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A Morte de Ivan Ilitch, Parte 4 – Κείμενο για ανάγνωση

A Morte de Ivan Ilitch, Parte 4

Ενδιάμεσοι 2 μάθημα Πορτογαλικά για εξάσκηση στην ανάγνωση

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4: Parte

Começou então uma discussão acerca da graça e

naturalidade de sua atuação – o tipo de assunto que aparece seguidamente e é sempre a mesma

coisa, não leva a parte alguma.

No meio da conversa, Fiodr Petrovich olhou para Ivan Ilitch e emudeceu. Os outros o

olharam e silenciaram. Ivan Ilitch fixava seus olhos brilhantes direto neles, obviamente furioso

com todos. Alguém tinha de consertar a situação, mas não havia meio de fazê-lo. O silêncio tinha

de ser quebrado, mas ninguém se atrevia a falar, com pânico de que a farsa convencional fosse

subitamente desmanchada e a verdade viesse à tona para todos. Liza foi a primeira a ganhar

coragem e quebrar o silêncio, mas, ao tentar encobrir o que estavam sentindo, ela os traiu.

– Bem, se nós vamos mesmo, já está na hora – disse, olhando para o relógio que ganhara de

seu pai e, com um sorriso quase imperceptível para o jovem, aludindo a algum segredo entre

eles, levantou-se, sacudindo as saias.

Todos levantaram, deram boa-noite e saíram.

Quando ficou sozinho, Ivan Ilitch notou que se sentia melhor: a falsidade havia ido embora

com eles. Mas a dor continuava. Aquela dor contínua, aquele terror contínuo, fazia com que nada

parecesse mais fácil ou mais difícil. Tudo sempre ficava pior.

Outra vez, minuto após minuto, hora após hora, arrastando-se sempre iguais e sempre

intermináveis. E o inevitável fim de tudo tornando-se cada vez mais terrível.

– Sim, mande Gerassim aqui – respondeu a Piotr.9

Quando sua esposa voltou já era bem tarde. Entrou pé ante pé, mas ele ouviu, abriu os olhos

e apressou-se em fechá-los novamente. Ela queria mandar Gerassim embora e ficar ali com ele,

mas ele abriu os olhos e disse-lhe que fosse embora.

– Está com muita dor?

– Como sempre.

– Tome ópio.

Ele concordou e bebeu uma dose. Ela se foi.

Até mais ou menos três da manhã ele ficou entorpecido em um sofrimento inconsciente.

Tinha a impressão de que ele e a sua dor estavam sendo empurrados para dentro de um saco

negro, estreito e profundo, mas, por mais força que fizessem, ainda não conseguiam empurrá-los

até o fundo. E essa sensação terrível vinha acompanhada de grande agonia. Ele estava apavorado

e ainda assim queria cair para dentro do saco. Debatia-se e ao mesmo tempo cooperava. E eis

que então, subitamente, rompia o saco, caía e recuperava a consciência. Lá estava Gerassim,

ainda sentado aos pés da cama, cochilando calma e pacientemente, enquanto ele jazia com suas

pernas inúteis descansando nos ombros do rapaz. Viu a mesma vela com sua chama e sentiu a

mesma dor que não lhe dava sossego.

– Vá deitar, Gerassim – sussurrou.

– Não se preocupe, senhor, vou ficar um pouco mais!

– Não. Pode ir.

Tirou suas pernas dos ombros de Gerassim, virou-se de lado e começou a sentir pena de si

mesmo. Esperou até que Gerassim entrasse no outro quarto, controlou-se um pouco e pôs-se a

chorar como uma criança. Chorou por sua solidão, seu desamparo, pela crueldade do ser

humano, a crueldade de Deus e a ausência de Deus.

“Por que o Senhor fez isso comigo? Por que me fez chegar até esse ponto? Por quê? Por que

torturar-me tão horrivelmente?”

