Arrastão (Elis Regina), O ARRANJO #24 (English subtitles)
Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli eram os maiores produtores de shows do Beco das Garrafas
no meio dos anos 60, no Rio de Janeiro
O Beco das Garrafas é na verdade uma rua curta, sem saída,
um apêndice da Rua Duvivier, em Copacabana,
e tinha na época 3 casas de shows, uma menor do que a outra
Era o epicentro do samba jazz, onde se apresentavam os melhores músicos do Brasil
Lá no Beco Miéle e Bôscoli tinham assistido ao primeiro show de uma gauchinha de 18 anos, Elis Regina
Em poucos meses a cantora já era uma estrela em ascensão,
quando a dupla de produtores resolveu chamá-la para um espetáculo, e ofereceram o maior cachê que poderiam pagar
Elis pediu o dobro
Quando Bôscoli perguntou debochadamente, "você está achando que é a Barbara Streisand?", Elis falou:
Estou. Estou e sou.
Eu sou Flávio Mendes, músico e arranjador, esse é O ARRANJO, seja bem vindo
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e assim ajudar a que eu continue a fazer a série O ARRANJO
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Arrastão foi lançada por Elis Regina do 1o Festival da Excelsior, em 1965, e é uma parceria de Edu Lobo e Vinícius de Moraes
No verão de 1962, com 18 anos, Edu recebeu o convite de uma amiga para uma festa na casa dela, em Petrópolis,
e entre os convidados estava Vinicius de Moraes
Edu subiu a serra com o violão, ele não iria perder a chance de conhecer Vinicius
Nas festas e reuniões daquela época era comum o violão passar de mão em mão,
e Edu tocou várias parcerias de Vinicius com Carlos Lyra até arriscar a tocar uma música autoral, uma composição dele
Vinicius sempre foi gentil e generoso com os mais jovens, e perguntou:
"Você não teria uma musiquinha sem letra?", e tal, e por sorte eu tinha
E em seguida, na mesma noite, na mesma festa, ele fez a letra"
A canção se chama Só me fez Bem
Edu dobrou a letra com cuidado e colocou dentro do sapato, pra não correr o risco de ser assaltado e levarem a letra do poeta!
3 anos depois Edu lançou o seu primeiro LP, pela gravadora Elenco, o que era sinal de muito prestígio
A Elenco era de Aloysio de Oliveira,
que achou que duas daquelas músicas poderiam fazer sucesso no primeiro festival da TV Excelsior, em São Paulo,
e fez a inscrição
Aleluia, parceria de Edu com Ruy Guerra, e Arrastão, parceria com Vinicius, foram selecionadas para o festival
Como o festival exigia músicas inéditas, Aloysio atrasou o lançamento do LP
porque o festival poderia ser uma boa propaganda para o disco e acertou na mosca:
com uma interpretação histórica e arrebatadora de Elis Regina, Arrastão ganhou o primeiro lugar
Com arranjo de Luiz Eça, é a versão de Arrastão do compacto gravado por Elis Regina logo depois do festival
que eu vou analisar nesse vídeo
UM POUCO DE HISTORIA
Foi pra atender um pedido da avó que Elis Regina foi cantar pela primeira vez no programa de rádio Clube do Guri,
que era apresentado no domingo por Ary Rego, um grande sucesso da Rádio Farroupilha
As estrelas do programa eram os talentos mirins, que vinham de todo o Rio Grande do Sul, com seus pais e vestidos nas suas melhores roupas
Aos 7 anos Elis cantava todos os dias, o dia inteiro, com um timbre e volume que pareciam ser de uma mulher bem mais velha
Mas Elis travou na hora do ensaio, assustada com tudo em volta, e não abriu a boca,
para a irritação da mãe, que achou um absurdo a filha fazê-la passar por aquela vergonha
Aos 12 anos Elis pediu pra mãe levá-la de novo, e Dona Ercy ainda a provocou dizendo "Quero ver se tu vais cantar mesmo"
Quando Elis foi chamada ao palco a mãe viu que a filha não estava bem:
pálida, com as luvas furadas pelas mordidas de apreensão e com uma hemorragia nasal de sujar o vestido
O pianista deu o acorde de introdução e a menina de óculos grossos permanecia imóvel
Mas aos poucos ela começou a cantar e aquela voz forte que saía não combinava em nada com a sua aparência frágil
Era uma empostação segura e afinada, e o estúdio da Rádio Farroupilha veio abaixo
Ary Rego, o apresentador, e o pianista se olharam, ele percebeu que algo muito forte tava acontecendo,
e mais tarde, quando chegou em casa contou pra mulher: Descobrimos a nova Carmen Miranda!
