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PortCast - European Portuguese, PETER DA SILVA, CABELEIREIRO ACIDENTAL - Catarina Stichini e Peter da Silva

Peter da Silva tem um salão de cabeleireiro no Bairro Alto, uma das zonas emblemáticas da capital portuguesa. Nesta pequena entrevista, conta-nos como tudo começou, com a ida dos seus pais para França no início dos anos 60, como a sua vida era nessa altura, como se tornou cabeleireiro e por que decidiu mudar-se para Lisboa.

Peter, onde é que nasceste?

Nasci em Agenteuil, nos arredores de Paris. O meu pai tinha ido para lá em 1961 e a minha mãe, em 63. Fugiram da miséria em Portugal, de Salazar, da ditadura, como muitas pessoas do Norte do país. Em França havia trabalho.

Como foi a vida dos teus pais lá, nos primeiros tempos?

Não foi fácil. Não havia casas para toda a gente, então foram para um bairro de barracas. Como havia uma crise de alojamento, era precisa mão de obra para a construção. Muitos viviam em barracas que eles próprios construíam com ferro e madeira. Outros tinham a sorte de ter uma caravana ou uma coisa mais confortável. O meu pai pegou num autocarro e transformou-o numa casa. Até salamandra tínhamos! Vivemos lá três anos e depois mudamo-nos para uma casa. Era uma alegria imensa no bairro porque havia uma mistura enorme de imigrantes de todos os países. O bairro não era assim tão grande e juntava-se muita gente engraçada. Ao fim de semana, havia bailes e muita alegria. Não era fácil para os nossos pais. A vida era dura, mas as pessoas juntavam-se e faziam festas.

O que faziam os teus pais?

A minha mãe trabalhava numa fábrica e o meu pai, nas obras. Os meus pais tinham três filhos, trabalhavam muito e tinham que se organizar. Havia amigas da minha mãe que às vezes tomavam conta de nós.

Como é que te sentias com a ausência dos teus pais? Como é que isso te afetou?

Sentia-me sozinho e não estudava nada. Tinha resultados fracos na escola.

Costumavam vir a Portugal?

Nos primeiros anos, não. A primeira coisa que o meu pai comprou quando pôde foi um carro. Primeiro, ele veio sozinho, sem nós. Depois passamos a vir todos os anos, no verão.

Qual era a imagem que tinhas do país?

A imagem que tinha quando era miúdo era a de um mundo totalmente diferente. Era o campo. Os meus avós tinham vacas. Antes do 25 de abril não havia leite pasteurizado, toda a comida que tínhamos em França, como iogurtes e isso, não havia cá. Eu comia pouco. Para a minha mãe era horrível. Eu adorava os gelados da Olá, as pastilhas Gorila, batatas fritas e ovos estrelados, com os ovos das galinhas da minha avó.

Como é que te tornaste cabeleireiro?

Nunca pensei ser cabeleireiro. Por acaso, odiava ir ao cabeleireiro. A moda era o cabelo comprido, eu odiava. Como na escola as minhas notas eram mais ou menos, no 5º ano a psicóloga educacional disse para eu ir para o Liceu Técnico, porque era bom a Matemática. Isso foi do pior! Dois anos, chumbei a tudo. Depois já ia fazer 16 anos e a minha irmã disse que me via mais numa coisa relacionada com a beleza. “Por que não tentas trabalhar num cabeleireiro?” A minha tia perguntou ao cabeleireiro dela se ele precisava de um aprendiz. Acabei as aulas em julho, fui de férias e comecei no salão em setembro. Comecei assim a minha escola profissional de cabeleireiro. Estive lá três anos.

Como é que essa primeira experiência num cabeleireiro afetou a tua vida?

Entrei no mundo do trabalho, conheci a vida de Paris, tive o primeiro salário. Tinha 16 anos... Comecei a afirmar-me, conheci um mundo novo.

Porque te mudaste para Portugal?

