era o Brasil

A única referência era Carmen Miranda, carregando frutas exóticas na cabeça com a barriga de fora

Tom mandou uma carta para o seu parceiro, o poeta Vinicius de Moraes,

em que dizia que brigava tanto para ter boas versões em inglês por amar as letras em português das suas músicas

Ele escreveu que não podia aceitar que colocassem um chapéu de mexicano nas letras do poetinha, e que versão era a coisa mais ingrata que existe

E seguia: ingrata, deturpante, borocoxô e sub-arte, ele tinha aversão à versão

Algum tempo depois, foi Vinicius que se viu nessa posição ingrata: a música Bonita, do Tom Jobim, tinha sido escrita em inglês,

e o poeta ficou encarregado de fazer uma versão em português

Se o Tom gostou ou não, eu não sei; mas o fato é que ele nunca cantou Bonita com a letra do seu querido parceiro Vinicius

Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo

Se você está gostando de assistir aos episódios, pense na possibilidade de apoiar O ARRANJO

e assim contribuir para que eu continue a produzir os programas, a partir de apenas 10 reais

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Se preferir contribuir com pix, a chave é contato@flaviomendes.com

Bonita é uma composição de Antônio Carlos Jobim com letra em inglês atribuída a Gene Lees e Ray Gilbert

A inspiração para a canção foi a atriz Candice Bergen, que o Tom conheceu num voo quando ela tinha 17 anos, em 1963

3 anos depois Tom reencontrou a atriz numa festa em Nova York e, depois de alguns uísques, não resistiu e sentou ao piano e cantou Bonita, diretamente para a sua musa

E não foi a única música em que Tom se inspirou na atriz Candice Bergen:

em 1970 ele fez a trilha do filme The Adventures, de Lewis Gilbert, no qual ela fazia o papel de Sue Ann

A música que Tom escreveu para a personagem, um bolero estilizado, fez parte do disco Tide, e é um dos temas instrumentais mais conhecidos do Tom

Já Bonita foi gravada pela primeira vez no disco The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim, gravado em 1964, com arranjo de Nelson Riddle

E surpreentemente reapareceu no disco seguinte do Tom, A Certain Mr. Jobim, agora com arranjos de Claus Ogerman

Ficou a impressão de que o Tom não tinha gostado do primeiro arranjo,

e deu margem a que alguns pensassem que ele tinha feito uma espécie de confronto entre esses dois arranjadores gigantes

Tom é reconhecido como um compositor que entregava um pacote muito completo para o arranjador:

normalmente a música já tinha introdução, forma, harmonia e alguns contracantos

Por isso é muito interessante poder analisar esses dois arranjos, ver o que eles têm em comum e o quais são as diferenças entre eles, e é o que eu vou fazer nesse vídeo

UM POUCO DE HISTÓRIA

Tom nem queria ir para Nova York fazer o famoso show da bossa nova no Carneggie Hall, em novembro de 1962

Foi convencido a ir pelo escritor Fernando Sabino, que usou um argumento forte pra convencer o amigo:

Tom, se você não for vai ser pra sempre um brasileirinho ignorante e subdesenvolvido

Ele encarou o seu medo de avião e chegou em cima da hora do show, só teve tempo de passar no hotel e colocar o smoking

A princípio ele não tinha planejado ficar lá, mas foi uma consequência natural,

a bossa nova foi um frescor na música americana, fez muito sucesso

O instrumento, violão; a batida, bossa nova

O artista, um dos inventores desse empolgante novo estilo, Antônio Carlos Jobim

Tom assinou alguns contratos que lhe renderam algum dinheiro pra sobreviver,

mas ele afirmou que não tinha inglês ainda o suficiente para entender os contratos

Numa outra carta ao parceiro Vinicius, Tom explica como funcionava os direitos autorais sobre a venda de disco lá:

de cara o editor das músicas nos Estados Unidos ficava com 50%

Dos outros 50%, que eram enviados ao Brasil, a editora brasileira ficava com metade disso, e descontando taxas sobrava 8% pra cada parceiro