Elis virou estrela do programa e, como pagamento, às vezes recebia uma caixa de bombons
Quando ganhou um concurso levou pra casa um ferro de passar roupas,
o que deixou Dona Ercy muito feliz, a família não tinha um ferro em casa
Começou a ter o seu nome falado pelas rádios, até que a Rádio Gaúcha fez uma proposta para profissionalizá-la,
ter um salário - Elis tinha 13 anos
Aos sábados e domingos, dias de descanso no colégio,
Elis se apresentava como crooner de orquestra em bailes e às vezes cantava por 5 horas seguidas, sem descanso
Quando o gerente comercial da gravadora Continental, Wilson Rodrigues Poso, passou por Porto Alegre
ele encontrou um velho amigo, radialista da Rádio Gaúcha,
que o convidou para assistir uma apresentação da grande revelação da cidade
Poso era experiente, já tinha visto muitos novos talentos e inclusive participou do lançamento da cantora Maysa,
e ele ficou muito impressionado com Elis, na época com 16 anos
Ele nem tinha poderes para tanto, mas procurou os pais da menina e fez a proposta:
um contrato pra dois discos - e a Continental pagaria as passagens para Elis ir com o pai gravar o disco no Rio de Janeiro
Não havia cachê, como de praxe, mas se os discos vendessem muito Elis ganharia muito dinheiro
Ele disse também que o repertório era um detalhe, depois decidiriam isso
De volta ao Rio levou uma chamada do chefe por assinar um contrato com uma desconhecida,
mas quando ouviu a menina cantando alguns sambas canções dor de cotovelo o presidente da gravadora teve uma ideia:
lançar Elis para competir com um lançamento recente da concorrente Odeon, Elis seria a Celly Campelo da Continental
Naquele início da década de 60 ainda não existia a Jovem Guarda,
mas Celly Campelo tinha vendido 100 mil cópias cantando Estúpido Cupido
A gravadora escolheu Carlos Imperial para produzir o disco, e ele criou uma nova artista,
bem diferente do que a Elis vinha fazendo em Porto Alegre:
saíram a franja e os vestidos de babado e entraram sainhas, batons e coques
O título do disco era Viva a Brotolândia,
que não tinha nada a ver com a cantora que Elis já era, e o disco não fez sucesso nem em Porto Alegre
"Eu já de antemão que esse negócio de lançar alguém pra combater alguém uma pobreza,
total, completa e absoluta, sempre achei
E eu não queria ser a sombra de quem quer que fosse, eu queria ser eu, fazer as minhas coisas"
Nessa pré história da sua carreira, Elis ainda gravaria mais um disco pela Continental e mais dois pela CBS, sem nenhuma repercussão
Elis desembarcou com o seu pai no Rio de Janeiro em 31 de Março de 1964, um dia antes do golpe militar
Trazia 150 contos no bolso, não era muito dinheiro,
uma vaga proposta da gravadora Philips e uma carta de recomendação para trabalhar na TV Rio
Logo que chegou foi convidada para participar de um disco com as músicas do espetáculo Pobre Menina Rica,
com músicas de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, e arranjos de Tom Jobim
Seria uma estreia em grande estilo, mas precisava passar pelo crivo desses já na época monstros sagrados
Carlos Lyra já estava convencido, mas faltava convencer Tom: Elis cantou Primavera, mas não convenceu o maestro,
que segundo a biografia de Elis escrita por Julio Maria, teria dito a Carlos Lyra: "Essa não vai dar, esquece"
Elis contou depois em depoimento a Zuza Homem de Melo que ela tinha acabado de chegar,
estava muito tímida, inibida e insegura,