Na altura, já estava farto de Paris, da vida que tinha, que não era má. Tinha vontade de sair. Queria ir para os EUA, onde tinha amigos, mas deu-se o 11 de setembro e a coisa complicou-se. Como também tinha amigos cá, pensei experimentar Lisboa e assim foi.

E isso foi em que ano?

Em 2003.

Como é que correu tudo em Lisboa?

Foi ótimo! Acho que tive muita sorte! Acho que quando tens vontade de mudar, essa força de tentar mudar a vida faz com que se abram portas. É incrível! E quando é o teu destino, é o teu destino. Vim cá ver o mercado no verão, fui a alguns salões bons que me tinham recomendado. E a amiga de uma amiga falou-me no WIP, na Bica. Fui lá e falei com o Gabi, que falava francês e queria que eu começasse em setembro. Regressei a França, tratei de tudo e vim para Lisboa em novembro. E eles à espera... Fiquei lá cinco anos e foi ótimo.

Quando decidiste abrir o teu próprio salão?

Em 2010, porque antes disso trabalhei sozinho num spa onde as coisas não correram bem e decidi abrir um espaço meu.

Como é ter um salão no Bairro Alto? Qual é a tua relação com os moradores?

Boa, por acaso. Tenho bastantes clientes que moram aqui. Não conhecia bem o Bairro Alto durante o dia - que não tem nada a ver com à noite - e a relação que tive com as pessoas foi logo boa. Gosto mais do Bairro Alto durante o dia.

O que distingue o Peter in the Air de outros salões?

O atendimento personalizado. Como trabalho sozinho, as pessoas gostam de estar aqui só comigo. E gostam do meu trabalho, que não é clássico.

Quais são os teus sítios preferidos na cidade?

Gosto das pastelarias aqui do bairro. À noite há aqui muitos restaurantes bons, com comida estrangeira muito diferente. Agora há uma grande variedade de comida aqui. Acho que é um dos bairros mais giros de Lisboa. Gosto muito de viver e trabalhar aqui!



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Peter da Silva tem um salão de cabeleireiro no Bairro Alto, uma das zonas emblemáticas da capital portuguesa. Nesta pequena entrevista, conta-nos como tudo começou, com a ida dos seus pais para França no início dos anos 60, como a sua vida era nessa altura, como se tornou cabeleireiro e por que decidiu mudar-se para Lisboa.

Peter, onde é que nasceste?

Nasci em Agenteuil, nos arredores de Paris. O meu pai tinha ido para lá em 1961 e a minha mãe, em 63. Fugiram da miséria em Portugal, de Salazar, da ditadura, como muitas pessoas do Norte do país. Em França havia trabalho.

Como foi a vida dos teus pais lá, nos primeiros tempos?

Não foi fácil. Não havia casas para toda a gente, então foram para um bairro de barracas. Como havia uma crise de alojamento, era precisa mão de obra para a construção. Muitos viviam em barracas que eles próprios construíam com ferro e madeira. Outros tinham a sorte de ter uma caravana ou uma coisa mais confortável. O meu pai pegou num autocarro e transformou-o numa casa. Até salamandra tínhamos! Vivemos lá três anos e depois mudamo-nos para uma casa. Era uma alegria imensa no bairro porque havia uma mistura enorme de imigrantes de todos os países. O bairro não era assim tão grande e juntava-se muita gente engraçada. Ao fim de semana, havia bailes e muita alegria. Não era fácil para os nossos pais. A vida era dura, mas as pessoas juntavam-se e faziam festas.

O que faziam os teus pais?

A minha mãe trabalhava numa fábrica e o meu pai, nas obras. Os meus pais tinham três filhos, trabalhavam muito e tinham que se organizar. Havia amigas da minha mãe que às vezes tomavam conta de nós.

Como é que te sentias com a ausência dos teus pais? Como é que isso te afetou?