Se a música rendesse 10 mil dólares sobrava 800 dólares pra cada um

Esse foi um dos motivos que fizeram Tom montar a sua própria editora nos Estados Unidos, a Corcovado Music -

aliás, Tom foi praticamente obrigado pela sua mulher na época, Teresa, a fundar essa editora e ter algum controle sobra a sua obra

Tom tinha verdadeiros embates com Norman Gimbell e Gene Lees, que foram os primeiros versionistas das músicas dele, para manter o espírito das letras originais

Naquela mesma carta para Vinicius Tom conta que a sua relação com Norman Gimbell tinha passado da fase de gentilezas e que eles brigavam muito

Aloísio de Oliveira, muito amigo e parceiro do Tom, sugere um novo letrista, que Aloísio já conhecia desde os anos 1940: Ray Gilbert

Aloísio era do Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda nos anos em que ela morou nos Estados unidos

e chegou a compor com Gilbert algumas canções pra Carmen

Ray Gilbert, Aloísio e Tom fundaram juntos uma editora, a Ipanema Music, só para editar músicas de parceria dos três, como as versões de Dindi e Inútil Paisagem

Segundo Ruy Castro, no livro Chega de Saudade, Ray Gilbert entrou no quarto do hotel do Tom em NY com moedas grudadas na testa

dizendo que eles ficariam ricos com a Ipanema Music - mas Tom desconfiou

Já Sergio Cabral, na biografia que escreveu do Tom, disse que Gilbert foi desonesto e trapalhão como sócio

Em dado momento Ray Gilbert sugeriu romperem a sociedade, fez uma proposta e o Tom aceitou

Segundo disse pra Teresa, sua mulher, Tom viu ali na cara do americano que ele continuaria a ser enganado pro resto da vida

A casa do Tom em Los Angeles, na rua Norman Place, era uma espécie de embaixada da música brasileira na Califórnia

Muitos músicos brasileiros estavam trabalhando nos Estados Unidos, aproveitando a onda e ensinando a bossa nova por lá

Um desses, e um dos mais ativos, era o baterista Dom Um Romão, que queria que o Tom estivesse tocando mais, se apresentando mais

Ele se incomodava de ver o maestro o dia inteiro de pijama, todos os dias, quase sem sair de casa, e chegou a falar com a Teresa:

Queima esse pijama! Ele tem o vírus da morgação! Assim não vai acontecer nada!

Mas o Tom achava que estava era com trabalho demais: tinha uma temporada pra fazer cantando e tocando violão com o cantor Andy Williams

num hotel às margens do Lake Tahoe, um lago glacial a dois mil metros de altura no estado de Nevada

E tinha acabado de assinar um contrato de exclusividade com a gravadora Warner para gravar dois discos

Pra completar, o baixista Tião Neto o convidou pra tocar num disco de músicas de Henri Mancini em ritmo de bossa nova de um pianista de jazz chamado Jack Wilson

Os americanos ainda não tinham aprendido a tocar bossa nova no violão e nem na bateria,

por isso a bateria ficou com Chico Batera e Tião Neto chamou o Tom pra fazer o violão

Nesses primeiros anos de carreira nos Estados Unidos Tom sempre apareceu tocando violão:

ele era vendido como um latin lover, e violão, e não o piano, era um instrumento de latin lovers

Tom recusou o convite pra gravar o disco de Jack Wilson por causa do contrato com a Warner,

ele não poderia aparecer gravando em outra companhia

Tião Neto encontrou a solução, deu um apelido pro Tom, um psedônimo, e o violonista desse disco assina Tony Brazil, e até aparece na capa como "convidado especial"

Para o primeiro disco na Warner, Tom realizou o seu maior desejo na época: trabalhar com o arranjador Nelson Riddle

Riddle ia na casa do Tom para os dois trabalharem nos arranjos,

mas nem a presença de um dos monstros sagrados da música norte-americana fazia o Tom tirar o pijama, e era de pijama mesmo que ele o recebia

Tião Neto, que esteve presente em de alguns desses encontros, dizia que o clima de simplicidade e descontração brasileiras era tamanho,

que um dia Teresa apareceu na sala de roupão de banho e toalha na cabeça - tudo normal