diz que ficou como um caramujo, dentro da casca, a voz saía pequenininha, e ela não gravou o disco
Ela logo começou a trabalhar na TV Rio, fazendo qualquer coisa na TV,
até participou de um humorístico chamado A Escolinha do Edinho Gordo, no estilo da Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio,
e nesse programa de TV ela contracenava com Jorge Ben, Orlandivo e Wilson Simonal
Através do produtor Roberto Jorge, Elis conseguiu fazer um show no Beco das Garrafas,
e começou a chamar a atenção de muita gente boa
Foi no Beco que Elis conheceu o americano Leonardo Laponzina, de nome artístico Lennie Dale
Lennie tinha chegado ao Rio contratado por Carlos Machado, o grande empresário do Teatro de Revista,
e adorou o Rio, resolveu ficar
Roberto Jorge pediu que Lennie ajudasse Elis a se movimentar, e Lennie desenvolveu o estilo de Elis mexer os braços,
o que no Festival da Excelsior, que iria acontecer em menos de um ano,
fez com que Elis ganhasse o apelido de Hélice Regina, de tanto que girava os braços
Mas a vida de Elis estava bem difícil:
os shows no Beco davam pouquíssimo dinheiro e o salário dela na TV Rio mal pagava a kitinete em que ela morava
Ela e a família inteira: nessa época a mãe e o irmão também tinham vindo de Porto Alegre e todos moravam nesse cômodo,
com divisórias de biombo e uma cortina improvisada de chita estampada
Elis desabafou com Roberto Jorge, dizendo que estava pensando em voltar pra Porto Alegre e ele retrucou:
Mas Elis você quer ou não quer ser a maior cantora do Brasil?
A resposta dela foi seca: "Eu não quero, Roberto, eu já sou a maior cantora do Brasil"
Além do gestual, Lennie Dale mostrou pra Elis um artifício de arranjo muito usado na Broadway,
e que aqui ganhou o nome de desdobrada
Consistia em em ralentar a música, fazer ela ficar mais devagar, eram os mesmos compassos num tempo mais dilatado,
e normalmente numa passagem de um trecho pra outro da música, pra criar um ápice, um agudo
Elis testou a desdobrada em um show no Teatro Paramount em que ela interpretou Terra de Ninguém,
com o compositor Marcos Valle
Marcos vai tocando a música no violão no andamento normal, e perto da entrada da Elis ele ralenta,
diminui o andamento pra entrada da Elis com a banda, e a plateia delirou
Elis já estava com certo nome em São Paulo
quando foi convidada por Solano Ribeiro para ser uma das intérpretes do 1o Festival da TV Record
Ela foi chamada para defender, como se dizia na época, duas músicas:
Por um Amor Maior, de Francis Hime e Ruy Guerra e Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes
Elis gostava mais da primeira, mas sentiu que a recepção do público foi mais intensa com Arrastão nas eliminatórias
A finalíssima do festival foi no antigo Cine Astoria, em Ipanema, que era então o auditório da TV Excelsior do Rio
Elis cantou Arrastão com uma garra impressionante, como quem defende um prato de comida,
parecia que sabia que era a chance da sua vida, que tinha que sair dali vencedora naquela noite, e não teve pra ninguém:
Arrastão ganhou e Elis foi considerada a melhor intérprete
O diretor do festival, Solano Ribeiro, tentou contratá-la para trabalhar na TV Excelsior:
Elis ganhava 80 mil cruzeiros na TV Rio e resolveu pedir alto: queria 600 mil pra assinar com a Excelsior
Solano tinha indicado Marcos Lázaro, um polonês radicado na argentina para ser o empresário de Elis Regina