Não tinha esperança de ser respondido, mas mesmo assim chorava por não haver resposta,

por não ser possível encontrar resposta. A dor ressurgiu ainda mais forte, mas ele não fez um

movimento, não chamou ninguém. Dizia apenas: “Vá em frente! Maltrate-me! Mas por quê? O

que foi que eu fiz? Por que tudo isso?”

.

Até que pensou e não só parou de chorar, como reteve a respiração e ficou atento: estava

ouvindo, parecia, não uma voz externa, mas a voz de sua alma, ouvia as ondas de seus

pensamentos que levantavam dentro dele.

“O que é que você quer?” foi a primeira coisa possível de ser traduzida em palavras que

ouviu. O que você quer? O que você quer?, repetia a voz.

“O que eu quero? Parar de sofrer. Viver”

, respondeu.

E novamente pôs-se a escutar com tamanha atenção que nem mesmo sua dor conseguiu

distraí-lo.

“Viver. Viver como?”

, perguntava a voz.

“Ora, viver como antes – viver bem, agradavelmente.

“Como vivia antes? Bem e agradavelmente?”

, indagou a voz.E ele começou a repassar em sua imaginação os melhores momentos de sua agradável

vida. Mas, estranhamente, nenhum desses melhores momentos de sua vida tão agradável agora

lhe pareciam o que pareceram na época – nenhum deles, exceto as primeiras lembranças de

infância. Lá na infância, havia alguma coisa realmente agradável com a qual seria possível

viver, se pudesse recuperá-la. Mas a pessoa que conhecera essa felicidade já não existia; era

como a lembrança de outra pessoa.

Do período que produziu o atual Ivan Ilitch para cá tudo que parecera, na época, alegria,

agora se desvanecia ante seus olhos e transformava-se em alguma coisa trivial e, em alguns

casos, até repugnante.

E quanto mais distanciava-se da infância e aproximava-se do presente, mais sem sentido e

duvidosas eram tais alegrias. Começou na época em que era estudante de Direito. Havia ainda ali

alguma coisa verdadeiramente boa – alegria, amizade, esperanças. Mas já no final do curso

esses bons momentos também já estavam tornando-se mais raros. Mais tarde, durante os

primeiros anos de sua carreira oficial quando trabalhava para o governador, houve outros bons

momentos: a lembrança do amor por uma mulher. Depois disso tudo foi ficando confuso e havia

cada vez menos coisas boas de que pudesse lembrar. Quanto mais longe ia, pior ele as achava.

Seu casamento... tão gratuito quanto o desencanto que se seguiu. E o mau hálito de sua

esposa e os momentos de sensualidade e a hipocrisia! E aquela odiosa vida oficial e a

preocupação com dinheiro. Um ano, dois anos, dez, vinte e sempre a mesma coisa. E quanto

mais o tempo passava, mais detestável ficava.

“Como se eu estivesse caindo montanha abaixo,

imaginando estar subindo. E era assim mesmo. E na opinião dos outros eu estava o tempo todo

subindo e todo o tempo minha vida deslizava sob meus pés. E agora acabou tudo e é hora de

morrer. Mas do que se trata afinal? Por que tem de ser assim? Não pode ser que a vida seja tão

detestável e sem sentido. E se é realmente tão detestável e sem sentido, por que então devo

morrer e morrer nessa agonia? Há alguma coisa errada.

“Talvez eu não tenha vivido como deveria,

” ocorreu-lhe de repente.

“Mas, como, se eu

sempre fiz o que devia fazer?”

, respondeu, imediatamente descartando essa hipótese; a solução

para o enigma da vida e da morte era algo impossível de encontrar.

“Então o que você quer agora? Viver? Viver como? Viver como vivia no Tribunal, quando o

oficial anunciava: 'O júri vai se reunir. O júri vai se reunir!'

... O júri vai se reunir, o júri vai se

reunir!”

, repetiu para si mesmo.

“Eis a minha sentença. Mas eu não sou culpado!”

, gritava com

fúria.

“Para que tudo isso?” E parou de gritar, mas virando-se para a parede pôs-se a repassar a

mesma pergunta: Por quê, e qual a razão de todo esse horror?