Mas Riddle estava vivendo um drama familiar: um dos sesu filhos estava entre a vida e a morte, depois de um acidente de automóvel

O Tom achava que por isso ele não conseguiu se concentrar nos arranjos e nas gravações da mesma forma que fazia quando trabalhava com Frank Sinatra e Nat King Cole

Isso talvez justifique a relativa frustração do Tom com o resultado desse LP, The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim, o primeiro álbum em que ele gravou cantando na vida

A correria de trabalhos e pijamas da temporada em Los Angeles não foi pródiga em novas composições, e só duas músicas eram inéditas: Surfboard e Bonita

Tom já tinha construído uma obra considerável até aquela época, e ainda teria muita música dele pra gravar

E praticamente o mesmo se repetiu no segundo disco pra Warner, gravado em 1967, em que só uma música era inédita:

um tema instrumental chamado Zíngaro, que no mesmo ano receberia letra de Chico Buarque, passando a ser Retrato em Branco e Preto

Eu fiz um programa falando sobre Retrato em Branco e Preto, o link vai estar no final desse vídeo

No repertório do novo disco estavam Bonita e Surfboard, as inéditas do disco anterior, gravado apenas dois anos antes

Tom disse que queria regravar essas duas músicas porque em Bonita ele não tinha gostado da sua voz e via problemas de ritmo em Surfboard

É o segundo trabalho de Tom com o arranjador Claus Ogerman, que é, segundo Paulo Jobim, filho do Tom, o maior parceiro musical do seu pai

Esse disco, A Certain Mr Jobim, foi gravado em Nova York, numa igreja transformada em estúdio

A acústica do estúdio era perfeita, sensacional, mas o Tom achava, em sua fantasia, que estava cometendo uma heresia

Nesses discos a letra de Bonita é creditada apenas a Ray Gilbert, só depois Gene Lees passou a ser creditado também como letrista

No seu livro Singers and the Song II, Lees diz que escreveu a letra pro Tom, que repassou para Ray Gilbert,

e este teria feito duas ou três mudanças, mas passou a assinar a letra sozinho

Gene Lees entrou com um recurso na Associação de Compositores Americanos e provou que era o autor de boa parte da letra,

e passou a receber o crédito - e a sua parte em dinheiro também, e nunca mais trabalhou com o Tom

Depois da morte do Tom e do Vinícius foi encontrada, nos arquivos da Casa Ruy Barbosa, onde está o acervo do Vinícius, a letra do poeta para Bonita, até então desconhecida

O primeiro a gravar em português foi o neto do Tom, Daniel Jobim

Danilo Caymmi também gravou essa versão, no disco Danilo Caymmi canta Tom Jobim,

que eu produzi em parceria com Carlos Fuchs, com arranjos meus, e o disco começa com Bonita

1. MELODIA A primeira parte da melodia de Bonita é construída sob acordes menores

São 4 trechos nessa primeira parte, sendo que os dois primeiros trechos são sob o mesmo acorde - no tom dessas gravações o acorde é lá menor

O terceiro trecho é idêntico aos dois primeiros, só que um tom abaixo, no caso, em sol menor

E o quarto trecho é só ligeiramente diferente, e é uma quinta acima, em ré menor

Cada trecho desse é com o acorde menor parado, mas com uma nota se movimentando

E essa nota sugere um contracanto, passeando pelas notas entre a tônica do acorde e o quinto grau, sempre andando cromaticamente, ou seja, de meio em meio tom

Outra presença característica na melodia da primeira parte é uma blue note, uma nota alterada, que não faz parte da escala, mas dá um molho todo especial

Essa é a blue note

É uma nota que vem, provavelmente, dos cantos de trabalho dos povos afro-americanos, a blue note tem essa característica de um lamento

Não dá pra saber como o Tom trabalhou com os letristas norte-americanos o uso da palavra Bonita em português mesmo

Eu tenho a impressão que ele já compôs a música prevendo onde a palavra Bonita entraria, e os letristas fizeram o recheio, preencheram as palavras entre as "Bonitas"