E como as tratativas com a Excelsior não deram certo, ele resolveu colocar as suas habilidades de negociador em ação:
espetou Elis na ponta do anzol e lançou em um tanque de tubarões, no caso a Tv Tupi e a Tv Record,
que brigaram pelo passe da cantora
A Record ganhou quando fez a proposta definitiva,
que transformou Elis Regina na artista mais bem paga da TV brasileira:
6 milhões de cruzeiros por mês
MELODIA
Durante uma festa na casa de Dorival Caymmi, enquanto todos cantavam Temporal, uma música do anfitrião,
Edu Lobo ficou improvisando um contracanto e começou a encontrar uma melodia própria
Guardou o tema na cabeça e ficou trabalhando nele uns dias até considerar pronto e mostrar para Vinicius
Vinicius fez a letra pra música muito rápido, ele entendeu o tema praieiro,
na praia de Caymmi, e escreveu a letra em 5 minutos
A primeira parte da música tem um esquema melódico bem definido:
uma nota longa seguida de frases ascendentes de 6 notas
No refrão se repete o esquema de uma nota longa primeiro, mas aí seguida de uma frase descendente de 11 notas
E tem também uma terceira parte, o que os americanos chamam de bridge, de ponte,
bem lenta e que cria um contraste interessante com o resto da música, que é mais agitado
ORQUESTRAÇÃO
Nessa gravação o arranjador Luiz Eça demonstra, mais uma vez, todo o seu conhecimento técnico e timbrístico
na utilização dos instrumentos de orquestra: tem naipe de cordas, metais, saxofones e ainda flauta
É um arranjo com tons épicos e com muitas variações de andamento, com muitos climas diferentes durante a música
De acordo com Zuza Homem de Melo eu seu livro A Era dos Festivais,
Arrastão determina o nascimento do gênero música de festival:
uma letra com uma mensagem, como a de Vinicius;
uma melodia contagiante, como a de Edu Lobo;
um arranjo com nuances e momentos fortes, como o de Luiz Eça e uma interpretação épica, como a de Elis Regina
Parece assim uma receita de bolo, simples, mas era muito difícil de costurar todos esses elementos
e ainda conseguir em cada um deles a qualidade que teve Arrastão - não era fácil repetir
A FORMA DO ARRANJO
Arrastão tem a forma ABCAB, e nessa gravação o arranjador Luiz Eça segue exatamente esse esquema,
além da introdução, não há repetição de nenhuma parte da letra
As partes A e B do começo são bem ritmadas
A parte C é bem lenta, mas o ritmo volta no segundo A
Na última parte B acontece a desdobrada, o andamento fica mais lento, e a música termina em fade out
Na introdução os saxofones tocam em oitava a melodia do refrão, com resposta dos metais
Na parte A tem um contracanto nas cordas, com respostas na flauta
Uma frase descendente nos saxes prepara para o refrão
Ataques ritmados dos saxes como acompanhamento, e respostas nos metais
O contrabaixo faz uma espécie de levada de marcha, mas dobrado:
ao invés de uma nota por tempo forte, ele toca duas
E a bateria também toca dobrado
Cama de cordas em notas longas na parte C, com o piano arpejado
O contracanto na parte A, que na primeira vez era tocado pelas cordas, agora é tocado pelo trombone
De novo a frase dos saxes em oitava, no ralentado
Na desdobrada estão todos tocando forte, e os sopros fazem um acorde amplo, do grave até o agudo
A base toca como se fosse um samba lento
Bom, esse foi O ARRANJO, se você gostou dá um like, se inscreve no canal,
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Muito obrigado, até uma próxima