Parte III: Traição em Roma
Parte III: Traição em Roma
Entram em Roma a cavalo, e a cidade envolve-os logo com o seu ruído, os gritos, os vendedores, e as multidões que se apertam nas ruas estreitas, como se aqui nada alguma vez tivesse parado.
— Já passou muito tempo — diz Quintus, observando os edifícios.— Demasiado tempo… — responde Maximus, com o olhar um pouco perdido.
— Ainda reconheces este lugar?— Sim… e ao mesmo tempo, não. Nada muda… e, no entanto, tudo parece diferente.
Quintus olha para ele de relance.— Não gostas de voltar?
Maximus hesita.— Já não sei o que sinto.
Chegam ao palácio, e os guardas afastam-se sem fazer perguntas, como se o nome de Maximus ainda bastasse.
Na grande sala, Marco Aurélio está de pé, calmo, quase frágil, e ao lado dele, Cómodo encara Maximus sem desviar o olhar.
— O agricultor voltou — diz Cómodo, com um leve sorriso.
Maximus não responde.
— Meu amigo… obrigado por teres vindo — diz o Imperador.— Estou aqui para ajudar.
Marco Aurélio faz-lhe sinal para o seguir.
Numa sala mais tranquila:
— Pareces cansado — diz Maximus.— Porque estou… mais do que imaginas.
Um silêncio.
— Maximus… vou morrer.
Maximus franze a testa.— Não diga isso tão depressa.
— Não… eu sinto.
Aproxima-se.— Roma precisa de outro caminho.
— Cómodo é teu filho.— Precisamente.
Maximus percebe.— O que queres dizer?
Marco Aurélio olha-o diretamente nos olhos.— Quero que tomes o poder depois de mim.
Maximus fica imóvel.— Eu?
— Sim.
— Sou soldado… não um governante.
Marco Aurélio sorri ligeiramente.— É por isso que te escolho.
Maximus abana a cabeça.— Só sei liderar homens na guerra.
— E sabes ser justo. Isso basta.
A porta abre-se de repente.
— O que estás a fazer?
Cómodo entra, furioso.
— Queres dar-lhe Roma? A ele?
— Cómodo…— Eu sou teu filho!
— Roma precisa de sabedoria.
Cómodo treme.— Estás a trair-me.
— Estou a proteger Roma.
Cómodo fixa Maximus.— Isto não vai ficar assim…
Sai.
Silêncio.
— Tem cuidado — diz Marco Aurélio.
Maximus não responde.
Mais tarde, no corredor:
— Viste o olhar dele? — pergunta Quintus.— Vi…
— É perigoso.— Já sei.
No dia seguinte, o palácio está em silêncio.
— O Imperador morreu.
Maximus vira-se.— Morreu?
— Doença… é o que dizem.
Maximus cerra os punhos.— É mentira.
— Estás a pensar em Cómodo?— Tenho a certeza.
Quintus baixa a voz.— Tem cuidado.
— Tenho de falar com ele.
— Espera—
Tarde demais. Soldados chegam.
— Maximus, estás acusado de traição.— Traição?
— Ordem do Imperador.— De Cómodo…
— Larga a tua arma.— Nunca.
O combate começa.
— Recua! — grita Quintus.
Maximus ataca, defende, recua, mas são demasiados.
— Eles vêm de todo o lado!
Uma lâmina atinge-o.
— Vai-te embora!— Não posso!
— É uma ordem!
Maximus hesita… depois foge.
— Tenho de voltar para casa…
A noite engole-o.
— Só mais um pouco…
A viagem é longa, mas ele continua.
Por fim, a quinta.
— Celia?
Silêncio.
— Marcus?
Nada.
A porta está aberta.
— Não…
Tudo está destruído.
Maximus cai de joelhos.— Não…
A voz falha-lhe.— Porquê…
Silêncio.
— Cómodo…
As mãos tremem-lhe.
— Tiraste-me tudo…
Levanta a cabeça.
— Mas não tudo.
— Vou voltar… e vais pagar.
Ruídos atrás dele.
— Quem está aí?
— Apanhem-no!
Lançam-se sobre ele.
— Larguem-me!
— De pé!
— Vale dinheiro.
— Levem-no.
— Vocês não sabem quem eu sou…
— Não nos interessa.
Amarram-no.
— Anda!
Maximus respira com dificuldade.
— Isto não acabou…
Um último olhar para a quinta.
— Vou voltar.
E levam-no.
A noite fecha-se atrás dele.