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BBC News 2021 (Brasil), Covid-19 e vitamina D: as falhas de estudo que levaram a desinformação

Covid-19 e vitamina D: as falhas de estudo que levaram a desinformação

Entre as muitas informações duvidosas espalhadas durante a pandemia,

é possível que você tenha se deparado com a sugestão de uso de vitamina D contra a covid

Isso porque, conforme o coronavírus se propaga, outro perigo vem junto,

que é a desinformação sobre como tratar a covid ou supostas formas de tratar precocemente

E muitas vezes as fakes news são criadas a partir de uma informação verdadeira – mas que depois é

distorcida ou tirada de contexto, por exemplo. E essas são as mais difíceis de combater

Eu sou a Laís Alegretti, da BBC News Brasil aqui em Londres, e neste vídeo eu vou explicar

que hoje não temos comprovação científica de que a vitamina D seja eficaz contra a covid

E vou falar sobre as falhas que levaram um estudo sobre esse tema a ser tirado

do ar por uma renomada revista científica. Primeiro, é importante dizer que criar uma

hipótese de que um tratamento pode ser eficaz e, depois de estudos sérios, verificar que não é o

caso, faz parte do processo científico normal. O problema é que, hoje em dia, pesquisas em

fases iniciais ou mesmo de baixa qualidade têm sido compartilhadas fora de contexto

E aí, isso pode ser explorado por quem quer promover teorias da conspiração

Então vamos lá: qual é a lógica por trás do argumento de que a vitamina D poderia

ser útil no tratamento ou prevenção da covid? A informação científica aqui é que a vitamina

D de fato desempenha um papel na imunidade do nosso corpo

E inclusive alguns países que têm dias curtos e pouca luz no inverno costumam

recomendar o suplemento nesse período do ano, como no caso aqui no Reino Unido

Mas, pelo menos até hoje, nenhuma pesquisa mostrou um efeito suficientemente convincente para apoiar

o uso de altas doses de vitamina D para prevenir ou tratar doenças

E o que dizem os cientistas sobre a relação com a covid, especificamente?

Até agora, as conclusões de estudos associando vitamina D e coronavírus

não são fortes o suficiente. Muitas pesquisas mostraram uma

associação entre a vitamina D e a covid, mas a evidência é meramente empírica — o que

significa que outros fatores não estão sendo controlados e monitorados para se determinar

com precisão uma relação de causa e efeito. Ou seja, se o que aconteceu com aquele paciente

é uma consequência da vitamina D ou não. É por isso que as conclusões desse tipo

de estudo não são robustas o suficiente. Seria necessário, por exemplo, um ensaio

clínico conhecido como randomizado, no qual algumas pessoas recebem tratamento e outras,

placebo, para que os cientistas possam ter certeza de que o resultado é causado,

de fato, por aquele tratamento. Os chamados estudos observacionais

mostram que alguns grupos são mais propensos tanto a ter deficiências de vitamina D quanto a pegar

covid — em geral, pessoas mais velhas, pessoas com obesidade e pessoas com pele mais escura

Pode ser que a deficiência de vitamina D seja o motivo pelo qual esses grupos correm maior risco,

ou pode haver outros fatores de saúde e ambientais que levam à queda nos níveis

de vitamina D e maior suscetibilidade ao vírus. Outro ponto é que os níveis da vitamina também

podem cair como consequência da doença, em vez de serem causa

Assim, os cientistas só serão capazes de analisar a vitamina D como causa realizando testes

controlados randomizados conduzidos adequadamente, como em uma pesquisa que está em andamento hoje na

Universidade Queen Mary's, no Reino Unido. E qual é a história do artigo que foi muito

compartilhado e agora está sendo investigado? Um estudo da Universidade de Barcelona, na

Espanha, chamou atenção ao sugerir que a vitamina D teria um sucesso impressionante, com uma redução

de 80% nas admissões em terapia intensiva e uma redução de 60% nas mortes de covid

O resultado foi muito compartilhado, mas o estudo virou alvo de críticas porque não

seguiu métodos robustos o suficiente para apontar para essas conclusões

O artigo foi retirado do ar por "preocupações sobre a descrição da pesquisa"

A revista científica The Lancet, que o publicou originalmente,

está agora conduzindo uma investigação sobre ele

No estudo, a vitamina D foi administrada a todos os pacientes em enfermarias,

em vez de aleatoriamente para indivíduos, como deveria ter sido feito em uma pesquisa rigorosa

E os pacientes de covid estudados que morreram já tinham níveis radicalmente

diferentes da vitamina antes do tratamento, sugerindo que eles estavam mais gravemente

doentes antes mesmo de tomar a vitamina. A anestesiologista e médica de cuidados

intensivos Aurora Baluja, que revisou o estudo de Barcelona para a Lancet, disse que o tipo de

efeito "extremo" relatado no artigo "nunca foi encontrado" em um ensaio clínico randomizado

Ela disse que, embora a deficiência de vitamina D fosse um "fator de risco bem estabelecido" entre

as pessoas que morrem na terapia intensiva, "a suplementação de vitamina D sozinha sempre

falhou em reduzir o risco desses pacientes". Baluja explica que a deficiência é frequentemente

causada por algo muito mais profundo, como desnutrição ou insuficiência renal

Assim, não seria a deficiência de vitamina D que estaria causando a morte dos pacientes

Ainda assim, a ideia de que a vitamina D pode ser um tratamento eficaz

contra a covid-19 ganhou inúmeros adeptos. No Brasil, a vitamina D é uma coadjuvante

do kit covid, que contém medicamentos sem eficácia comprovada ou já comprovadamente

ineficazes para a covid-19, como ivermectina e hidroxicloroquina

Esse conjunto é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro como um tratamento precoce,

mas, na verdade, contribui para aumentar o número de mortes de pacientes graves,

segundo disseram à BBC News Brasil diretores de UTI de hospitais brasileiros de referência

O grande perigo das informações falsas sobre a vitamina D é exatamente quando

ela é retratada como uma cura milagrosa e como uma alternativa a medidas com comprovação científica

para combater a pandemia, como vacinação, uso de máscaras e distanciamento social

E todo esse movimento de acreditar numa cura milagrosa tem explicação psicológica

O professor Sander Van der Linden, psicólogo social da Universidade de Cambridge,

diz que quando informações se encaixam na visão de mundo das pessoas — por exemplo, que "as coisas da

natureza não podem fazer mal" —, a probabilidade de serem compartilhadas tende a ser maior

E aí, misturam-se desde grupos que defendem o uso exclusivo de medicamentos naturais e

medicina alternativa até outros que são ideologicamente contra a vacinação

E algumas vezes esses grupos distintos acabam se unindo em torno de uma ideia

que se encaixa em ambas crenças. Então é isso: as informações sobre

a vitamina D podem não parecer as mais nocivas que circulam na internet, porque

a vitamina D é relativamente segura, embora altas doses possam causar cálculos renais

Mas o perigo principal mora nessas ideias aparentemente milagrosas que vêm junto - seja

de um tratamento que, segundo a ciência, não é eficaz, seja abrindo mão de medidas de fato

eficazes, como o distanciamento social, o uso de boas máscaras e a vacinação

Espero que este vídeo tenha sido útil. Não deixem de se inscrever no nosso canal do

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