Mas por mais que se perguntasse, não conseguia encontrar a resposta. E quando ocorria-lhe

pensar que tudo isso vinha do fato de não ter vivido como devia ter vivido, imediatamente

lembrava em que ordem e retidão vivera sua vida e mandava embora essa estranha idéia.10

Passaram-se outros quinze dias. Ivan Ilitch agora não saía mais do sofá. Não deitava mais na

cama, só no sofá. E de olhos fixos na parede a maior parte do tempo, deitado, na solidão, sofria

todas as inexplicáveis agonias e fazia sempre a mesma pergunta sem resposta: “O que é isto? É

possível que isto seja a morte?”

. E a voz interior respondia: “Sim, é possível”

.

“Por que toda essa

agonia?” E a voz respondia: “Por nenhuma razão. É assim e pronto”

. Não havia nada além disso

ou ao lado disso.

A partir de sua doença, desde que fora pela primeira vez ao médico, a vida de Ivan Ilitch foi

dividida em dois estados de espírito opostos que se alternavam; uma hora desespero e expectativa

de uma morte terrível e incompreensível, na outra esperança e observação atenta do

funcionamento de seus órgãos. Em determinados momentos pensava encontrar-se tão-somente

diante de um rim ou intestino que não estavam cumprindo com suas funções, já em outras era a

morte que surgia assustadora diante de seus olhos, incompreensível, implacável, da qual não

havia como escapar.

Esses dois estados de espírito alternavam-se desde o começo de sua doença, mas, quanto

mais a doença avançava, mais duvidosa e fantástica tornava-se a idéia do rim, e mais real a

sensação de fim iminente.

Bastava-lhe recordar de como era até três meses antes e no que havia se transformado para

concluir como decaía progressivamente e descartar qualquer possibilidade de esperança.

Ultimamente, na solidão em que se encontrava, deitado com o rosto virado para as costas do

sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão

mais completa do que qualquer outra, seja no fundo do mar ou no centro da Terra –

, nessa

assustadora solidão, Ivan Ilitch vivia somente das lembranças do passado. Um após o outro, os

retratos do seu passado iam aparecendo para ele. Sempre começavam com os acontecimentos

mais recentes e depois voltavam para os mais distantes, sua infância, e ali ficavam. Se pensasse,

por exemplo, nas ameixas secas que lhe foram oferecidas no jantar, imediatamente seu

pensamento remetia-o para as ameixas frescas francesas de sua infância, aquele gosto peculiar,

e sentia a água na boca de quando desciam para pegá-las e, junto com essa lembrança do gosto

de ameixas, surgia uma série de outras lembranças da mesma época – sua babá, seu irmão, seus

brinquedos.

“Mas não devo pensar nisso, é muito doloroso”

, e Ivan Ilitch forçou-se a voltar para o

presente – concentrou-se nos botões das costas do sofá e nas dobras no couro.

“Couro de cabra é

caro e não tem um bom efeito. Houve até uma discussão a esse respeito. Mas não; era um outro

couro e outra discussão quando nós cortamos a pasta do papai e ele nos castigou e mamãe foi nos

levar tortinhas de frutas.

” E outra vez seus pensamentos se voltavam para a infância, novamente

doíam-lhe e ele tentou afastá-los e pensar em outra coisa.

E, novamente, junto com essa cadeia de lembranças, uma outra vinha-lhe à mente – de

como havia desenvolvido a doença e fora piorando. Nesse momento, também, quanto mais para

trás olhasse mais vida encontrava. Houve mais coisas boas e mais vida em si, lá atrás. E as duas

coisas se juntavam.

“Assim como a dor piora cada vez mais, minha vida toda foi

progressivamente piorando. Há um ponto de luz lá longe, no início da vida, mas, depois disso, tudo

foi ficando cada vez mais negro e afastando-se cada vez mais, em proporção inversa à distânciaque me separa da morte”

, pensou Ivan Ilitch. E a imagem de uma pedra caindo em velocidade

crescente tomou conta de sua mente. A vida, uma série de sofrimentos cada vez maiores,

acelera rapidamente para o final e este final é o sofrimento mais terrível.