E a minha suspeita vem do fato de que todas as vezes em que se usa essa palavra o intervalo das notas é o mesmo, um intervalo de segunda,

às vezes segunda maior, que é um tom, outras segunda menor, que é meio tom, e às vezes subindo, outras descendo, mas sempre em segundas

Sempre em segundas

2. ORQUESTRAÇÃO Tanto Riddle quanto Ogerman usam nas orquestrações de Bonita os instrumentos que em geral caracterizam as orquestrações de bossa nova

Nelson Riddle usa 3 flautas, 3 trompas, 2 trombones, 12 violinos, 4 violas, 4 cellos, harpa, além de violão, baixo e bateria

Claus Ogerman usa 3 flautas, 1 trombone, 9 violinos, 4 cellos, ele não usa violas, celesta, órgão, violão, piano, baixo e bateria

Celesta é um instrumento que parece um piano de armário de tamanho reduzido, tem um som metálico, e foi usado pela primeira vez por Tchaikovsky

Claus usa na introdução orgão e celesta tocando um uníssono com as flautas,

antecipando um timbre que anos depois seria umas das suas marcas, que é o timbre da soma de flautas e piano elétrico Fender Rhodes

3. A FORMA DO ARRANJO Bonita tem duas partes, e a primeira é a dos trechos com acordes menores, seriam então A e B

No arranjo de Riddle a música acontece uma vez inteira, sem repetições,

e a música não tem introdução, começa direto no canto, com voz e violão

O acorde é o mesmo, mas uma nota se movimenta, anda pelas sétimas e sextas

Uma frase de contracanto no violão

Cama harmônica de cordas no grave, com a nota se movimentando no meio do acorde

Entra a base, o ritmo, vira bossa nova

A nota se movimentando em oitavas, nos violinos

Uma frase harmonizada nas cordas, em sentido descendente

Resposta nas flautas, 3 vozes na região aguda

Flautas em uníssono repetindo duas notas

Uma melodia independente nos violinos, com cama harmônica das outras cordas no grave

Claus Ogerman também vai usar esse tipo de arranjo nas cordas

Os metais dobram as cordas graves, o som fica grandioso

E os violinos continuam em frases independentes no agudo

Agora a cama hamônica é só dos metais, no grave

Uma frase descendente dos violinos, indo pra região grave, com improviso da flauta

A harmonia não vai pro acorde de resolução, fica em suspenso, no acorde diminuto

No arranjo do Ogerman a parte B é repetida, com solo de trombone e o canto voltando no meio do trecho, na letra "I love you"

E tem uma introdução, começando com aquele timbre que eu comentei de uníssono das 3 flautas com o orgão e a celesta

Cama harmônica dos cellos na introdução

Notem o ataque da celesta junto com as flautas em uníssono

Já começa em samba, e notem a nota se movimentando na harmonia, nas sétimas e sextas

O mesmo contracanto do outro arranjo, só que nos cellos, e não no violão

E o cellos agora estão com a nota se movimentando

Ataque em uníssono de flautas e violinos, a três vozes

Acorde a seis vozes nas cordas

Notas longas nas flautas e os violinos movimentando as notas, na sua região grave

As flautas fazendo uma frase no agudo

Agora um acorde diminuto que não tem no outro arranjo

A bateria toca bem solta, expansiva

Cama harmônica densa nas cordas, com o uníssono dos violinos e das flautas na ponta

Como no outro arranjo, frases independentes dos violinos no agudo com cama harmônica das outras cordas

Solo do trombone, tocando a melodia da música

Atenção pro acorde diminuto que vai chegar: a tétrade de ré sustenido diminuto nos cellos e a tríade do ré diminuto nos violinos

Volta a cama harmônica densa, com acordes bem extensos, amplos

E os violinos em frases ascendentes

As flautas vão fazer o arpejo de ré diminuto, com a harmonia no dó diminuto

Ao contrário do arranjo do Riddle, nesse a harmonia repousa no acorde de resolução, na tônica, não termina suspenso

Bom, esse foi O ARRANJO, se você gostou dá um like, se inscreve no canal, compartilha o vídeo

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Muito obrigado, até uma próxima

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