Sentia-me sozinho e não estudava nada. Tinha resultados fracos na escola.

Costumavam vir a Portugal?

Nos primeiros anos, não. A primeira coisa que o meu pai comprou quando pôde foi um carro. Primeiro, ele veio sozinho, sem nós. Depois passamos a vir todos os anos, no verão.

Qual era a imagem que tinhas do país?

A imagem que tinha quando era miúdo era a de um mundo totalmente diferente. Era o campo. Os meus avós tinham vacas. Antes do 25 de abril não havia leite pasteurizado, toda a comida que tínhamos em França, como iogurtes e isso, não havia cá. Eu comia pouco. Para a minha mãe era horrível. Eu adorava os gelados da Olá, as pastilhas Gorila, batatas fritas e ovos estrelados, com os ovos das galinhas da minha avó.

Como é que te tornaste cabeleireiro?

Nunca pensei ser cabeleireiro. Por acaso, odiava ir ao cabeleireiro. A moda era o cabelo comprido, eu odiava. Como na escola as minhas notas eram mais ou menos, no 5º ano a psicóloga educacional disse para eu ir para o Liceu Técnico, porque era bom a Matemática. Isso foi do pior! Dois anos, chumbei a tudo. Depois já ia fazer 16 anos e a minha irmã disse que me via mais numa coisa relacionada com a beleza. “Por que não tentas trabalhar num cabeleireiro?” A minha tia perguntou ao cabeleireiro dela se ele precisava de um aprendiz. Acabei as aulas em julho, fui de férias e comecei no salão em setembro. Comecei assim a minha escola profissional de cabeleireiro. Estive lá três anos.

Como é que essa primeira experiência num cabeleireiro afetou a tua vida?

Entrei no mundo do trabalho, conheci a vida de Paris, tive o primeiro salário. Tinha 16 anos... Comecei a afirmar-me, conheci um mundo novo.

Porque te mudaste para Portugal?

Na altura, já estava farto de Paris, da vida que tinha, que não era má. Tinha vontade de sair. Queria ir para os EUA, onde tinha amigos, mas deu-se o 11 de setembro e a coisa complicou-se. Como também tinha amigos cá, pensei experimentar Lisboa e assim foi.

E isso foi em que ano?

Em 2003.

Como é que correu tudo em Lisboa?

Foi ótimo! Acho que tive muita sorte! Acho que quando tens vontade de mudar, essa força de tentar mudar a vida faz com que se abram portas. É incrível! E quando é o teu destino, é o teu destino. Vim cá ver o mercado no verão, fui a alguns salões bons que me tinham recomendado. E a amiga de uma amiga falou-me no WIP, na Bica. Fui lá e falei com o Gabi, que falava francês e queria que eu começasse em setembro. Regressei a França, tratei de tudo e vim para Lisboa em novembro. E eles à espera... Fiquei lá cinco anos e foi ótimo.

Quando decidiste abrir o teu próprio salão?

Em 2010, porque antes disso trabalhei sozinho num spa onde as coisas não correram bem e decidi abrir um espaço meu.

Como é ter um salão no Bairro Alto? Qual é a tua relação com os moradores?

Boa, por acaso. Tenho bastantes clientes que moram aqui. Não conhecia bem o Bairro Alto durante o dia - que não tem nada a ver com à noite - e a relação que tive com as pessoas foi logo boa. Gosto mais do Bairro Alto durante o dia.

O que distingue o Peter in the Air de outros salões?

O atendimento personalizado. Como trabalho sozinho, as pessoas gostam de estar aqui só comigo. E gostam do meu trabalho, que não é clássico.

Quais são os teus sítios preferidos na cidade?

Gosto das pastelarias aqui do bairro. À noite há aqui muitos restaurantes bons, com comida estrangeira muito diferente. Agora há uma grande variedade de comida aqui. Acho que é um dos bairros mais giros de Lisboa. Gosto muito de viver e trabalhar aqui!


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