“Eu estou caindo...

Estremeceu e fazendo um esforço tentou resistir, mas tinha consciência de que era impossível e,

novamente, com os olhos cansados mas incapaz de não olhar o que estava diante de si, olhou as

costas do sofá e esperou. Esperou, aguardando a qualquer momento a terrível queda, o

empurrão, a destruição.

“Não adianta resistir”

, dizia-se.

“Ainda se pelo menos eu pudesse

entender para que serve tudo isso, mas é impossível. Se se pudesse dizer que eu não vivi como

deveria, mas não é essa a explicação”

, pensava, lembrando da obediência às leis, da retidão, da

respeitabilidade de sua vida.

“Que em hipótese alguma pode ser contestada,

” falou para si,

sorrindo ironicamente, como se alguém pudesse ver aquele sorriso e entendê-lo.

“Não há

explicação! Agonia, morte... Por quê?”11

Outras duas semanas se passaram desse modo e durante aquela quinzena aconteceu uma

coisa que Ivan Ilitch e sua esposa tanto desejavam! Petrischev pediu a mão de Liza. Na manhã

seguinte Praskovya Fiodorovna entrou no quarto do marido pensando na melhor maneira de dar-

lhe a notícia, mas bem naquela noite o estado de Ivan Ilitch piorara bastante. Praskovy a

Fiodorovna encontrou-o ainda no sofá, mas mudara de posição, estava deitado de costas,

gemendo e olhando à sua frente com olhar fixo.

Prask ovy a começou a falar sobre seus remédios. Ele voltou a olhar na direção dela, que não

conseguiu terminar o que estava dizendo de tanto rancor que via naquele olhar, que lhe era

especialmente dirigido.

– Pelo amor de Deus, deixe-me morrer em paz! – disse.

Ela ia sair dali, mas naquele momento sua filha entrou para dar bom-dia. Ele olhou para a

filha como olhava para a esposa e, em resposta à pergunta sobre sua saúde, disse friamente que

muito em breve ele as livraria de sua presença. As duas calaram-se, esperaram um pouco e

saíram.

– Por que é que ele nos acusa? – perguntou Liza para sua mãe.

– É como se a culpa fosse

nossa. Eu estou muito sentida por ele, mas por que ele tem de nos atormentar?

O médico chegou na hora de sempre. Ivan Ilitch respondia sim e não, sem tirar seus olhos

enfurecidos de cima dele e no final disse:

– Você sabe muito bem que não pode fazer nada por mim, portanto deixe-me em paz!

– Nós podemos aliviar seu sofrimento, disse o médico.

– Nem isso vocês podem. Deixe-me!

O médico entrou na sala de visitas e disse a Praskovy a que o caso era muito sério e que o

único recurso que restava era o ópio, para aplacar os sofrimentos de seu marido, que deviam ser

terríveis.

Era verdade, como disse o médico, que a dor física de Ivan Ilitch era terrível, mas, pior do

que ela eram seus sofrimentos mentais, sua pior tortura.

Suas torturas mentais deviam-se ao fato de que, durante a noite, quando olhava para o rosto

calmo, de maçãs salientes, adormecido, de Gerassim, o que lhe vinha à cabeça era: “E se na

verdade toda minha vida tiver sido errada?”

.

Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes – que

ele não teria vivido como deveria. Veio-lhe à cabeça a idéia de que aquela sua leve inclinação

para lutar contra os valores das classes altas, aqueles impulsos de rebeldia que mal se notavam e

que ele havia tão bem aplacado talvez fossem a única coisa verdadeira, e o resto todo, falso. E

suas obrigações profissionais e a retidão de sua vida e sua família e sua vida social tudo falso e

sem sentido. Tentou defender essas coisas a seus próprios olhos e subitamente deu-se conta da

fragilidade do que estava defendendo. Não havia o que defender.

“Mas se é assim”

, falou para si,

“e se eu estou deixando essa vida consciente de que perdi

tudo o que me foi dado e não há como remediar – então, qual o sentido?” Ficou deitado e

começou a repassar toda sua vida mais uma vez – de manhã, quando viu primeiro o criado,

depois sua esposa, sua filha e então o médico, cada movimento que fizeram confirmava para elea terrível verdade. Durante a noite, olhando para eles podia ver a si mesmo – tudo aquilo por que

vivera –

, e viu claramente que estava tudo errado, uma horrível, monstruosa mentira camuflando

vida e morte. A consciência disso aumentava seu sofrimento dez vezes mais. Ele gemia e se

debatia e jogou para longe as roupas. Tinha a impressão de que elas o estavam sufocando e

abafando e odiou-as por isso.

Deram-lhe uma dose grande de ópio e ele perdeu a consciência, mas na hora do jantar tudo

começou outra vez. Mandou todos embora e debateu-se para tudo que é lado.

Sua esposa foi até ele e disse:

– Jean, meu querido, faça isso por mim! (por ela?) Não vai fazer mal nenhum e muitas

vezes ajuda. Não é por nada, entenda, mesmo as pessoas sãs, freqüentemente...!

Ele abriu os olhos.

– O quê? Me confessar? Para quê? Não é necessário. Mas...

Ela caiu em prantos.

– Por favor, meu querido. Vou chamar o nosso padre. Ele é um homem tão bom...!

– Está bem!

Quando o padre chegou e tomou sua confissão, sentiu-se mais calmo e experimentou até

uma espécie de alívio para suas dúvidas e, conseqüentemente, suas dores, e por um momento

sentiu voltar-lhe a esperança. Novamente pensou no apêndice e na possibilidade de cura.

Recebeu o sacramento com lágrimas nos olhos.

Quando eles o deitaram novamente sentiu-se melhor por algum tempo e reacendeu-se a

esperança de que pudesse viver. Começou a pensar na operação que lhe haviam sugerido fazer.

“Viver – eu quero viver!”

, disse para si. Sua mulher entrou para cumprimentá-lo com as

palavras habituais e acrescentou:

– Você está melhor, não está?

– Sim – ele disse, sem olhar para ela.

Seu vestido, sua figura, a expressão no seu rosto, o tom de sua voz, tudo nela dizia-lhe a

mesma coisa: “Errado! Tudo aquilo para o que você viveu e continua vivendo é mentira e

decepção disfarçadas de vida e morte!”

.

E tão logo admitia isso, a raiva voltava e com ela o sofrimento físico e a consciência do fim

inevitável. A isso se somavam uma nova percepção de dor cada vez maior e uma sensação de

sufocamento.

A expressão do seu rosto quando respondeu à esposa que sim, estava melhor, era terrível.

Depois disso, olhou-a bem nos olhos, virou o rosto com extraordinária rapidez para o seu estado

de fraqueza e gritou:

– Saia daqui. Vá embora. Deixe-me sozinho!12

Do momento em que começou a gritar, Ivan Ilitch prosseguiu por mais três dias e eram

gritos tão horríveis que podiam ser ouvidos de porta fechada, dois quartos adiante.

No momento em que respondeu à sua esposa deu-se conta de que estava perdido, que não

havia retorno, que o fim chegara, irremediável, enquanto suas dúvidas permaneciam sem

resposta.

“Oh! Oh! Oh!”

, gritava em diferentes entonações. Começara gritando “Não vou”

, e

continuava repetindo a vogal “O”! por horas.

Por três dias inteiros, durante os quais não existia para ele a noção de tempo, lutou contra

aquele buraco negro para dentro do qual estava sendo empurrado por um invisível e invencível

poder. Lutou como um condenado à morte luta nas mãos do carrasco, mesmo sabendo que não

há chance de salvação. E a todo momento sentia que, a despeito de toda sua luta, estava sendo

empurrado para cada vez mais perto do que temia. Percebera que sua agonia devia-se tanto ao

fato de estar sendo atirado naquele buraco negro quanto por ser incapaz de entrar nele

totalmente, como deveria. O que o impedia de entrar nele era sua insistência em dizer que sua

vida havia sido boa. Essa mesma falsa crença segurava-o e impedia-o de avançar, causando-lhe

ainda mais agonia do que qualquer outra coisa.

Subitamente sentiu-se atingido no peito e no lado, tornando-se ainda mais difícil respirar.

Afundou no buraco e lá no fundo dele havia uma luz. Aconteceu o que algumas vezes lhe

acontecera na estrada, quando tinha a sensação de estar andando para a frente quando na

verdade estava andando para trás e de repente conscientizava-se de estar na direção errada.

“Não. Estava tudo errado,

” disse para si mesmo.

“Mas não importa!” Ele podia agora fazer

a coisa certa.

“Mas o que é a coisa certa?”

, indagou-se e ficou calado, sem resposta.

Isto foi no final do terceiro dia, uma hora antes de sua morte. Neste exato momento, seu

filho entrara silenciosamente no quarto e se dirigira à cabeceira do pai. O moribundo ainda

gritava e agitava os braços desesperadamente. Sua mão caiu sobre a cabeça do garoto, que a

segurou, apertou-a em seus lábios e caiu em prantos.

Foi nesse exato momento que Ivan Ilitch caiu dentro do buraco e encontrou a luz e lhe foi

revelado que sua vida não fora o que deveria ter sido, mas que ainda era possível dar um jeito.

Perguntou-se o que era, afinal, a coisa certa e ficou quieto, escutando. Então, sentiu que alguém

beijava sua mão. Abriu os olhos e viu seu filho. Sentiu pena dele. Sua mulher se aproximou, olhou

para ela. Ela olhava-o fixamente de boca aberta, as lágrimas escorrendo no nariz e nas

bochechas e uma expressão de desespero no rosto. Sentiu pena dela também.

“Sim, sou um sofrimento para eles”

, pensou.

“Eles lamentam um pouco, mas vai ser muito

melhor para eles quando eu morrer!” Quis dizer-lhes isso, mas não tinha forças para falar.

“Além do mais, para que falar? Resta-me agir”

, pensou. Indicou com o olhar seu filho e disse

para a mulher:

– Leve-o daqui... sinto muito por ele. Lamento por você também.

– Tentou dizer “perdoe-

me”

, mas não conseguiu terminar e, fraco demais para tentar outra vez, acenou com a mão,

sabendo que quem estivesse interessado entenderia.

E de repente ficou claro para ele que aquilo que o estava oprimindo, e que parecera nãoquerer deixá-lo, agora esvanecia-se por todos os lados. Sentiu-se cheio de pena por eles, deveria

fazer alguma coisa para tornar-lhes isso tudo menos doloroso, libertá-los e libertar-se desse

sofrimento.

“Tão certo e tão simples”

, pensou.

“E a dor? O que foi feito da dor? Onde está você,

dor?”

Pôs-se a esperar por ela. Ficou esperando.

“Sim, aqui está. Bem... e daí? Deixe que ela venha. E a morte, onde está?”

Procurou seu antigo medo da morte e não o encontrou.

“Onde está? Que morte?” Não havia

medo porque também não havia morte.

Em seu lugar havia luz.

“Bem, então é isso!”

, exclamou em voz alta.

“Que bom!”

Para ele tudo aconteceu em um único instante e a sensação daquele instante não mudou dali

em diante. Para os que presenciavam sua agonia, esta durou mais duas horas. De sua garganta

ainda saía um som e via-se um estranho movimento de seu corpo já sem vida. Até que a

respiração ofegante e o som passaram a vir em intervalos cada vez maiores.

– Acabou! – disse alguém perto dele, o que ele repetiu dentro de sua alma.

“A morte está acabada”

, disse para si mesmo.

“Não existe mais.

Respirou profundamente, parou no meio de um suspiro, esticou o corpo e morreu.

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